Lipoproteína(a) alta: por que uma vida saudável pode não eliminar o risco cardiovascular

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Uma pessoa pratica atividade física, mantém uma alimentação equilibrada, não fuma, cuida do peso e faz seus exames regularmente. O colesterol não parece preocupante e ela se considera saudável. Ainda assim, pode existir um fator de risco cardiovascular importante que nunca foi investigado: a lipoproteína(a), ou Lp(a).

O assunto voltou ao centro das discussões recentemente, com a divulgação dos primeiros resultados do Lp(a)HORIZON, um dos estudos cardiovasculares mais aguardados de 2026. O ensaio avaliou se a redução específica da lipoproteína(a) com o medicamento pelacarsen seria capaz de diminuir eventos cardiovasculares em pacientes que já apresentavam doença cardiovascular aterosclerótica e Lp(a) elevada.. O medicamento reduziu o marcador, mas o estudo não atingiu seu objetivo principal de demonstrar uma diminuição de eventos cardiovasculares em comparação ao placebo.

Para a endocrinologista Dra. Isis Toledo, o resultado chama atenção por dois motivos. O primeiro é colocar em evidência um fator de risco ainda pouco conhecido pelos pacientes. O segundo é levantar uma pergunta importante para a medicina: se níveis elevados de Lp(a) estão relacionados ao risco cardiovascular, por que uma redução expressiva desse marcador não se traduziu em menos eventos?

“Uma pessoa pode fazer exercício, ter uma boa alimentação, não fumar e cuidar do sono, mas isso não significa que esteja completamente protegida. Se tiver uma lipoproteína(a) elevada, existe um risco adicional que precisa ser considerado”, explica.

Um risco que vem principalmente dos genes

A Lp(a) é uma partícula semelhante à LDL, conhecida popularmente como colesterol ruim, mas possui características próprias. Enquanto o LDL sofre influência da alimentação, do peso, da atividade física e de medicamentos, a concentração da Lp(a) é determinada predominantemente pela genética e tende a permanecer relativamente estável ao longo da vida.

Pesquisas que acompanham a saúde de grandes populações, além de estudos genéticos, mostram que pessoas com concentrações elevadas de Lp(a) apresentam maior risco de doença cardiovascular aterosclerótica e de estenose calcífica da válvula aórtica. A atualização de 2025 das diretrizes da Sociedade Europeia de Cardiologia e da Sociedade Europeia de Aterosclerose recomenda considerar sua dosagem pelo menos uma vez na vida adulta.

O problema é que a Lp(a) não faz parte necessariamente dos exames de colesterol solicitados na rotina. Uma pessoa pode conhecer seu colesterol total, LDL, HDL e triglicérides há anos sem nunca ter medido a lipoproteína(a).

“Às vezes, o paciente olha para o LDL, vê um resultado que não parece tão preocupante e acha que está tudo bem. Mas ele pode ter uma lipoproteína(a) elevada, que também contribui para a formação de placas nas artérias”, explica Isis.

Ter Lp(a) elevada não diminui a importância da atividade física, da alimentação adequada, do controle do peso, do abandono do cigarro e da qualidade do sono. Embora esses hábitos contribuam para reduzir o risco cardiovascular, eles têm pouca influência sobre os níveis da Lp(a), determinados principalmente pela genética. Conhecer esse marcador pode mudar a avaliação do paciente, mesmo quando ele se considera saudável.

O estudo que trouxe uma resposta inesperada

A expectativa em torno do Lp(a)HORIZON era grande porque a ciência já acumulava evidências relacionando concentrações elevadas de Lp(a) ao risco cardiovascular.

O pelacarsen é um medicamento desenvolvido para interferir na produção da apolipoproteína(a), componente essencial da Lp(a). Em um estudo de fase 2 com 286 pessoas com doença cardiovascular estabelecida e Lp(a) elevada, diferentes doses reduziram o marcador de forma expressiva, chegando a aproximadamente 80% no regime mais intenso. Era preciso, então, responder à questão que realmente interessa na prática clínica: essa redução também evitaria infartos, AVCs e mortes cardiovasculares?

O Lp(a)HORIZON foi desenhado para isso. O ensaio de fase 3 envolveu mais de 8 mil pacientes com doença cardiovascular estabelecida e Lp(a) elevada. O desfecho principal incluía morte cardiovascular, infarto não fatal, AVC não fatal e revascularização coronariana urgente com hospitalização.

Em 4 de setembro de 2026, a Novartis informou que o pelacarsen reduziu substancialmente a Lp(a), mas o estudo não atingiu seu desfecho cardiovascular primário em comparação ao placebo. A magnitude exata da redução ainda não foi divulgada. Uma queda importante no exame, portanto, não se transformou no benefício clínico esperado.

Por que não funcionou?

Os resultados completos ainda precisam ser apresentados e publicados, o que impede uma resposta definitiva. Mas algumas hipóteses já começaram a ser discutidas por especialistas.

Uma delas está no perfil dos próprios participantes. Segundo as características basais do estudo, já publicadas, o LDL-C médio na entrada era de cerca de 65 mg/dL, e 78% dos pacientes usavam estatina de alta intensidade. É um valor que indica um controle rigoroso desse fator de risco cardiovascular.

Para o cirurgião cardiovascular Dr. Edmo Atique Gabriel, esse dado pode ajudar a compreender o resultado, embora não seja suficiente para explicá-lo.

“Muitos participantes já tinham um importante fator de risco bem controlado. Assim, o risco que restava e o benefício adicional que se poderia medir talvez fossem menores”, afirma.

O especialista ressalta, entretanto, que o controle do LDL não explica necessariamente a ausência de benefício. Se a Lp(a) exercer um efeito independente relevante, seria razoável esperar que parte desse risco pudesse ser modificada. Por isso, será importante conhecer as taxas de eventos no grupo placebo e verificar se houve diferenças conforme os níveis de LDL dos participantes.

Outra hipótese envolve o tempo de exposição ao risco. A maioria das pessoas com Lp(a) elevada convive com essa condição desde cedo, mas os participantes do estudo já apresentavam doença cardiovascular estabelecida quando começaram a receber o medicamento.

“Começar antes da doença avançada ou manter a redução por mais tempo pode produzir resultados diferentes. Outra possibilidade é que a queda percentual pareça grande, mas a queda absoluta e sustentada não seja suficiente para mudar o risco em poucos anos”, explica Edmo.

Também será necessário avaliar se medicamentos que utilizam mecanismos diferentes para reduzir a Lp(a) poderão apresentar resultados distintos. Nenhuma dessas possibilidades, porém, foi comprovada pelo anúncio inicial do estudo.

A Lp(a) realmente causa doença cardiovascular?

O resultado do Lp(a)HORIZON também reacendeu uma discussão científica importante. Estudos epidemiológicos mostram de forma consistente que pessoas com Lp(a) elevada apresentam maior risco cardiovascular. Pesquisas genéticas, incluindo estudos de randomização mendeliana, fornecem evidências relevantes de uma relação causal.

Mas, se a Lp(a) participa do desenvolvimento da doença, por que reduzir sua concentração não diminuiu os eventos cardiovasculares no estudo? Para Edmo Atique Gabriel, é necessário distinguir duas situações que não são equivalentes.

“O estudo testou se uma forma específica de baixar Lp(a), iniciada em pessoas que já tinham doença cardiovascular, reduziria eventos durante o acompanhamento. Estudos genéticos observam diferenças de Lp(a) presentes desde cedo, ao longo de décadas. Portanto, as duas perguntas não são idênticas”, explica.

O cirurgião cardiovascular ressalta que o resultado enfraquece a expectativa de benefício com o pelacarsen nas condições estudadas, mas não invalida, por si só, as evidências genéticas de causalidade.

Essa distinção é fundamental para interpretar os resultados. Uma coisa é identificar um fator que contribui para o desenvolvimento de uma doença ao longo de décadas. Outra é demonstrar que modificar esse fator, depois que a doença já está estabelecida, consegue reduzir complicações em alguns anos de acompanhamento.

O resultado também mostra por que reduções laboratoriais expressivas não são suficientes para comprovar a eficácia clínica de um tratamento. Uma queda de 80% ou 90% em determinado marcador pode ser impressionante, mas o benefício para o paciente precisa aparecer na redução de infartos, AVCs, hospitalizações ou mortes.

Outras moléculas, como olpasiran, lepodisiran e zerlasiran, capazes de produzir reduções superiores a 90% da Lp(a) em determinados estudos, continuam em investigação. Será necessário aguardar os ensaios que avaliam eventos cardiovasculares para saber se alguma dessas estratégias conseguirá demonstrar o benefício esperado.

E se a Lp(a) estiver alta?

Enquanto não existe uma terapia específica contra a Lp(a) com benefício cardiovascular comprovado, conhecer o marcador permite ao médico avaliar melhor o risco e atuar sobre os fatores que já podem ser modificados.

Isso inclui controlar a pressão arterial, o diabetes, o tabagismo e outros fatores, mas também dar atenção especial ao LDL-C e à ApoB. Dependendo do risco cardiovascular global, o médico pode estabelecer metas mais baixas de LDL e indicar tratamento farmacológico.

Edmo Atique Gabriel reforça que o resultado do Lp(a)HORIZON não muda a recomendação de considerar a dosagem da lipoproteína(a) pelo menos uma vez na vida adulta.

“Um resultado elevado ajuda a identificar quem merece atenção maior ao LDL, à pressão arterial, ao diabetes, ao tabagismo e aos demais fatores de risco. Na prevenção primária, pode ajudar em decisões terapêuticas próximas do limiar. Em quem já tem doença cardiovascular, reforça a busca das metas de LDL adequadas ao risco”, afirma.

É nesse ponto que Isis Toledo chama atenção para outra dificuldade da prevenção cardiovascular: a adesão ao tratamento de pessoas que não apresentam sintomas. Tanto a Lp(a) quanto o LDL elevados são silenciosos. O paciente não sente a formação da placa aterosclerótica e, muitas vezes, justamente por praticar esporte, manter uma alimentação equilibrada e se considerar saudável, tem dificuldade para compreender por que precisa de tratamento contínuo.

As estatinas são um exemplo. Apesar de décadas de estudos demonstrarem redução de eventos cardiovasculares nas populações para as quais são indicadas, informações falsas disseminadas nas redes sociais ainda fazem pacientes rejeitarem ou abandonarem o tratamento.

“Às vezes, a pessoa se considera saudável, não sente nada e acha que não precisa tomar medicamento. Mas, quando existe um risco aumentado, não basta olhar apenas para o estilo de vida. Precisamos controlar o LDL de forma adequada, e isso pode exigir tratamento medicamentoso”, explica a endocrinologista.

O resultado do Lp(a)HORIZON não significa que a dosagem da lipoproteína(a) perdeu importância. Significa que ainda não foi demonstrado que reduzi-la especificamente com pelacarsen diminua eventos cardiovasculares nas condições estudadas.

Enquanto os novos estudos procuram responder se outras estratégias poderão modificar esse cenário, a prevenção continua dependendo da identificação do risco e do controle dos fatores sobre os quais a medicina já sabe atuar.

E existe uma questão anterior: descobrir quem tem Lp(a) elevada. Como seus níveis são predominantemente determinados pela genética e o exame ainda não faz parte de muitos check-ups, muita gente simplesmente não sabe.

Alexandre Hercules

Editor-chefe da Brazil Health



Com informações da fonte
https://jovempan.com.br/saude/lipoproteinaa-alta-por-que-uma-vida-saudavel-pode-nao-eliminar-o-risco-cardiovascular/

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