rapazes, de 17 e 20 anos, acompanhados pelo GLOBO, são assassinados numa troca de tiros com a polícia na Baixada

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Jovens mortos há dez dias pela polícia atuavam no Gogó da Ema e eram ligados ao Comando Vermelho — Foto: Equipe de Arte


A memória de Ana (nome fictício) permanece na última semana de janeiro, quando ela e o filho ficaram juntos, entre beijos e abraços, como há muito tempo não acontecia. Em especial, ela lembra do dia em que ambos estão sentados no chão da sala, ela massageando delicadamente os pés do rapaz, de 20 anos, enquanto orava mentalmente, pedindo para que Deus o mantivesse firme na decisão de deixar o tráfico. Rompendo o silêncio, ele pede para que a mãe coloque um louvor, daqueles que ouviam quando ele era criança. “Um milagre, eu precisava de um milagre / Quando tudo parecia escuridão”, toca a música do grupo gospel Quatro por Um. Ela se emociona. Dias depois, Ana recebe a notícia de que o filho morreu, junto a mais três colegas de facção, voltando de uma “guerra” no Castelar, em Belford Roxo.

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O registro da morte, feito pela PM no dia 30, resume que uma equipe do 39° BPM foi acionada após o setor de inteligência avisar sobre uma troca de tiros na comunidade do Gogó da Ema, chefiada pelo Comando Vermelho. A informação detalhava ainda que criminosos estariam em um HB20 prata. A equipe foi ao local, encontrou o veículo e, no momento da aproximação, houve confronto: “os ocupantes passaram a efetuar disparos de arma de fogo, caracterizando injusta agressão, sendo necessário o revide proporcional para cessar a ameaça”. Os agentes escreveram na ocorrência que a ação durou, no máximo, quatro minutos.

O filho de Ana e os outros rapazes foram encontrados baleados no carro. Os policiais que participaram da ação afirmaram que todos tinham sinais vitais e foram levados para o Hospital municipal de Belford Roxo, onde morreram. Não houve perícia no local do crime porque havia “risco de novos confrontos”. Quatro fuzis, uma granada e cinco celulares foram apreendidos.

O GLOBO acompanhava o filho de Ana pelas redes sociais há dois meses, além de outro que também estava no carro e faleceu. Este, de 17 anos, começou a ter o perfil monitorado logo após a megaoperação policial na Penha, em 28 de outubro, na qual 117 suspeitos foram mortos. A história de ambos faz parte da série “Juventude Perdida”, que começou a ser publicada em dezembro. Os rapazes das primeiras reportagens, todos amigos, tinham ligações com esses dois mortos do dia 30.

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Ana correu para o hospital, mas foi surpreendida com a impossibilidade de ver o filho. Precisou aguardar a transferência para o Instituto Médico Legal da Baixada Fluminense. No entanto, durante a espera, soube que uma foto dele, já morto, circulava por grupos de WhatsApp ligados a rivais do Terceiro Comando Puro. A legenda era o vulgo dele com uma sequência de emojis de fogo.

— Sei que não tenho como provar, mas parece que a morte do meu filho foi comprada. Testemunhas disseram que viram os meninos rendidos, algemados no chão. Depois, os agentes exigiram que todos se retirassem. E, ai, eles aparecem mortos. A última cena que tenho dele é todo ensanguentado numa foto. Ele escolheu uma vida errada, mas era meu filho — lamenta Ana.

A mãe desconhece os motivos que fizeram o filho entrar para o tráfico. Na verdade, ele e o irmão, dois anos mais velho, ingressaram simultaneamente. A data, no entanto, ela sabe de cor: virada de 2018 para 2019, quando eles tinham, respectivamente, 13 e 15 anos. Enquanto os pais trabalhavam, eles fugiram para o baile que acontecia na comunidade onde moravam, dominada pelo TCP.

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— Quando eu cheguei em casa, bati nos dois. Meus filhos foram criados brincando na rua, mas, depois que começou a ter boca de fumo, tivemos que privá-los disso. Eles não aceitaram bem e, sempre que tinham oportunidade, fugiam. Nesse dia, foi isso. Eu briguei com eles, mas continuaram indo — explica Ana, que já foi em muitas festas como essa atrás deles.

A dupla, como conta, ficou “indo e voltando” no tráfico, decisões sempre tomadas em conjunto. A situação mudou quando o irmão foi assassinado pelo próprio TCP, em junho de 2024. O corpo nunca foi entregue à família, nem a justificativa foi revelada. Para evitar contestações, chefes da facção impediram que o caçula voltasse para a comunidade. E foi assim que ele migrou para o CV.

— Meus filhos foram usados. É isso que o tráfico faz, usa as pessoas. O Comando Vermelho, por exemplo, se aproveitou da raiva do meu filho, da sede de vingança dele, para prometer um monte de coisa. Nunca deixei faltar nada para eles, eu e meu marido abrimos mão da gente por eles, mas parece que a vida os guiou dessa forma, primeiro, com más influências, depois, com ilusões — compartilha a mãe.

Ana confessa ter denunciado o filho algumas vezes à polícia, na expectativa de que, preso, ele não morresse como o irmão. O menino estudou até o segundo ano do ensino médio. Foi matriculado em uma série de cursos oferecidos pelo município e até chegou a participar de obras da Prefeitura de Queimados por meio de uma empresa terceirizada. Contudo, ele sempre retornava para o tráfico:

— Eu vi chefes importantes do Comando Vermelho ligarem para ele pedindo para voltar. Gente grande, lá da Penha. Não tinha ameaça, mas colocavam coisas na cabeça dele. No final, ele sempre me ligava chorando, dizia: “mãe, eu não aguento mais, eu quero sair, mas não consigo. Eu já sou procurado, já está tudo perdido”. Eu tentava fazer ele se convencer de que era importante limpar o nome, ficar com a vida resolvida, mas nada o convencia por muito tempo. Eu sei que fica essa visão de que ele é bandido, mas meu filho era uma pessoa maravilhosa, sempre foi — diz Ana, emocionada.

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Enquanto estava no tráfico, ele foi apreendido três vezes e levado para o Departamento de Ações Socioeducativas (Degase). A mãe comenta que, durante as audiências de custódia, afirmava à juíza não ter condições de levá-lo para casa, pois sabia que ele voltaria para o crime — o que aconteceu em todas as vezes.

De acordo com o Instituto de Segurança Pública, 109 adolescentes foram apreendidos em 2025 na região da 54ª DP (Belford Roxo). Esse número é cerca de 82% maior do que em 2024, quando 60 ocorrências foram registradas, e recupera os índices de anos anteriores à pandemia, quando, em 2019, 125 apreensões foram notificadas no município.

— Eu fiz o que pude para evitar que esse fosse o final do meu filho. Meu maior sonho era olhar para ele e saber que ele superou esse momento difícil da vida. Ver ele se tornar um novo homem. Mas não vai acontecer — completa a mãe.

Convite do chefe do tráfico

O adolescente que morreu no dia 30 é conhecido pela Polícia Civil desde os 13 anos, quando foi apreendido e prestou depoimento na Delegacia de Homicídios da Capital. À época, acompanhado pela mãe, ele contou que entrou para o tráfico aos 11 anos a convite de Carlos da Costa Neves, o Gardenal, um dos chefes do CV na Penha. O “batismo” dele foi o assassinato de um desafeto da facção. Ele puxou o gatilho e, desde então, ganhou a confiança do grupo.

A policiais, ele contou que atirou 10 vezes contra a vítima, usando uma pistola calibre 9mm, e completou: “Que não se arrepende de ter matado o homem na Penha, porque não sabe fazer outra coisa. Que sua mãe sabe de seu envolvimento com o tráfico e ‘não liga’ e, que foi criado, por sua avó. Que não estuda. Que gosta da vida no crime e que os traficantes não autorizam sua saída”. No relato, ele expõe ter abandonado a escola no sexto ano do Ensino Fundamental.

— A gente entende que a motivação desses jovens no crime é financeira, não exatamente porque eles vivem essa vulnerabilidade ao extremo, mas porque o desejo de consumo, clássico da nossa sociedade, é uma forte influência. Existe uma glamourização desse estilo de vida em bailes, músicas, uma propaganda de uma vida gloriosa, cheia de joias, mulheres e poder. Como são adolescentes, eles não conseguem analisar os riscos a longo prazo, então, os cálculos não são racionais. São imaturos e afetados pelas performances de sucesso dos traficantes mais velhos, sendo coaptados facilmente. Além disso, a falta de perspectiva do trabalho formal acaba desestimulando esses meninos, que se voltam para o tráfico — resume Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF).

Durante os anos no tráfico, o adolescente atuou na Gardênia Azul, onde namorou uma adolescente também faccionada, e, no ano passado, foi transferido para o Gogó da Ema. Ele e o filho de Ana integravam a mesma equipe, destinada às disputas territoriais com o TCP na Baixada Fluminense. Nas redes sociais, os dois aparecem juntos, trajados com roupas camufladas, armados com fuzis e equipados com coletes balísticos.



Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/02/08/juventude-perdida-rapazes-de-17-e-20-anos-acompanhados-pelo-globo-sao-assassinados-numa-troca-de-tiros-com-a-policia-na-baixada.ghtml

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