Especialista em segurança pública Ricardo Gennari diz que é preciso mudar a estratégiaDivulgação
A dimensão desse desafio aparece nos próprios números da inteligência financeira brasileira. Em 2025, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) produziu 20.548 Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs), recorde histórico que representa um crescimento de 9,52% em relação aos 18.762 relatórios produzidos no ano anterior. A base utilizada pelo órgão já reúne mais de 65 milhões de comunicações de operações financeiras.
“Esses números mostram a dimensão do fluxo de informações que precisa ser analisado. O desafio não é apenas receber dados sobre operações suspeitas, mas transformar esse enorme volume de informações em inteligência capaz de identificar quem movimenta, controla e se beneficia do dinheiro do crime”, avalia Gennari.
Uma das estruturas que entrou definitivamente no radar das autoridades são as chamadas contas-bolsão, utilizadas para concentrar recursos de diferentes pessoas em uma mesma conta, dificultando a identificação de quem efetivamente realiza cada operação. A preocupação levou o Banco Central a reforçar as regras para identificação e encerramento de contas utilizadas para ocultar ou substituir obrigações financeiras de terceiros.
Segundo Gennari, a sofisticação dessas estruturas revela uma transformação importante do próprio crime organizado. “Para movimentar grandes volumes dentro da economia formal é necessário conhecimento técnico. Entram nessa engrenagem estruturas empresariais, intermediários, laranjas e pessoas capazes de compreender mecanismos financeiros e societários. Quanto mais sofisticado se torna o crime, mais especializada precisa ser a resposta do Estado”, afirma.
Investigações recentes também colocaram o setor de combustíveis no centro das atenções. Operações das autoridades identificaram estruturas empresariais e financeiras suspeitas de serem utilizadas para movimentação e ocultação de recursos provenientes de atividades criminosas, demonstrando como negócios da economia formal podem ser incorporados à engrenagem financeira das organizações.
Um posto de combustível, uma empresa ou uma fintech não são criminosos por natureza. O problema acontece quando estruturas legítimas são utilizadas para movimentar, misturar ou ocultar dinheiro ilícito. Essa infiltração na economia formal é particularmente perigosa porque dificulta a identificação da origem dos recursos.
Para o especialista, é nesse cenário que a estratégia internacionalmente conhecida como ‘follow the money’ (siga o dinheiro) se torna fundamental. Em vez de concentrar o combate apenas nos crimes que geram os recursos, a investigação financeira procura descobrir como o dinheiro circula, onde é aplicado, quem controla as operações e quem aparece como beneficiário final.
“Quando você consegue seguir o dinheiro, chega mais perto do centro de poder de uma organização criminosa. É o dinheiro que financia expansão, corrupção, patrimônio e capacidade operacional. Interromper esse fluxo significa atingir diretamente a estrutura que mantém essas organizações funcionando”, afirma Ricardo Gennari.
Para Gennari, o crescimento da complexidade financeira do crime organizado exige uma resposta igualmente sofisticada do poder público, com integração entre Coaf, Receita Federal, Banco Central, Ministério Público e forças policiais, além de investimento permanente em tecnologia e inteligência financeira.
“O crime organizado trabalha com planejamento, recursos, tecnologia e inteligência. O Estado precisa responder no mesmo nível. Não basta prender quem está na ponta se a estrutura financeira que sustenta a organização continuar funcionando. O crime já aprendeu a seguir o dinheiro. O Estado precisa ser capaz de segui-lo também”, conclui Ricardo Gennari.
Não é só Gennari partilha dessa preocupação. O advogado criminalista Antonio Gonçalves,
pós-doutor, doutor e mestre pela PUC/SP, pós-doutorando em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e MBA em Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, também fala a respeito do cenário atual.
Operação Carbono Oculto – “Desde a Operação Carbono Oculto, o Brasil tem desenvolvido cooperações técnicas estaduais e nacionais a fim de promover uma asfixia financeira para as organizações criminosas. Esse processo foi ainda mais intensificado a partir de maio, quando alguém dos Estados Unidos, acho eu, classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas globais. A partir daí, o Brasil aprofundou as cooperações técnicas, seja com a Receita Federal, seja com o Coaf, seja com Banco Central, a fim de ter o caminho mais eficaz para congelar ativos e promover uma asfixia financeira nas organizações criminosas. Então não causa nenhuma surpresa essa atuação do Coaf, que tem se mostrado muito ativo. O órgão tem uma capacidade gerencial de verificar 70 mil transações financeiras por dia”, explica o advogado.
Sistema em aperfeiçoamento – “Essas cooperações técnicas ainda estão em desenvolvimento, de modo que ainda existem lapsos, tanto na fiscalização quanto na própria operação. O governo federal tem buscado criar protocolos e portarias a fim de otimizar o sistema. Por exemplo, a Secretaria da Receita Federal não tinha um programa específico de investigação contra as fintechs. Isso só se tornou viável e eficaz quando ela editou uma instrução normativa dedicada a fiscalizar melhor essas plataformas. O mesmo vai acontecer com as empresas fiscalizatórias no quesito do petróleo. É um processo gradativo. À medida que essas operações vão se desenrolando com êxito, as ferramentas vão se intensificando positivamente”, pontua.
Rastreamento – “Como eu mencionei, o método mais eficaz que as autoridades brasileiras desenvolveram para promover essa asfixia financeira é rastrear o caminho do dinheiro. Hoje, as operações são transnacionais: podem começar no Brasil, mas com certeza terminarão em outro país. O Brasil é responsável por um dos maiores fluxos de tráfico de cocaína do mundo atualmente. Promover esse rastreamento, inclusive através da Dark Web e de caminhos complexos como pagamento de criptomoeda é o grande desafio para se infiltrar nesse ambiente e mapear o circuito que o dinheiro faz para a lavagem de dinheiro pelas facções criminosas”, aponta.
Lavagem de dinheiro – “A Lei de Lavagem de Dinheiro está desatualizada. Ela não tem uma previsão orçamentária para estruturar uma investigação profunda. É uma lei que já soma quase 30 anos e, claramente, o crime organizado se modernizou e se desenvolveu nesse período. Eu costumo dizer que o Estado brasileiro, tanto em termos legislativos como operacionais, funciona em modo analógico, ao passo que o crime organizado opera de forma totalmente digital. Então o desafio é formular leis mais eficazes, não necessariamente mais duras. A atualização da Lei de Lavagem é essencial para o avanço das investigações, e cabe ao Congresso Nacional promover essa mudança. A PEC da Segurança Pública que o Governo Federal tanto alardeia como solução pode ser um passo válido ao prever um orçamento e uma diretriz na Constituição, mas continuará insuficiente se não houver mecanismos modernos de rastreio de dinheiro e instrumentos necessários para a investigação”, finaliza Antonio Gonçalves.
Apontados como idealizador e gestor da engrenagem financeira, respectivamente, os empresários Roberto Augusto Leme da Silva, o ‘Beto Louco’, e Mohamad Hussein Mourad, ‘o Primo’, são acusados de montar um esquema sofisticado de lavagem de dinheiro e fraudes fiscais para adquirir secretamente a Tobras Distribuidora de Combustíveis (Terrana) e blindar imóveis em fundos de investimento.
Com os novos pedidos à Justiça, o MP busca bloquear bens, congelar contas e obter documentos que revelem os detalhes da compra da distribuidora. Enquanto isso, ‘Beto Louco’ e ‘Primo’ seguem como alvos prioritários, considerados as peças centrais de um esquema bilionário com ramificações no crime organizado.
O Ministério Público de São Paulo, por meio do Gaeco, busca asfixiar financeiramente o grupo e capturar seus dois principais líderes, foragidos da Justiça desde agosto de 2025. Há informações de que os dois estariam na Líbia ou no Líbano, mas nada confirmado.
Como Funciona a Fraude das Contas-Bolsão
– Origem Pulverizada: O dinheiro ilícito é gerado na ponta (tráfico, contrabando de combustível, fraudes) por dezenas de operadores e subcontas diferentes.
– O Funil (A Conta-Bolsão): Em vez de transferir os valores diretamente para o topo da facção, os operadores depositam tudo em uma única conta de grande porte, aberta em nome de uma fintech ou empresa prestadora de serviços legítima.
– Mistura de Fluxos: Dentro dessa ‘superconta’, os recursos criminosos se misturam a transações comerciais legítimas de milhares de clientes reais, tornando o dinheiro indistinguível.
– Ocultação do CPF/CNPJ: Como a conta principal pertence à empresa intermediária, o nome, o CPF e o rastro dos criminosos originais desaparecem dos registros bancários tradicionais.
Saiba mais
A Operação Carbono Oculto realizada, em conjunto, pela Receita Federal, Polícia Federal, Ministério Público do Estado de São Paulo, por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), foi deflagrada para desarticular um grupo criminoso que usava fintechs e fundos de investimentos para lavagem de dinheiro do tráfico e de fraudes no setor de combustíveis.
O que são fintechs
Empresas que unem finanças e tecnologia para oferecer serviços financeiros digitais de forma mais rápida, acessível e inovadora do que bancos tradicionais. No Brasil, elas são reguladas pelo Banco Central e atuam em áreas como crédito, pagamentos, investimentos e seguros. O termo vem de financial technology (tecnologia financeira).
Objetivo: Tornar serviços como transferências, empréstimos, investimentos e pagamentos mais simples, rápidos e baratos.
O que são contas-bolsão
São contas coletivas abertas em nome de uma instituição (como fintechs ou bancos), que concentram recursos de vários clientes em um único ambiente operacional. Embora os valores sejam agrupados, cada investidor ou usuário mantém sua titularidade individualizada por registros contábeis e jurídicos. O Banco Central passou a regular mais fortemente esse modelo devido a riscos de rastreabilidade e uso indevido em operações ilícitas.
Estrutura coletiva: Recursos de vários clientes ficam em uma única conta, formalmente em nome da instituição (fintech, banco ou plataforma).
Individualização: Apesar da centralização, cada cliente tem seus valores identificados separadamente por registros internos.
Exemplo prático: Funciona como o caixa de um condomínio — há um fundo comum, mas cada morador tem sua fração definida.
