Quadrilha que produzia armas em impressoras 3D: veja quem são os integrantes e como era a divisão de tarefas

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O Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou à Justiça cinco integrantes de uma quadrilha responsável por produzir, divulgar e vender armas, assim como seus acessórios, produzidas por meio de impressoras 3D. De acordo com a promotoria, o grupo consistia numa “organização criminosa estruturada”, com “sistema hierárquico definido” e “clara divisão de tarefas”. O comando estava a cargo de Lucas Alexandre Flaneto de Queiroz, a quem se associaram Gianluca Bianchi, Luigi Barbin da Costa, Vinicius Soriano Hernandes e João Guilherme Pinto. Saiba como atuava cada um.
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As peças são conhecidas como ghost guns — armas fantasmas, em tradução livre —, devido à impossibilidade de serem rastreadas. E teriam sido vendidas para ao menos 11 estado entre 2021 e 2022. Três integrantes do bando, incluindo Lucas Alexandre, foram presos em ação policial na quinta-feira. Saiba como atuava cada um.
Lucas Alexandre Flaneto, Gianluca Bianchi, Vinicius Soriano, Luigi Barbin e João Guilherme Pinto
Reprodução
1 – Lucas Alexandre Flaneto de Queiroz – líder
De acordo com o MP, Lucas, de 26 anos, é o líder técnico e ideológico da organização. Residente do Espírito Santo e nascido em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, possui histórico acadêmico sólido. Em 2019, ele ingressou no curso de Engenharia Eletrônica do Cefet/RJ e chegou a participar de um programa de iniciação científica. Posteriormente, foi aprovado no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e, mais recentemente, manteve vínculo com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), onde cursava Engenharia Elétrica.
Lucas se identificava nas redes sociais como Zé Carioca ou Joseph The Parrot. Ele é autor do design da arma Urutau, feita a partir de impressão 3D Urutau. O projeto foi lançado em um comercial em seu perfil no X em 2024. O vídeo intercalava o slogan “Testado nos EUA, projetado no Brasil e feito na sua casa” com imagens do armamento em ação.
Ele estava diretamente envolvido na comercialização de peças e acessórios compatíveis com armamento real, vendendo carregadores de 30 tiros para pistolas Glock na plataforma Mercado Livre, de forma contínua, ao menos entre 2021 e 2022.
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Além de vender as peças 3D necessárias para a construção das armas em diferentes plataformas na internet, mantinha um site próprio para a comercialização, por meio do qual era viabilizado o pagamento com a utilização de criptoativos. O endereço eletrônico apresentava modelos de armas que podem ser fabricados e tutoriais e manuais detalhados de impressão e montagem de armas de fogo.
“A qualificação técnica de Lucas Alexandre é inquestionável, havendo diversas informações colhidas em fontes abertas acerca de trabalhos por ele realizados no desenvolvimento de tecnologias para drones, aprovação em vestibular para engenharia metalúrgica e engenharia de computação. Com suporte nesses conhecimentos, aliado ao auxílio prestado pelos demais integrantes, Lucas divulga constantemente informações sobre novas versões do projeto Urutau. Assim, constata-se que Lucas é o principal mentor, divulgador e comerciante das armas desenvolvidas pelo grupo criminoso “, diz trecho da denúncia do MP.
2 – Gianluca Bianchi – colíder
Segundo o Ministério Público, Gianluca, de 30 anos, é sócio de Lucas e está vinculado à organização por meio de múltiplos elementos, combinando conhecimentos técnicos, logística e presença em ambientes digitais comuns.
O MP constatou que o pai de Gianluca, Giancarlos Bianchi, tem uma empresa especializada em ferragens, chamada Bina Ferragens e Peças Ltda, e que Gianluca utilizava a estrutura da companhia para a produção das partes metálicas necessárias ao desenvolvimento das armas 3D vendidas pelo grupo. “Isso porque as armas 3D não podem ser feitas exclusivamente de materiais impressos com polímeros plásticos, dependendo, também, de peças de metal, inclusive canos raiados, de forma a garantir que o projétil seja expelido com segurança e maior precisão possível”, destaca o órgão.
“Evidencia-se, portanto, que os vínculos entre os envolvidos são fortes, havendo cooperação na produção, testagem e criação das armas, inclusive com a possibilidade de haver criação das partes metálicas das armas (que não podem ser impressas) pelos envolvidos, em especial com a participação de Gianluca, por meio da empresa de seu pai. Com isso, os envolvidos conseguem vender kits completos dessas armas”, diz o MP em outra parte da denúncia.
3 – Vinicius Soriano Hernandes – apoio técnico
Conhecido como Sandmann, Vinícius Soriano, de 25 anos e com expertise em eletrônica e tecnologia, tinha o papel de articulador, coautor no desenvolvimento do armamento e divulgador técnico e ideológico do movimento. De acordo com o MP, ele ainda tinha participação no financiamento das atividades ilícitas, realizando doações em criptoativos.
“Nota-se que a importância de Sandmann, como membro da organização criminosa, reside sobretudo em sua atuação como divulgador de conhecimento prático, sendo responsável por ressaltar a clareza dos manuais, explicar as etapas de montagem do Urutau e aproximar o conteúdo técnico da comunidade de entusiastas. Consolidou-se, assim, como elo fundamental entre a criação do protótipo e sua disseminação pública”, sustenta o MP.
4 – Luigi Barbin da Costa – apoio técnico
O Ministério Público define Luigi Barbin, de 22 anos e que atuava sob o pseudônimo “Polimer Patriot”, como um dos principais membros da organização criminosa, sendo o consultor técnico, revisor prático e mentor do projeto Urutau. A promotoria constatou que ele tinha a responsabilidade de testar, aperfeiçoar e sugerir melhorias no projeto de desenvolvimento de armas de fogo 3D do grupo.
“Zé Carioca (Lucas Alexandre e líder do grupo) reconheceu publicamente que a parceria, iniciada por volta de 2019/2020, é fundamental para o refinamento da Urutau (arma 3D criada por Lucas), pois Luigi fornecia feedback técnico direto sobre os protótipos”, argumenta o MP.
5 – João Guilherme Pinto – apoio na divulgação
Já em relação a João Guilherme Pinto, de 21 anos, o MP identificou que ele desempenhava papel essencialmente logístico e propagandístico dentro da rede criminosa, produzindo e comercializando itens que faziam alusão às atividades do grupo.
“Em análises em fontes abertas foi possível identificar a exibição, por João Guilherme, de bordados produzidos por ele mesmo com o logotipo da Urutau. As postagens foram realizadas nos anos de 2023/2024, período em que estava em desenvolvimento o projeto Urutau, indicando que ele participou do projeto na parte de design gráfico para divulgação do material”, detalha o MP.
No que se refere à estrutura ordenada e à divisão de tarefas, o MP conclui:
“Havia clara hierarquia funcional, com Lucas Alexandre na liderança, Gianluca como colíder, e os demais integrantes exercendo funções específicas no desenvolvimento e divulgação de venda das armas de fogo 3D. Relativamente à estabilidade e permanência, a atuação da organização perdurou por período superior a três anos (pelo menos de 2021 a 2025).
Operação contra a quadrilha
Uma operação policial, chamada Shadowgun (armas sombrias, em tradução livre), prendeu Alexandre Flaneto de Queiroz, Gianluca Bianchi e João Guilherme Pinto na quinta-feira. Luigi Barbin da Costa e Vinicius Soriano Hernandes estão foragidos. Eles foram alvo de mandado de prisão preventiva. E poderão responder na Justiça pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e comércio ilegal de arma de fogo. Outras duas pessoas foram presas em flagrante portando acessórios para arma de fogo.
No endereço usado pelo grupo, investigadores apreenderam armas de diversos calibres, incluindo pistolas, revólveres, espingardas e rifles. Segundo a apuração, os clientes estão distribuídos por ao menos 11 estados, e parte deles possui antecedentes criminais, principalmente por tráfico de drogas e outros delitos graves.
A ação foi realizada pela Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ) e pelo MPRJ, por meio do Núcleo de Combate aos Crimes Cibernéticos do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (CyberGaeco). Foram cumpridos 36 mandados de busca e apreensão em 11 estados. Sete deles, no Rio de Janeiro: Capital, Região dos Lagos e Norte Fluminense.
— Sob o pretexto de defender a liberdade individual, esse grupo estimula pessoas, sobretudo jovens, a fabricar e portar armas de fogo, subtraindo do Estado e dos órgãos responsáveis pela fiscalização qualquer possibilidade de controle. Essas armas podem ser utilizadas tanto por organizações criminosas tradicionais quanto por cidadãos comuns. Essa facilidade de produção e circulação, por meio de um simples projeto digital e de uma impressora 3D, é algo extremamente preocupante — alerta Antonio José Campos Moreira, o procurador-geral de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.
As investigações
A 32ª DP começou a investigar a quadrilha após um órgão internacional compartilhar com o Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), ligado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, um alerta sobre um usuário de uma rede social suspeito de desenvolver e comercializar armamentos impressos em 3D.
De acordo com as investigações, a quadrilha era chefiada por um engenheiro especializado em controle e automação. Ele usava um nome falso para publicar em redes sociais testes balísticos, atualizações de design e orientações sobre como calibrar e montar armas.
O principal produto distribuído pelo grupo criminoso era uma arma semiautomática. O projeto dela era divulgado com um manual técnico detalhado, produzido pelo engenheiro, com 114 páginas. Lá há todas as etapas necessárias para a fabricação da arma, permitindo que qualquer pessoa com conhecimentos intermediários em impressão 3D pudesse produzir o armamento em poucas semanas, utilizando equipamentos de baixo custo. Os bandidos também compartilhavam um “manifesto ideológico” que defende o porte irrestrito de armas.
As investigações indicam ainda que, além de redes sociais, as ofertas das armas era feita em fóruns e na dark web. O grupo, de acordo com a apuração policial, também usava criptomoedas para financiar suas atividades criminosas.
Facções criminosas abastecidas
As investigações revelaram que a organização criminosa abastecia facções criminosas. Carregadores alongados de pistola de diferentes calibres eram produzidos na impressora 3D instalada na residência do engenheiro e eram comercializados numa plataforma de venda on-line.
“Na realidade do Rio de Janeiro tem sido identificado uso de armas 3D por organizações e facções criminosas, com crescente número de apreensão de armas fantasmas com indivíduos pertencentes ao Comando Vermelho. Armas com características similares a Urutau foram apreendidas recentemente pela PCERJ (Polícia Civil), indicando que a criminalidade local já tem se valido dessa prática”, diz trecho da denúncia do MP.
O material produzido por ele foi negociado com 79 compradores, entre 2021 e 2022. As investigações identificaram que, nos anos seguintes, o engenheiro passou a negociar com os compradores por meio de outros canais e plataformas. Os compradores estão espalhados por 11 estados brasileiros. A maioria responde criminalmente e possui antecedentes criminais relacionados ao tráfico de drogas e outros delitos graves.
No Rio, os agentes identificam 10 compradores espalhados por todo o estado, em São Francisco de Itabapoana, Araruama, São Pedro da Aldeia, Armação dos Búzios e na capital fluminense, nos bairros da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes, na Zona Sudoeste. O trabalho investigativo da 32ª DP apura o destino desse material bélico no estado, que teria como fim as mãos do crime organizado, como o tráfico de drogas e a milícia. Um dos compradores atualmente está encarcerado após ter sido capturado em flagrante com grande quantidade de armas e munições.



Com informações da fonte
https://extra.globo.com/rio/casos-de-policia/noticia/2026/03/quadrilha-que-produzia-armas-em-impressoras-3d-veja-quem-sao-os-integrantes-e-como-era-a-divisao-de-tarefas.ghtml

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