Com o país em chamas, o presidente francês vetou manifestações organizadas via internet e deu o “monopólio das ruas” às velhas centrais sindicais. Entenda a jogada política por trás da medida
A panela de pressão política da França explodiu de vez, mas a última cartada de Emmanuel Macron surpreendeu até os analistas mais veteranos. Em meio a semanas de caos social, saques e confrontos armados entre manifestantes e policiais, o presidente francês decretou: a partir de agora, protestos nas ruas só serão permitidos se forem convocados por sindicatos formais.
Trata-se de uma jogada com endereço muito claro: fortalecer as burocracias sindicais francesas (como a CGT e a CFDT).
O medo das redes sociais
O pavor do Palácio do Eliseu é o poder de mobilização descentralizada e incontrolável das redes sociais. Ao barrar os atos sem “carimbo” sindical, Macron tenta desligar o Wi-Fi da revolta e arrastar a política de volta para o mundo analógico — mesmo que, para isso, atropele o direito à manifestação. Ao invés de punir os vândalos, Macron impede a todos não sindicalizados de se manifestarem, mesmo que pacificamente.
Ao conceder às centrais sindicais o monopólio exclusivo do direito de protestar nas ruas, o governo entrega a elas um presente de valor inestimável:
- Ressuscita entidades em crise: Os sindicatos vinham perdendo filiados e relevância há décadas para a organização digital.
- Cria um “filtro de segurança”: O governo passa a lidar apenas com protestos previsíveis, que têm hora para começar, serviço de ordem próprio e rota negociada diretamente com a polícia.
População rejeita o sistema
Historicamente, Macron foi eleito e reeleito com o apoio decisivo de eleitores progressistas e de centro-esquerda, que viram nele a única barreira para conter a direita. No entanto, suas sucessivas reformas econômicas e fiscais para combater o rombo fiscal azedaram de vez a relação do governo com a classe trabalhadora.
Hoje, a maioria da juventude e dos trabalhadores precarizados por anos de transformações no mercado de trabalho simplesmente não se sente representada pelos velhos sindicatos.
Para essa parcela da população — que já se sente completamente alienada da política tradicional —, ver o Estado proibir suas manifestações espontâneas e dizer que “só podem protestar se um sindicato deixar” soa como uma afronta autoritária.
