Após a divulgação dos milhões de arquivos sobre o caso Jeffrey Epstein, contas nas redes sociais favoráveis ao governo russo divulgaram a ideia de que os documentos revelariam que a Ucrânia era um centro mundial de tráfico sexual. Segundo algumas das contas, os arquivos mostram que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, teria tentado salvar crianças ucranianas de uma rede ligada ao falecido criminoso sexual. Os perfis aproveitaram o real envolvimento de figuras importantes de todo o mundo para propagar acusações contra Kiev, segundo investigações da AFP e um relatório do Instituto para o Diálogo Estratégico (ISD) publicado nesta quinta-feira.
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Uma publicação recente no X, que teve mais de 3 milhões de visualizações, afirmou que os arquivos do caso Epstein “confirmam que Putin não havia sequestrado crianças na Ucrânia, mas que as havia retirado para protegê-las de serem vendidas no tráfico sexual infantil”.
As afirmações dispararam nas redes sociais, após a divulgação mais recente dos documentos, com mais de 15 mil publicações no X em dois dias, segundo o ISD, que tem sede em Londres.
Embora não exista nenhuma prova de que o governo russo esteja ligado a estas publicações, a divulgação dos documentos do caso Epstein “serve aos seus interesses”, estima uma das autoras do relatório do ISD, Liana Sendetska.
— Simplesmente tentam saturar o espaço informativo com tudo isto para ver se pega — disse Olga Tokariuk, outra autora do relatório.
Desde o início da guerra na Ucrânia, a Rússia deportou ou deslocou à força cerca de 20 mil crianças ucranianas, segundo o governo de Kiev. No entanto, Moscou afirma que os transportou para protegê-los dos combates. Em 2023, por exemplo, o Tribunal Penal Internacional emitiu uma ordem de prisão contra Putin pela “deportação ilegal” de crianças das zonas ocupadas da Ucrânia para a Rússia.
Laços com empresários russos e encontro com Putin
Os documentos, divulgados pelo Departamento de Justiça no dia 30 de janeiro, indicam que Epstein manteve relações com autoridades e empresários russos e buscou, por anos, organizar um encontro com Putin. O material amplia o alcance internacional dos contatos do financista, morto em 2019, e detalha trocas de mensagens, convites para eventos oficiais e pedidos de intermediação política e pessoal.
Segundo os arquivos, Epstein manteve correspondências diretas com russos de alto escalão e recorreu a intermediários para tentar viabilizar uma reunião com Putin ao longo da década de 2010. Não há, porém, evidência de que esse encontro tenha ocorrido. O nome do presidente russo aparece mais de mil vezes nos documentos, em sua maioria em recortes de imprensa e boletins informativos recebidos por Epstein.
Em e-mails privados, Epstein tentou repetidamente obter uma audiência com Putin, muitas vezes por meio do ex-primeiro-ministro da Noruega Thorbjørn Jagland (1996-1997). Em uma mensagem de 2013 ao ex-premier de Israel Ehud Barak (1999-2001), Epstein afirmou ter sido convidado para o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, evento anual que conta com a presença de Putin, mas disse ter recusado. Sobre o presidente russo, escreveu: “Se ele quiser se encontrar, terá de reservar tempo real e privacidade”.
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Correspondências com Jagland mostram Epstein pedindo que a possibilidade de um encontro fosse mencionada em visitas a Moscou: “Sei que você vai se encontrar com Putin no dia 20. Ele está desesperado para atrair investimento ocidental para o país… eu tenho a solução dele”, escreveu Epstein. E-mails posteriores indicam que não houve avanço. Mais tarde, Epstein reclamou que não recebeu resposta.
O Kremlin, por sua vez, reagiu minimizando o caso.
— As alegações de laços entre Epstein e a inteligência russa não merecem nada além de piadas — disse um porta-voz, acrescentando que o tema não justificava comentários sérios.

