O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que o crime em Washington estava “fora de controle” no início deste mês e disse que usaria o poder do governo federal para “resgatar a capital do nosso país do crime, do derramamento de sangue, do caos e da miséria — e pior”. Mas uma análise do New York Times de cerca de mil prisões feitas durante as duas primeiras semanas da intensificação da aplicação da lei federal sugere que a operação tem sido mais uma rede de arrastão do que direcionada ao combate ao crime.
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Os registros mostram que policiais de algumas das agências federais de aplicação da lei mais elitizadas do país estão frequentemente realizando blitz de trânsito, operações de compra e apreensão de drogas de baixo valor ou verificando se alguém está bebendo álcool em recipientes abertos.
De certa forma, o foco em infrações de baixo nível ou nos chamados crimes contra a qualidade de vida se assemelha às estratégias empregadas em cidades como Nova York na década de 1990, que buscavam reduzir o crime controlando a desordem visível. Na operação atual, no entanto, os agentes federais pareciam estar parando pessoas por infrações menores como forma de procurar crimes mais graves relacionados a drogas e armas.
Juan Carlos Dela Torre já havia tido um desentendimento com uma das equipes itinerantes de agentes federais que chegaram a Washington este mês. Então, na sexta-feira à noite, aconteceu outro. Ele estava parado na calçada fumando um baseado, que os policiais apreenderam como prova de “consumo de maconha em espaço público”, uma contravenção no distrito. Os policiais o levaram para uma delegacia local, revistaram-no e, segundo eles, encontraram uma pequena quantidade da droga estimulante MDMA. Ele foi enviado para a prisão.
— Nunca vi tanta presença policial em toda a minha vida — disse Dela Torre, 37, massoterapeuta que mora em Washington desde 1994. — Vocês estão preocupados com um cara fumando um baseado na esquina numa sexta-feira à noite
As prisões aumentaram ligeiramente no geral, com 995 novos réus criminais registrados na prisão municipal e levados ao tribunal entre 8 de agosto, um dia após o início da operação, e 22 de agosto, em comparação com 870 no período anterior de 15 dias. Os promotores não apresentaram acusações em todos os casos. Quando o fizeram, as acusações relacionadas a armas e drogas representaram mais da metade das prisões nas quais os agentes federais participaram. Isso inclui algumas acusações contra pessoas que tinham licença para portar armas em outros estados, mas não tinham permissão para fazê-lo em Washington.
Infrações de trânsito e outras violações menores, como possuir uma garrafa de bebida alcoólica aberta na rua, representaram outros 18% do total. Nove por cento dos casos em que agentes federais foram mencionados envolveram respostas a crimes violentos ou contra a propriedade. Além disso, os agentes federais também executaram dezenas de mandados, prendendo pessoas que já eram procuradas no distrito ou em outros lugares por acusações de homicídio, tráfico de drogas ou sequestro.
Autoridades do governo Trump se gabam de que os crimes violentos caíram mais de 45% e os crimes contra a propriedade, 12%, desde o início da ação federal. Autoridades locais apontam que, embora a criminalidade já estivesse em declínio antes, as quedas em algumas categorias, incluindo roubo e sequestro de veículos, se acentuaram desde o início da ofensiva.
— Já tínhamos um bom impulso antes da ofensiva federal, e ela tornou tudo ainda melhor — afirmou Kevin Donahue, administrador da cidade.
Mas especialistas alertam contra a interpretação exagerada das flutuações de curto prazo nas estatísticas de criminalidade, especialmente porque a forte presença das forças da lei pode simplesmente ter levado as pessoas a ficarem longe das ruas.
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O Times analisou os registros de prisão de cerca de 1.000 pessoas detidas durante a operação e conseguiu examinar os seus depoimentos em mais de 500 casos, detalhando suas circunstâncias. Esses documentos são uma das poucas janelas disponíveis para se entender o papel que os policiais federais estão desempenhando nas prisões criminais no distrito.
Os agentes parecem ter participado de menos de um terço das prisões. Na grande maioria dos casos, os policiais iniciaram o contato por conta própria, sem responder a uma chamada ou instruções dos despachantes. Encontros que incluíram abordagens de trânsito por infrações menores, como vidros escuros ou estacionamento em fila dupla, bem como casos em que um copo ou recipiente que poderia conter álcool era visível em um veículo.
Os registros judiciais sugerem que essas abordagens geralmente levavam a uma revista, e essa, muitas vezes, levava à descoberta de drogas ou armas. A Casa Branca disse na quinta-feira que 135 armas foram recuperadas desde 7 de agosto.
Além das pessoas cujas prisões constam nos registros judiciais, mais de 400 suspeitas de estarem ilegalmente no país foram detidas por agentes federais de imigração em Washington nas últimas três semanas. Seu paradeiro e o status de seus casos são muito mais difíceis de rastrear.
Como resultado das operações, a população da violenta e escassa cadeia da cidade está maior do que nunca, um resultado que não parece ser motivo de preocupação para as autoridades federais envolvidas na repressão.
— A última coisa com que estou preocupada é com uma prisão superlotada — ironizou Jeanine Pirro, procuradora federal em Washington. — O que me preocupa são as pessoas em Washington que se sentem como se estivessem na prisão porque os criminosos estão à solta.
Com a ordem de apresentar as acusações criminais mais graves contra todos os detidos, os promotores do escritório de Pirro, que conta com poucos funcionários, mantêm o tribunal de audiências preliminares da cidade aberto até depois da 1h da madrugada em muitos dias.
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Embora as autoridades de Washington tenham criticado as prisões de imigrantes e o número crescente de soldados da Guarda Nacional na cidade, elas expressaram apoio ao aumento da aplicação da lei federal. O chefe de polícia da cidade disse aos repórteres que, desde blitz de trânsito até patrulhas a pé, as equipes federais estavam executando estratégias de combate ao crime desenvolvidas pela polícia local em resposta às preocupações dos moradores.
— Deixe-me colocar desta forma: se houvesse 500 policiais adicionais, essas mesmas atividades, prisões e apreensões de armas, provavelmente teriam sido realizadas — estabeleceu a prefeita Muriel Bowser à imprensa na quarta-feira.
Ainda assim, nem todos em Washington se sentem seguros. Jawana Hardy, 35, lembrou-se de ter visto um pelotão de polícias invadir um churrasco em seu bairro em uma recente sexta-feira à noite, pedindo às pessoas que mostrassem o que tinham nos bolsos ou nos copos que seguravam.
— Você pensaria que mais policiais tornariam as pessoas mais seguras. Mas isso está trazendo uma sensação de medo à comunidade — ponderou.
Mesmo algumas das pessoas que receberam bem a perspectiva de mais policiamento disseram que consideram as táticas agressivas contraproducentes.
— Pessoas que não são o problema estão sendo presas para criar uma aparência — disse Ron Moten, um ativista antiviolência de longa data no distrito que tem pressionado por um policiamento mais proativo. — Isso está fazendo com que pessoas comuns tenham medo de andar no Distrito de Columbia.
Entre os detidos cuja raça foi registrada nos últimos dois semanas, a grande maioria é negra. Isso também se aplicou às prisões realizadas pela polícia de Washington em 2023 e 2024, uma proporção claramente desproporcional para uma cidade onde os negros representam pouco mais de 40% da população.
Embora as prisões envolvendo agentes federais tenham ocorrido em todos os oito distritos da cidade, cerca de 30% foram ao Distrito 8, a área com o maior número de crimes violentos.
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Mais da metade das prisões registradas envolvendo agentes federais ocorreram após a descoberta de drogas ou armas. Por exemplo, na última sexta-feira, um grande grupo de policiais de agências como o FBI, a DEA, o ICE e o Serviço Secreto saiu de seus carros para abordar um homem de 45 anos que estava sentado em uma cadeira de jardim bebendo vinho de uma pequena garrafa. Eles o prenderam por beber em público, o que lhes permitiu realizar uma revista. Eles disseram ter encontrado uma arma em seu cinto e crack em uma bolsa que ele carregava.
Em quase todos os registros dessas prisões, os policiais afirmam que suas suspeitas foram confirmadas por uma revista ou uma busca. O que é impossível saber, no entanto, e o que está incomodando muitos residentes cumpridores da lei em Washington é quantas dessas abordagens estão sendo feitas sem que nada ilegal seja encontrado.
2025-08-29 17:26:00