O acesso à internet na primeira infância mais que dobrou no Brasil desde 2015. Em menos de dez anos, o índice saltou de 11% para 23% em 2024. O dado impressiona: quase metade (44%) dos bebês de até 2 anos já têm contato com telas, e entre crianças de 3 a 5 anos, o número chega a 71%.
Os resultados fazem parte do estudo “Proteção à primeira infância entre telas e mídias digitais”, divulgado nesta terça-feira (17) pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).
Impactos no cérebro
O estudo aponta que o uso intenso de mídias digitais pode alterar a anatomia cerebral, afetando funções como atenção, reconhecimento de letras e cognição social.
A professora Maria Thereza Souza, da USP, alerta: “Até mesmo desenhos animados podem estar associados a problemas de atenção em crianças entre 3 e 6 anos”.
Além disso, conteúdos violentos e videogames agressivos estão ligados a maior risco de comportamentos hostis, ansiedade, depressão e dessensibilização à violência.
Outros números
– 78% das crianças de 0 a 3 anos são expostas às telas diariamente.
– 1 em cada 3 crianças tem perfil aberto em redes sociais.
– A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda zero telas até os 2 anos e, entre 2 e 5 anos, no máximo 1 hora por dia, sempre com supervisão.
Recomendações e políticas públicas
O NCPI defende ações intersetoriais que envolvam saúde, educação e assistência social. Entre as medidas sugeridas estão:
– Campanhas de sensibilização sobre uso responsável da tecnologia.
– Fiscalização da classificação indicativa e combate à publicidade abusiva.
– Criação de espaços públicos para o brincar.
– Educação digital desde os primeiros anos de vida.
Pais e cuidadores são apontados como protagonistas na mediação ativa. Entre as práticas recomendadas:
– Estabelecer limites de tempo.
– Evitar telas antes de dormir ou durante refeições.
– Priorizar brincadeiras presenciais.
– Acompanhar o conteúdo consumido.
– Manter zonas livres de tela em casa.
– Ser exemplo de uso consciente da tecnologia.
O estudo reúne evidências nacionais e internacionais e reforça um alerta urgente: a infância brasileira está cada vez mais conectada, mas também mais vulnerável. Sem políticas públicas e apoio às famílias, o risco é que telas substituam o brincar, a convivência e o desenvolvimento saudável das novas gerações.

