Ícone da malandragem carioca, Bezerra da Silva veio escondido do Recife para o Rio

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A malandragem carioca e toda a sua estética conhecida internacionalmente têm raízes nordestinas. Assim como Madame Satã, o cantor e compositor Bezerra da Silva também era nordestino. Ícone da música brasileira, ele nasceu no Recife em 23 de fevereiro de 1927 e veio para o Rio de Janeiro aos 15 anos.
Ainda menino, decidiu vir escondido em um navio cargueiro rumo ao Rio. Veio sozinho, com um endereço anotado. O pai tinha partido antes, prometendo voltar para buscar a família. Nunca voltou.
No meio da viagem, o garoto Bezerra foi descoberto pela tripulação. Na chegada ao Rio, foi jogado à própria sorte na região portuária da Praça Mauá.
Sem encontrar o pai, virou menino de rua nas redondezas da Igreja da Candelária. Dormia onde dava. Comia quando dava. Sobrevivia.
O reencontro com o pai veio por acaso, pelas ruas da cidade. Mas não foi cena de novela. O pai já tinha outra família. Não voltaria para Recife. Não reconstruiria o que ficou para trás. Houve briga. Houve frustração. E Bezerra voltou para a rua — dessa vez, com a certeza de que estava sozinho no mundo.
Virou servente de obra. Trabalhou pesado. Aprendeu cedo que dignidade também se constrói com terra e cimento. Até que um dia, um amigo e compositor, Nilo Dias, fez um convite simples que mudaria tudo: “Vamos ali na Praça General Osório, em Ipanema, tem uma roda de samba”. Ele foi.
— E ali, no meio da roda, alguém o chamou para outra. Uma roda de samba na favela do Cantagalo. Ele subiu o morro e só desceu 20 anos depois — conta seu filho Léo Bezerra.
No morro, Bezerra encontrou o que a cidade tinha lhe negado: pertencimento. Ali, virou voz de quem era tratado como invisível. Cantou a malandragem real, o cotidiano da favela, a sagacidade do povo que sobrevive à margem.
O menino largado na Praça Mauá se transformou no cronista musical das favelas.
E tem algo simbólico nisso tudo, né? Um nordestino que chega expulso, vira moleque de rua e depois se torna um dos maiores intérpretes da cultura popular brasileira. A cidade que o maltratou nos primeiros anos virou palco da sua consagração.
Registro essa história na coluna Oxente, Rio! que existe para desempenhar esse papel e lembrar que o legado desta lenda merece sempre ser reverenciado. Em 2027, Bezerra completaria 100 anos — ele morreu em janeiro de 2005, aos 77 anos. E por aqui vocês ainda saberão muitas novidades sobre o centenário deste grande artista.



Com informações da fonte
https://extra.globo.com/blogs/oxente-rio/post/2026/03/icone-da-malandragem-carioca-bezerra-da-silva-veio-escondido-do-recife-para-o-rio.ghtml

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