pesquisadora descobre, em jornais cariocas, romance ‘esquecido’ de autora do séc. XIX

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Mais de um século após sua publicação original, um romance lançado “em partes” em um jornal carioca do século 19 chega, finalmente, às prateleiras literárias do Rio. O livro “Angelina”, da autora Délia, ganhou, neste mês, sua primeira edição física, pela editora fluminense “Mapa das Letras”, após ser redescoberto pela pesquisadora Laila Thaís Correa e Silva.

A obra é um dos trabalhos menos conhecidos da escritora, que morreu em 1895. Délia era pseudônimo de Maria Benedita Bormann, gaúcha que se mudou para o Rio ainda na infância e se tornou uma figura recorrente na imprensa carioca, com crônicas e novelas publicadas em periódicos da época.

Uma dessas histórias foi “Angelina”, publicada como folhetim no jornal “O Paiz” ao longo de três meses em 1886. Diferente das outras histórias longas da autora, a narrativa nunca chegou a ser publicada como romance e acabou ignorada pelos estudiosos da obra da escritora por quase um século e meio, até ser encontrada por uma pesquisadora que revisitava o trabalho de Délia.

“O que aconteceu com a obra de Délia e tantas outras escritoras foi o apagamento sistemático ao longo do tempo. Muitas obras, como o caso do folhetim ‘Angelina’, nunca tiveram edição em livro nem no século em que foram escritas”, explica Laila, que é pós-doutoranda em História na Universidade de São Paulo (USP).

Romance aborda temas de relevância social, como os escravizados e a violência contra a mulher

A narrativa acompanha a história de uma mulher escravizada e aborda temas relevantes para a sociedade na época, como a situação dos escravizados e a violência contra mulheres. Laila explica que a descoberta do romance reforça a importância das mulheres na produção literária da época e no debate de assuntos de grande interesse social.

“Acho que o principal objetivo de editar obras como essa consiste em trazer à luz a produção intelectual de mulheres que foram atuantes nas letras nacionais e que, no entanto, foram apagadas do cânone literário, sobretudo em função do significado político, tanto de suas obras quanto da própria presença dessas mulheres em ambientes que eram majoritariamente masculinos”, explica a especialista.

Autora aborda temas como escravidão e violência contra mulheres – Foto: Divulgação

Todo esse significado político tem uma relação direta com o universo da imprensa carioca da época. “Como o Rio de Janeiro era a capital do Brasil, os debates e tudo que circulava nos periódicos à época nos trazem um cenário privilegiado dos temas, atores e diálogos políticos e culturais que alimentaram a produção de folhetins, contos, artigos de jornais e notícias de destaque”, reforça Laila.

Editora independente de São Gonçalo fez campanha de pré-venda para financiar publicação

Agora, o texto chega às páginas por meio da “Mapas das Letras”, editora independente criada em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, dedicada a publicar o trabalho de autoras mulheres. Por funcionar em um modelo mais artesanal, a editora usou uma campanha de pré-venda para financiar a publicação.

A fundadora da “Mapa das Letras”, Cyntia Fonseca, explica que os esforços para transformar o romance em livro físico foi motivado pelo potencial que a descoberta tem para além do mundo acadêmico.

“Um ponto fundamental desse projeto é o compromisso de fazer com que o livro ultrapasse o espaço estritamente acadêmico. Ele é, sem dúvida, uma obra relevante para pesquisadores e pesquisadoras da literatura de autoria feminina, do oitocentismo e da literatura brasileira em geral, mas também é uma leitura importante para o público leitor em sentido amplo. O romance oferece um panorama do Rio do século XIX, abordando aspectos sociais, políticos e culturais de um período marcado por profundas desigualdades sociais”, destaca Cyntia.

Organizada por Laila, a publicação de “Angelina” traz, ainda, o conto “A Ama” e com prefácio da professora Rosana Cássia dos Santos. O romance já está à venda no portal da editora e será lançado em outros sites de venda nos próximos meses.



Com informações da fonte
https://temporealrj.com/classico-resgatado-pesquisadora-descobre-romance-esquecido/

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