Pedra do Sal: segundo moradores, traficantes da Providência fazem ‘segurança’ no local para evitar assalto a turistas

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Unidos de Vila Isabel na Pedra do Sal — Foto: Divulgação


Cercada por diversos pontos de interesse histórico, cultural e gastronômico, a Pedra do Sal, no bairro da Saúde, Zona Portuária do Rio, tornou-se um fenômeno turístico, atraindo multidões de cariocas e forasteiros para as rodas de samba que promove. Seu entorno abriga locais como o polo boêmio Largo de São Francisco da Prainha, com bares antigos e mesinhas ao ar livre aos pés do Morro da Conceição, e a Praça Mauá, com monumentos como os museus do Amanhã e de Arte do Rio. É a faceta da violência que domina a região, porém, que tem chamado a atenção nos últimos tempos, com vários casos de roubos a visitantes que ganham repercussão. De acordo com relatos, os episódios recorrentes, praticados por criminosos de fora, têm causado a ira de bandidos locais.

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Ontem, dois dias após a morte de um turista mexicano durante um assalto a poucos metro da Pedra do Sal, O GLOBO percorreu a área para ouvir comerciantes e moradores sobre episódios do tipo. Segundo a polícia, Guilherme do Nascimento Pinto, preso suspeito de participação na morte por atropelamento do turista e mais dois comparsas são da Pavuna. Ele confessou em depoimento que o trio tinha o costume de cometer crimes naquela região.

A equipe apurou que o dia mais crítico é às segundas-feiras, dia oficial da roda de samba, e no período entre 0h e 5h. Geralmente, os criminosos aproveitam o momento em que os frequentadores estão aguardando táxis ou carros de aplicativo no entorno e mexendo no celular.

Circuito da Herança Africana, criada pelo guia Cosme Felippsen, passa por locais onde floresceu a resistência negra e nasceu o samba, como a Pedra do Sal e a Gamboa — Foto: Divulgação

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— Já presenciei assalto de tudo quanto é jeito aqui. Muitas vezes, os criminosos chegam bem vestidos, sem levantar suspeita, abordam o turista como se fossem vender algo e roubam. Uma vez, chegou um motociclista aqui e abordou um turista bêbado exigindo o celular. São ladrões de oportunidade, que se aproveitam da vulnerabilidade do gringo. Desta vez, o caso aconteceu em frente à sede da Polícia Federal. Isso é a certeza da impunidade — relatou Jeferson Braga, de 45 anos, dono de uma mercearia na Rua Sacadura Cabral. — Se colocassem uma viatura aqui na esquina, outra em frente à Pedra do Sal e outra na Praça Mauá, se formaria um cinturão de segurança e resolveria o problema.

Roda de samba da  Vila Isabel na Pedra do Sal — Foto: Geraldo Ribeiro
Roda de samba da Vila Isabel na Pedra do Sal — Foto: Geraldo Ribeiro

De acordo com a vizinhança, os bandidos da área proíbem assaltos no local. Portanto, dizem, os criminosos que têm protagonizado os roubos são de fora. Por conta da repercussão dos casos, a estratégia dos traficantes locais têm sido descer o Morro da Providência para “patrulhar” a área em dias de grande movimentação e evitar novos episódios.

— Chegamos ao ponto de os bandidos daqui, que não gostam de assaltos, terem que descer e tomar conta da área, porque está demais. Se eles pegam quem está roubando, levam lá para cima e dão um corretivo — conta um comerciante.

Garçom do restaurante Gracioso, numa das entradas do ponto turístico, Antônio José Rodrigues, de 47 anos, diz que, na terça-feira, costuma ter um movimento de turistas voltando à região para tentar encontrar pertences perdidos:

— Turistas brasileiros e estrangeiros vêm aqui procurar documentos “perdidos”, mas a gente sabe que foi assalto, porque é rotina ouvir sobre roubos aqui.

A Polícia Militar informou, por meio de nota, que “através do 5º BPM (Praça da Harmonia), emprega policiamento ostensivo na região, com equipes realizando abordagens e revistas sistematicamente. Condutas criminosas articuladas e de natureza velada precisam ser submetidas a procedimento investigativo. Havendo constatação de flagrante delito, as equipes da Polícia Militar realizam a prisão dos envolvidos”. A PM também afirmou que, “de acordo com os últimos dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), num comparativo entre os períodos de janeiro a agosto de 2025 a 2026, houve queda de 10,7% no roubos a transeuntes e de 2,4% no total dos roubos de rua na área de policiamento do 5º BPM, que abrange o perímetro da Pedra do Sal”.

Em nota, a Polícia Civil informou que até o momento, não foi localizado registro de ocorrência com essas características na delegacia da região. A corporação ressalta ainda “a importância de que todos os casos sejam formalmente registrados para que possam ser devidamente investigados e os responsáveis identificados e responsabilizados”.

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Táticas contra a violência

Diante do cenário, a população também adota suas próprias táticas, por vezes extremas. Um dos empreendedores locais mantém uma faca debaixo do balcão e passou a investir em artes marciais para defesa pessoal.

— Ou eu mato ou eu morro. É um sentimento de indignação que predomina. Isso aqui está abandonado. Virou um circo, e a gente é quem paga a conta — reclama.

Situados em região que é um marco histórico da cidade, 112 imóveis na altura do Largo da Prainha e da Pedra do Sal vão a leilão no domigo. Ordem religiosa dona do casario trava batalha com moradores — Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Situados em região que é um marco histórico da cidade, 112 imóveis na altura do Largo da Prainha e da Pedra do Sal vão a leilão no domigo. Ordem religiosa dona do casario trava batalha com moradores — Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Comerciantes da própria Pedra do Sal defendem que o local é seguro. Eles revelam que o local tem uma espécie de cordão de isolamento, com segurança privada cujo valor é dividido entre barraqueiros e donos de bares. Às segundas, 30 vigilantes patrulham a roda de samba. Já aos sábados e domingos, são dez em cada dia. A diária do serviço custa mais de R$ 100 para cada empreendedor.

Segundo um deles, se acontecer algum crime dentro da Pedra do Sal, “o corretivo é dado aqui mesmo”. Em 2024, um ladrão de celulares foi espancado no local após ter roubado um turista do Paraná. Na ocasião, a vítima contou ao GLOBO que a situação foi tensa e que, ao ver o suspeito “a pancadaria em cima do rapaz”, se arrependeu de ter saído em busca do aparelho.

Samba na Pedra do Sal — Foto: Alexandre Cassiano
Samba na Pedra do Sal — Foto: Alexandre Cassiano

— Roubos acontecem em qualquer lugar onde tem muita aglomeração. Mas aqui, em geral, é muito seguro. Só que os crimes acontecem aí fora e colocam na nossa conta — queixa-se José Lucas Teixeira, de 71 anos, dono de um bar no local.

O dono de um restaurante no Largo de São Francisco da Prainha conta que costuma alertar seus clientes sobre os perigos da área:

— Como ali fora é uma área pública, não temos controle, mas avisamos ao pessoal para ter cuidado com os pertences e não deixar o celular em cima da mesa, por exemplo.

A estudante de Recursos Humanos Letícia Santos, de 24 anos, que trabalha próximo e é frequentadora da Pedra do Sal admite que tem receio de se tornar vítima:

— Deixo minha bolsa sempre virada para a frente e não tiro celular. Também evito aproximação de pessoas desconhecidas.

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Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio, de janeiro a agosto deste ano, a área coberta pela 4ª DP (Presidente Vargas), que inclui a Pedra do Sal, registrou 602 roubos, 3,6% a mais que no mesmo período do ano anterior (581).

— Estamos compilando os números e realizando investigações específicas sobre os casos na Pedra do Sal. Em breve, teremos um resultado, com padrão de atuação e horários e dias com mais ocorrências. Já sabemos que as segundas-feiras registram maior incidência, pois é o dia de maior frequência, principalmente de turistas. Nota-se que os crimes patrimoniais ocorrem durante o festejo e na dispersão. Em cinco meses, minha equipe já fez duas operações no local, sempre às segundas, com oito presos/apreendidos — afirma o delegado Diego Salarini Gabriel, titular da 4ª DP.

O turista mexicano Carlos Hernandez Ortiz foi morto na madrugada de terça-feira. Ele e outros dois amigos passavam em frente à Superintendência da Polícia Federal, a poucos metros da Pedra do Sal, quando três suspeitos desceram de um carro e realizaram o assalto. De acordo com a polícia, Hernandez pulou sobre o capô do veículo usado pelos assaltantes, mas o veículo acelerou, ele caiu e bateu a cabeça no chão, como flagrou uma câmera de segurança. A vítima chegou a ser levada para o Hospital Souza Aguiar, mas não resistiu.

O turista mexicano sobre o capô do carro dos suspeitos — Foto: Reprodução
O turista mexicano sobre o capô do carro dos suspeitos — Foto: Reprodução

A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) investiga o caso como latrocínio, roubo seguido de morte. Um homem identificado como Guilherme do Nascimento Pinto, que dirigia o carro, foi preso. Ele confessou ter participado do crime e disse que já havia participado de roubos semelhantes, recebendo cerca de R$ 500 por cada ação. Em depoimento à polícia, Guilherme relatou que o grupo criminoso abraçava as vítimas e simulava uma abordagem amistosa para depois roubar os pertences. Com a tática, eles chegavam a roubar cerca de dez celulares por dia.

Na oitiva, revelou ainda que um dos comparsas teria mandado o motorista acelerar no momento em que Carlos pulou no capô. Guilherme disse que obedeceu à ordem, fazendo com que a vítima caísse no chão. Os três homens foram abordados pela Polícia Federal por volta das 5h. Dois conseguiram fugir, e o motorista foi preso em flagrante. A Polícia Civil pediu à Justiça a conversão da prisão para preventiva. Os outros dois estão sendo procurados.

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A morte do cineasta Carlos Eduardo Barcellos, ocorrida em novembro de 2020, tem ao menos uma semelhança com a do turista mexicano Carlos Hernandez Ortiz. Ambos foram mortos por ladrões depois de uma noitada alegre se divertindo na roda de samba da Pedra do Sal, uma das mais tradicionais da cidade. O diretor de cinema, oriundo do complexo de favelas da Maré, que foi assassinado no final de 2020 tem sua história contada no filme “Cadu Barcellos – cria não morre, vira lenda”, de Wagner Novais, que está no Festival do Rio, iniciado nesta quinta-feira.

Cadu foi encontrado ferido sem documentos, dinheiro e celular depois de assalto no Centro do Rio — Foto: Reprodução/ Redes sociais
Cadu foi encontrado ferido sem documentos, dinheiro e celular depois de assalto no Centro do Rio — Foto: Reprodução/ Redes sociais

— O cara cresceu na Maré e morreu na pista. Não foi na favela onde tem todas as facções (criminosas) do Rio. Ele morreu na pista, território do estado, que não tem segurança. Isso é uma coisa para ser revista e questionada. No filme falo mais sobre a vida do que sobre a morte dele. E a vida que ele construiu faz com que a morte dele seja tão significativa. Era uma pessoa que trabalhava com cultura e com arte e servia de referência para outros jovens — afirma Novais.

Cadu havia saído da Pedra do Sal, de carona em um carro de aplicativo com uma amiga, que seguia para a Zona Sul. Ele desembarcou alguns quilômetros depois, no Centro. Perto de uma saída do metrô, na Avenida Presidente Vargas, foi rendido. O cineasta chegou a ser visto gritando por volta das 3h30, mas caiu alguns metros à frente e morreu. Aos 33 anos, ele deixou a mulher e um filho de 2 anos. Cadu estava em carreira ascendente no cinema. Na direção do longa “%x Favela – Agora por nós mesmos”, produzido por Cacá Diegues, dirigiu o episódio “Deixa Voar”. Também era assistente de direção de Greg News”, programa comandado por Gregório Duvivier.

Em maio deste ano, pelo menos seis turistas estrangeiros foram assaltados após deixarem a Pedra do Sal. Segundo registros feitos na Delegacia Especial de Apoio ao Turismo (Deat), no Leblon, as vítimas foram quatro norte-americanos e dois russos. Um americano chegou a ser agredido e teve lesões no rosto.

Colaborou Geraldo Ribeiro

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Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/10/02/pedra-do-sal-segundo-moradores-traficantes-da-providencia-fazem-seguranca-no-local-para-evitar-assalto-a-turistas.ghtml

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