A investigação da Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo que identificou agentes da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) trabalhando como seguranças de dirigentes de uma empresa de ônibus punida por ter vínculos com o PCC (Primeiro Comando da Capital) é mais uma confirmação de como o crime organizado tem se infiltrado nas instituições da República. O Rio de Janeiro tem longa história de relação deletéria entre policiais e o jogo do bicho. É triste que a hegemonia do PCC em São Paulo também tenha resultado em vínculos da mesma natureza na tropa de elite da polícia paulista.
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As investigações constataram que, enquanto faziam a segurança de suspeitos de ligação com o PCC, os PMs também atendiam o ex-vereador Milton Leite (União), presidente da Câmara Municipal por seis vezes. Ele é acusado de ser o verdadeiro proprietário da empresa de ônibus envolvida com os criminosos, a Transwolff, um dos alvos da Operação Fim de Linha, em abril de 2024, que desbaratou esquemas de lavagem de dinheiro do PCC usando concessionárias de transporte público. Três dos sete PMs investigados foram presos. Eles trabalharam entre 2020 e 2024 como guarda-costas de dois diretores da Transwolff, denunciados como integrantes do PCC que operavam para lavar dinheiro. Quem gerenciava a escala dos seguranças era um capitão da PM e ex-assessor militar da Câmara Municipal, também preso. Todos eram da Rota.
À medida que o PCC se fortalece, munido de regras próprias, hierarquia e fachadas legais, é natural que tente corromper mais agentes dos aparelhos de segurança pública. Um caminho para aliciá-los é a oferta de trabalho no período de folga, o “bico”, prática formalmente proibida pela PM paulista.
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Conexões entre criminosos, quartéis de PMs e delegacias não são novidade. Por ocasião do assassinato do delator Vinícius Gritzbach no Aeroporto de Guarulhos em 2024 — um recado a quem ousasse testemunhar contra o PCC —, o inquérito da Polícia Civil denunciou PMs por envolvimento no crime, dois deles como executores diretos.
O grave é casos desse tipo se espalharem pelo país, no rastro da expansão nacional e internacional de facções como PCC, Comando Vermelho (CV) e congêneres. O combate ao crime organizado exige ação conjunta de todas as esferas de governo. Em muitos casos, apenas o governo federal, por meio de suas forças de segurança, tem condição de agir contra a infiltração das polícias estaduais. Daí a necessidade de apressar a aprovação da Lei Antifacção e da PEC da Segurança, instrumentos legais necessários para a integração do combate às facções. E, desde já, é prioridade estratégica blindar as forças policiais contra as ações insidiosas das organizações criminosas.

