Se existe um encontro que marca oficialmente o início do ano esportivo do Rio de Janeiro, ele acontece com tênis amarrados, corpo desperto e o Aterro do Flamengo ainda acordando. A Corrida de São Sebastião, que chega à sua 35ª edição, não é apenas mais uma prova de rua: é tradição carioca, é feriado vivido em movimento, é a cidade celebrando a si mesma no ritmo dos próprios passos. No dia 20 de janeiro, o Rio corre junto — profissionais, amadores, iniciantes, famílias, amigos — todos alinhados pela mesma energia.
Falo também a partir da vivência de quem correu por muitos anos, alinhou corpo e mente em cinco maratonas e construiu, no asfalto, uma relação profunda com o esporte. Há provas que ficam na memória pelo tempo, outras pelo percurso. A Corrida de São Sebastião permanece pelo simbolismo. Ela abre ciclos, marca recomeços e estabelece o primeiro compromisso do ano com a saúde, com o movimento e com a própria cidade.
Ao longo de mais de três décadas, essa prova deixou de ser apenas uma corrida para se tornar um patrimônio afetivo do Rio. Ela atravessa gerações, reúne quem corre por performance e quem corre por prazer, quem busca pódio e quem busca superação pessoal. Não por acaso, inaugura o calendário esportivo da cidade e reafirma a força da corrida de rua como expressão urbana, democrática e profundamente carioca.
Esse protagonismo aparece também na forma como o Rio vem se consolidando como referência nacional na modalidade. Para Guilherme Schleder, secretário municipal de Esportes, a Corrida de São Sebastião simboliza esse momento de maturidade do esporte na cidade. “A Corrida de São Sebastião é uma das mais tradicionais do calendário de corridas de rua do Rio, a primeira grande prova de 2026. O Rio se consolidou como referência da modalidade e a meta deste ano é superar as 209 provas realizadas em 2025. Eventos esportivos como essa corrida vão muito além da prova: movimentam a economia, geram empregos e fomentam o turismo. Será mais um evento de grande sucesso, em um cenário que só o Rio de Janeiro pode oferecer”, afirma.
A fala traduz um dado essencial: correr no Rio hoje é também pensar cidade, economia, turismo e qualidade de vida como um mesmo projeto.
Há ainda uma dimensão simbólica que faz dessa corrida algo único. Ela acontece sob a proteção do padroeiro da cidade e carrega uma atmosfera quase ritualística. Anna Laura Secco, subsecretária de Esportes, lembra que, no próximo dia 20, sob as bênçãos de Dom Orani, será realizada a 35ª edição da corrida de rua mais tradicional da cidade, abertura oficial do calendário e parte do calendário oficial do Rio. Ela destaca também o elo afetivo com a prova, organizada por João Traven, amigo de longa data dos tempos em que corria com ele, e a expectativa de alinhar novamente nos 5 km, pelo terceiro ano consecutivo. “É uma corrida incrível, com uma energia muito bacana. A festa é linda.”

Essa energia que atravessa a cidade se reflete nas pessoas que vivem o esporte no cotidiano. Rose Lins, corredora assídua e presença constante nas provas do calendário carioca, traduz bem o impacto transformador da corrida. “A Corrida de São Sebastião, pra mim, é mais do que quilômetros percorridos. É fé que me fortalece, determinação que me move e gratidão por cada passo dado. Que São Sebastião nos cubra de proteção e nos ajude a seguir firmes na corrida da vida.”

O impacto vai além da experiência individual. O vereador Flávio Valle, presidente da Comissão de Turismo da Câmara Municipal e corredor frequente, define a Corrida de São Sebastião como uma celebração da cultura esportiva carioca, das paisagens à beira-mar e do cuidado com o corpo e a saúde. Para ele, ver a cidade se movimentar em torno do esporte é ver a cidade se cuidar, integrando bairros, gerações, turismo, economia e uma agenda esportiva cada vez mais viva.
A organização técnica, conduzida por João Traven e pela Spiridon Promoções, mantém o equilíbrio entre tradição e atualização. A largada às 6h30, pensada para oferecer mais conforto térmico e segurança em pleno verão, é exemplo claro de como ouvir quem corre faz parte dessa história.

Com percursos de 5 km e 10 km, a Corrida de São Sebastião acolhe diferentes níveis e propósitos. E, ao cruzar a linha de chegada, cada corredor leva mais do que uma medalha: leva a sensação de pertencimento a uma cidade que se movimenta, se cuida e se reconhece no esporte.
A Corrida de São Sebastião é isso: tradição que se renova, cidade que pulsa, corpos em movimento e encontros que só o Rio sabe proporcionar. Porque, no fim das contas, correr aqui é um ato de amor — ao corpo, à cidade e à vida — por amor ao movimento.

