O Padre José Alves Vilela assistia a uma missa numa galeria da Basílica Histórica de Nossa Senhora Aparecida, também conhecida como Basílica Velha, quando viu um homem tentando roubar a imagem original da Santa, encontrada por pescadores no Rio Paraíba do Sul no início do século XVIII. O crime, na noite de 16 de maio de 1978, deixou milhões de devotos estarrecidos em todo o país.
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Do lado de fora, uma tempestade castigava a cidade de Aparecida, no interior de São Paulo, com raios e chuva muito forte. Depois de alguns minutos observando a estatueta, o criminoso se aproveitou de uma queda de luz de poucos segundos para quebrar o vidro que protegia a estatueta com três socos. Em seguida, apertou a imagem contra o peito e saiu andando, já com a iluminação restabelecida.
O guarda do santuário já havia sido alertado pelo barulho do vidro. Logo depois, o grito do Padre Vilela apressou o vigilante, que, desarmado, segurou o braço do ladrão. Nesse instante, o larápio derrubou a imagem, que se partiu em vários pedaços. As pessoas em volta ficaram revoltadas e tentaram agredir o criminoso, que só não foi espancado porque o pároco mentiu dizendo que aquela era uma réplica.
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Na delegacia de Guaratinguetá, Rogério Marcos de Oliveira, de 19 anos, disse que agiu sob as ordens “de um anjo”. De acordo com o seu depoimento, o tal anjo apareceu em um sonho e deu a ele a missão de tirar a imagem de Nossa Senhora Aparecida da Basílica e levá-la “de volta a seu lugar”. O ladrão contou que estava em São José dos Campos e não sabia como tinha ido parar em Aparecida.
A notícia sobre a destruição da estatueta causou consternação nacional. De acordo com a tradição católica, a imagem feita de terracota foi encontrada em outubro de 1717 por três pescadores em um barco no Rio Paraíba do Sul. Eles contaram que não estavam pescando nada até que encontraram a Santa. Logo em seguida, sem explicação, começaram a encher as redes com peixes.
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A estatueta ganhou um pequeno altar na casa de um dos pescadores, e, a partir de então, a devoção por Nossa Senhora da Conceição Aparecida, ou simplesmente Nossa Senhora Aparecida, começou a se espalhar, até que, em julho de 1930, o Papa Pio XI, atendendo a uma solicitação da cúpula da Igreja Católica no Brasil, reconheceu a Santa como padroeira oficial do país.
Nos últimos dias, Nossa Senhora Aparecida foi levada ao centro de uma polêmica depois de boatos de que o senador Flavio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, planejava retirar da Santa o título de padroeira. A informação falsa se disseminou, mas ele prontamente desmentiu.
Especialistas do Masp restauraram imagem
Depois da destruição da imagem, os responsáveis pela Basílica Histórica disseram que a estatueta seria enviada para restauração na Europa. Depois, porém, ficou decidido que ela seria remetida para o Museu de Arte de São Paulo (Masp). Os restauradores Maria Helena Chartuni e Pietro Maria Bardi passaram mais de um mês debruçados sobre esse trabalho de reconstituição.
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“A cabeça foi a parte mais afetada, precisamos de microscópio para reajustar os fragmentos”, disse Chartuni ao Jornal O GLOBO, na época. Já o seu colega afirmou que a imagem não se quebraria mais. “A parte interna foi reforçada com cola poxipol, misturada com os fragmentos que restaram, como garantia contra outro episódio como esse que aconteceu”, contou o restaurador do Masp.
O especialista do museu explicou que a imagem, feita de barro cozido, “como toda imagem paulista no século XVII”, tinha perdido suas cores originais ao ficar mergulhada no Rio Paraíba do Sul. Disse ainda que a tonalidade da estatueta “deve ter escurecido ao longo dos 20 anos que passou na casa do pescador que a encontrou em 1717, por causa das velas acesas ao seu redor”.
A imagem voltou para Aparecida em um carro do Corpo dos Bombeiros acompanhado por um extenso cortejo de automóveis. Milhares de fiéis ficaram de pé, nas margens da Via Dutra, para ver o comboio passar. A viagem de 160km, que normalmente duraria duas horas e meia, levou cinco horas. Cerca de 50 mil fiéis estavam na cerimônia que marcou o retorno para a Basília, no dia 22 de agosto de 1978.
