“Ele não tem jeito”. A frase da diretora da escola que frequentou na infância, em Belém, seria recorrente na vida de Junior. É que, ainda menino, ele nadava contra a corrente. Era um garoto diferente. Colorido. Irreverente. Nos Anos 1960, na Região Norte do país, isso era um perigo. Ainda mais numa família em que o pai, mecânico, e a mãe, dona de casa, acreditavam que meninos só devam vestir azul.
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Foi a avó, com toda a sabedoria herdada da Floresta Amazônica, que inspirou o neto a querer ser artista. Para isso, precisaria ganhar mundo. Pegou os únicos cem cruzeiros que tinha, uma mala de papelão, subiu num pau de arara e se mudou para o Rio, em 1983,deixando emergir, então, a persona Milton Cunha.
Milton Cunha mostra seu acervo de ternos apoteótico
“Eu não cabia ali. Eu queria fazer teatro, arte, dança, musicais… Quando termino a faculdade de Psicologia, que fiz para entender o meu lugar no mundo, e as pessoas, eu decido sair dali. Com uma mão na frente e outra atrás mesmo”, conta o multifacetado Milton, que acaba de estrear um quadro no “Encontro”, às sextas-feiras.
Milton Cunha apresenta: carnava na alma
Guito Moreto
Instalado numa vaga em Copacabana, deslumbrado com o fervo do bairro debruçado sobre o mar, Milton começou a frequentar a lendária Galeria Alaska. O país vivia a transição política, após anos de ditadura, e o famoso ponto de encontro noturno da dita juventude transviada, leia-se os gays, se tornou a segunda casa dele:
“Fiz de tudo. Figurino, cenário, apresentei shows de novos talentos, travestis. Eu adorava aquilo, era arte pulsando, muita gente de mente aberta. Eu queria ser o Miele (Carlos, ícone do entretenimento nas décadas de 70/90)”.
1Milton Cunha apresenta o seu acervo de ternos
Guito Moreto
Foi no boca a boca que o então jovem, que transitava por Copa, com um cabelo loiríssimo em corte moicano e roupas feitas de tecido de cortina e sofá, se destacou e caiu nas graças de Chico Recarey. Foi responsável pela curadoria de shows e apresentações das muitas casas do já falecido Rei da Noite, noa anos 1990.
“Numa dessas noites, fui apresentado ao Anísio, da Beija-Flor. Entre uma conversa e outra, disse a ele que gostaria de montar um espetáculo sobre Margaret Mee. Quando narrei tudo, ele me diz que aquilo era um enredo de escola de samba e me convidou para ser o carnavalesco. Topei sem pensar em nada”, relembra.
Milton Cunha apresenta o seu acervo de ternos
Guito Moreto
A entrada de Milton no mundo do carnaval parecia uma promessa se cumprindo. Afinal, enquanto Junior, na capital paraense, ele vislumbrava um futuro entre brilhos e plumas, olhava as araras no quintal, todas cheias de cores, e imaginava cenários. Quando chegou ao barracão da escola de Nilópolis estava realizando um sonho. A estreia deu a ele o quinto lugar no campeonato de 1994.
O carnavalesco e apresentador de TV Milton Cunha
Divulgação
Além da Beija-Flor, Milton passou pela União da Ilha, Unidos da Tijuca e Viradouro, entre outras, dirigiu escolas no exterior e é diretor artístico da Cidade do Samba. No extenso currículo do psicólogo, historiador, cenógrafo, doutor em carnaval não tem um campeonato sequer:
“Acredito que nunca agradei os jurados. Eles não gostavam de mim. Eu não tinha uma escola clássica ou seguia os manuais pré-estabelecidos. Nunca fiz isso nem na vida! Sou maximalista demais para eles. Um aventureiro exagerado. Uma vedete”.
Milton Cunha apresenta o seu acervo
Guito Moreto
Latino demais para ser minimalista, não era de se estranhar que um dia Milton fosse parar na TV. Passou pela TVE e CNT comentando o Grupo de Acesso, hoje Série euro, e pediu uma chance de entrar na cobertura do carnaval Globeleza. Afinal, conhecia o chão dos barracões como ninguém. E o povão o adorava. Após um teste, em que até subir em árvore subiu para uma reportagem, conseguiu sua credencial para o Especial.
O primeio terno usado na transmissão e a Globeleza
divulgaão
Lá se vão 13 anos de Sapucaí. Ambiente em que Milton Cunha desfila. Literalmente. Cada aparição no Setor 1, o mais popular da Avenida, é uma festa. Meticuloso, ele pensa cada detalhe de seus famosos ternos apoteóticos. A cada ano um tema diferente é escolhido. É seu enredo nabucodonossoriano. Dali, ele desenvolve deslumbrantemente os adereços e alegorias que vai usar e em seguida enlouquece as costureiras e alfaiates da cidade com seus projetos babilônicos.
Milton Cunha apresenta o seu acervo de ternos faraônicos
Guito Moreto
“Um mês antes das transmissões já tenho tudo pronto. São ao todo 47 ternos por temporada, Sete são das transmissões, em São Paulo, Rio e Apuração. Os outros 40 são distribuídos na programação que antecede o carnaval”, contabiliza ele, que tem em casa 150 ternos e mais 120 na ABAC, Academia Brasileira de Artes Carnavalescas, da qual é fundador ao lado de Celia Domingues, a vice-presidente e pessoa que sabe de está cada uma das “fantasias” do sócio e amigo.
O carnavalesco e apresentador Milton Cunha em frente a ABAC
divulgação
“Comecei com umas camisetas bordadas que eu trouxe de Las Vegas. Depois, em 2016, começo com os ternos e se tornaram uma marca registrada. As pessoas esperam para ver o que vou usar. E eu faço por amor ao carnaval mesmo. Alguns pesam a beça, gasto horrores, passo calor. Mas nada disso me estressa. Amo estar bonito pro povão”, justifica ele, que gasta de R$ 8 mil a R$ 20 mil por conjunto de calça e paletó: “Compraria alguns carros”.
Milton Cunha apresenta o seu acervo de ternos
Guito Moreto
Na ABAC tem 120 deles. Outros 150 estão na casa de Milton e pelo menos 300 pegaram fogo no incêndio que assolou a Cidade do Samba, em 2011. Outros tantos foram doados a amigos. O que representa outra característica marcante de Milton, a generosidade.
Foi assim com os amigos e também com os amores. Após um casamento de 16 anos, Milton, de 63, está há um com o corretor de imóveis Vitor Morais, de 42 anos. No início, ele ficou reticente em ter sua vida pessoal exposta.
Milton Cunha e o namorado, Vitor Moraes, comemoraram o réveillon em Copacabana
Reprodução/Instagram
Apesar de ser essa pessoa espalhafatosa, adorar aparecer, eu gosto de ter minha vida particular mantida no particular”, diz ele, que logo no início do relacionamento deixou isso bem claro para o namorado: “Disse a ele o que viria ao estar com uma pessoa pública. E avisei: te orienta porque muita gente vai estar de olho em você. E outra coisa que já não cabe mais na minha vida é morar junto, casar, isso eu não quero mais. Eu já cheguei a uma idade em que fiquei exigente”, compartilha.
Milton Cunha não quer casar de novo
Gabriel Monteiro
O sossego que Milton quer para a pessoa física, nem de longe é o que ele deseja para a pessoa pública. Por ele, quanto mais barulho melhor. E tem planos audaciosos como show-man que é.
“Quero ser o novo Chacrinha. Ter aquela energia caótica, jogar bacalhau para as pessoas, fazer a alegria do povão desse país. Eu adoro isso. Não sou da socialite na cobertura com champanhe. Sou do boteco, comendo sardinha frita, bebendo cerveja. Eu não cruzei o país para me contentar com o básico Eu quero sempre mais”. Esse menino continua não tendo jeito. Que bom!
Milton Cunha apresenta o seu acervo de ternos
Guito Moreto
Milton Cunha apresenta o seu acervo de ternos
Guito Moreto
Milton Cunha apresenta o seu acervo de ternos
Guito Moreto
Milton Cunha apresenta o seu acervo de ternos
Guito Moreto
Com informações da fonte
https://extra.globo.com/famosos/noticia/2026/01/figura-emblematica-do-carnaval-milton-cunha-mostra-seus-ternos-apoteoticos-e-avisa-quero-ser-o-novo-chacrinha.ghtml

