Parece filme de espionagem, mas é vida real com roteiro de sátira: a Espanha correu nesta semana para pedir ajuda à França porque suspeita que sua antiga colônia, Marrocos, está por trás da espionagem contra Pedro Sánchez e seus ministros. A arma usada? O já famoso Pegasus, da israelense NSO Group, capaz de transformar qualquer celular em um confessionário digital.
O pedido de ajuda partiu do juiz epanhol da Audiência Nacional, José Luis Calama. O magistrado reforçou o drama ao solicitar oficialmente cooperação à França, numa tentativa de obter mais dados técnicos e identificar quem realmente está por trás dos ataques.
O episódio mostra o ridículo da espionagem moderna: governos que se vendem como guardiões não só da democracia — mas da tecnologia e da inovação — agora imploram por socorro porque seus próprios líderes foram grampeados como adolescentes descuidados no WhatsApp.
Por trás do vexame, está o verdadeiro jogo: quem controla o Pegasus não só invade conversas privadas, mas ganha vantagem geopolítica ao acessar segredos de Estado e antecipar movimentos de rivais.
França e Espanha: vítimas do mesmo espião
Emmanuel Macron e 14 ministros franceses também foram alvo do Pegasus, supostamente a pedido de autoridades marroquinas. Pedro Sánchez, Margarita Robles, Fernando Grande-Marlaska e Luis Planas tiveram seus celulares invadidos em 2021, em plena crise migratória em Ceuta. A justiça francesa identificou “marcadores técnicos idênticos” nos ataques contra França e Espanha, levantando a suspeita de autores comuns: “Os marroquinos”. Não é paranoia ibérica: há indícios concretos de que o mesmo grupo operou nos dois países.
Israel: o maestro da espionagem digital
Se Marrocos aparece como suspeito, Israel é o fornecedor da arma. Uma investigação da Forbidden Stories e da Anistia Internacional revelou que o Pegasus já foi usado para espionar mais de mil pessoas em 50 países, incluindo jornalistas, ativistas e até chefes de Estado.
A NSO Group foi condenada nos EUA por invadir 1.400 celulares via WhatsApp, em processo movido pela Meta.
Em 2024, Israel protagonizou o caso dos “pagers explosivos” no Líbano, quando milhares de dispositivos usados pelo Hezbollah foram sabotados remotamente — mostrando que Tel Aviv não apenas espiona, mas é capaz de transformar gadgets em armas de guerra.
O estrago do Pégasus na Espanha
O ataque contra Sánchez ocorreu logo após a entrada do líder da Frente Polisário em Espanha, em meio à crise diplomática com Marrocos. Coincidiu também com o período anterior à concessão de indultos aos líderes independentistas catalães, outro ponto sensível da política espanhola.
Em paralelo, 18 políticos catalães foram espionados com autorização judicial, o que levou à demissão da chefe dos serviços secretos espanhóis em 2022. Ou seja, o Pegasus não foi apenas uma arma externa: também virou ferramenta interna de controle político.
Como funciona o Pegasus
O Pegasus opera em três etapas principais. Primeiro, a infecção: pode ocorrer por ataques “zero-clique”, em que o dispositivo é invadido sem que a vítima faça nada, ou por “um-clique”, quando um link malicioso é clicado. Depois, a instalação: o software explora falhas de segurança em iOS ou Android para se ocultar e evitar detecção. Por fim, a vigilância: concede controle remoto total, permitindo leitura de mensagens, escuta de chamadas, rastreamento por GPS, ativação de câmera e microfone, além da cópia de todos os dados do dispositivo.
Projetado para ser furtivo, funciona até quando o celular parece “desligado”. Embora a NSO Group afirme que o software é vendido apenas para governos e agências de aplicação da lei, investigações apontaram o uso indevido para espionar jornalistas, ativistas e opositores políticos em diversos países.
Arsenal tecnoloógico
Se o Pegasus e os “pagers explosivos” já parecem coisa de ficção científica, imagine o arsenal que Israel guarda e o mundo ainda não conhece. Se o que foi revelado já transforma celulares em confessionários digitais e gadgets em armas, o que estará escondido nos laboratórios de Tel Aviv? Na guerra invisível dos cliques, uma certeza permanece: quem não tem Pegasus vira alvo, e quem tem… provavelmente tem muito mais do que ousamos imaginar.

