Kaouther Ben Hania estava em plena campanha de promoção de “As 4 filhas de Olfa”, que concorria ao Oscar de melhor documentário naquela janeiro de 2024, quando ouviu pela primeira vez, nas redes sociais, a voz de Hind Rajab, a menina palestina de 5 anos assassinada pelas Forças de Defesa de Israel em Gaza. O áudio era um fragmento das trocas telefônicas entre a garota, que aguardava socorro dentro de um carro crivado de balas, cercada pelos corpos de outros seis membros da família, e os operadores do Crescente Vermelho, entidade humanitária internacional que atua em situações de emergência. Comovida e profundamente indignada com o destino de Hind, encontrada morta junto com os dois paramédicos despachados para resgatá-la, a diretora franco-tunisiana reagiu ao episódio com “A voz de Hind Rajab”, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (29), exatos dois anos depois da tragédia, como o candidato da Tunísia ao Oscar de melhor filme internacional, concorrente direto do brasileiro “O agente secreto”.
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Aclamado pela crítica e pelo público no Festival de Veneza, de onde saiu com o Grande Prêmio do Júri, o longa-metragem usa arquivos de áudio e de imagem daquela noite trágica em Gaza, captados pela equipe de socorristas, como fio condutor da trama, e reencenados com a ajuda de atores profissionais. A comoção causada na mostra italiana marcou o início de uma vitoriosa trajetória em diversos festivais internacionais. Mas, apesar da adesão ao projeto de grandes nomes de Hollywood como produtores executivos, incluindo Brad Pitt, Alfonso Cuarón e Joaquin Phoenix, “A voz de Hind Rajab” demorou a conseguir um distribuidor americano, essencial para a temporada de premiação dos EUA. A diretora diz que já esperava alguma resistência, devido aos sentimentos que o filme possa suscitar sobre um conflito armado ainda em curso, mas afirma que não poderia ficar quieta.
— Outros documentários já explicaram tudo sobre o episódio, eu precisava usar o cinema para criar empatia sobre o que acontece na Palestina — explica Ben Hania, por videochamada.
A seguir, confira trechos da entrevista.
Você já competiu pelo Oscar duas vezes, com um doc e uma ficção, totalmente diferentes de “A voz de Hind Rajab”. O sentimento e a expectativa são diferentes agora?
Não consigo falar sobre expectativas, sobre prêmios ou possíveis vitórias, porque isso depende dos membros da Academia, se eles assistiram ao filme e gostaram, ou não. O que eu posso dizer é que este filme não conta uma história apenas, é também sobre História, muito recente e ainda em andamento, e nosso esforço é levá-lo a todos os lugares possíveis, premiações, festivais, porque o fizemos para ecoar a voz de Hind, em rejeição à erosão do esquecimento. É uma forma de honrar a memória da menina e homenagear todos os trabalhadores humanitários que trabalham no conflito. É também, para mim, uma chamada à ação, porque precisamos passar por todos esses festivais e concursos para chamar a atenção dos americanos comuns que não estão interessados nessa questão. Então, para mim, uma indicação é como uma pequena luz de destaque sobre esse caso muito importante, que é a história de um filho, mas também a história de nosso fracasso como humanos.
O filme comoveu o público e a crítica em Veneza, onde recebeu inéditos 23 minutos de aplauso, mas, para surpresa de todos, o prêmio de melhor filme foi para Jim Jarmusch, por “Pai mãe irmão filha”. Até mesmo ele parecia constrangido, tentando articular um agradecimento. O que sentiu naquela noite, quando foi receber o Grande Prêmio do Júri, que equivale a um segundo lugar?
Eu não estava com a cabeça em Veneza naquele momento do prêmio. Meu pensamento estava em Gaza porque, na época, a mãe de Hind ainda estava lá, recebendo ameaças de morte das forças israelenses e estávamos tentando tirá-la da cidade. Estava realmente assustada com a possibilidade de matá-la porque, meses antes, a fotojornalista palestina Fatima Hassouna foi morta em um ataque aéreo no dia seguinte ao anúncio da seleção do documentário “Guarde o coração na palma da mão e caminhe”, sobre o trabalho dela no caótico cotidiano em Gaza. Eu estava assustada, mas queria receber o prêmio em Veneza. Quando fomos convocados para a cerimônia, o que confirmou que receberíamos algum prêmio, falei com a mãe de Hind e perguntei o que ela gostaria que eu falasse no discurso de agradecimento. Foram as palavras dela que usei no palco.
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Apesar de toda a repercussão e dos nomes célebres que se juntaram ao filme como produtores executivos, ele não conseguiu um distribuidor americano de grande porte, essencial para as campanhas ao Globo de Ouro e ao Oscar. Acabou ficando com uma pequena distribuidora de NY focada em filmes de relevância social e cultural. Entendeu isso como receio de trabalhar com um tema polêmico ou simples boicote mesmo?
Em um mundo normal, quando um diretor indicado duas vezes ao Oscar faz um filme que tem esse tipo de repercussão e ganha um prêmio em Veneza ou Cannes, você espera que o maior dos estúdios corra para pegar a distribuição dele nos Estados Unidos, não? Sim, claro. Mas não foi o caso, porque é uma história palestina. Sim, eu sabia que há histórias sendo silenciadas. Sabia que haveria uma luta para distribuir meu filme, mas tinha esperanças de que talvez um grande estúdio tivesse a coragem de distribuí-lo. Não foi o caso, então fizemos um acordo com a Willa, que está fazendo um ótimo trabalho, embora o sistema esteja pronto para colocar o filme em um circuito limitado. Mas estamos lutando para ter um circuito maior.
Seus dois filmes anteriores também trabalham na fronteira entre a ficção e o documental. E neste você trabalha com a voz real de Hind, imagens feitas pela equipe de socorristas e dramatização com atores. Como chegou a essa combinação?
Como se tratava de uma história ancorada na verdade, em investigações jornalísticas e forenses, meu trabalho era encontrar uma forma de contá-la ao público da forma mais impactante e respeitosa possível, e compartilhar com ele a empatia e a emoção que senti quando ouvi a voz de Hind pela primeira vez. Desde o início, estava certa de que o registro da voz da menina seria a base do filme e, como a ideia começou com o som, eu me perguntava de qual perspectiva eu contaria essa história, que é a dos funcionários do Crescente Vermelho, das pessoas que ouviram seus apelos e quiseram salvá-la. Queria mostrar todos os mecanismos que proibiram o salvamento de Hind e que mataram os socorristas que chegaram até o carro onde ela estava. Daí a necessidade da encenação, da dramatização, de atores representando aquelas pessoas. Trouxe ferramentas do cinema ficcional para ancorar essa história, essa verdade, para dizer que isso realmente aconteceu. Em vez de explicar, queria que as pessoas se emocionassem com esse crime de guerra horrendo.
Mas há aqueles que considerem imoral o uso da voz real de Hind para provocar algum tipo de resposta emocional. O que a senhora tem a dizer para quem pensa assim?
Já ouvi esse tipo de reação, e acho que entendo de onde vem. Ouvir a voz de uma criança pedindo pela vida não é algo confortável. As pessoas vão ao cinema para escapar da realidade, precisam de ficção, de algo mais. Então, quando você lhes lembra que a história é real, não é confortável para elas, ficam furiosas. Mas dizer que não deveria ter usado a voz real da garota que, a propósito, pode ser encontrada na internet, é o mesmo que dizer a alguém que encontrou o diário pessoal de Anne Frank em seu refúgio durante a Segunda Guerra que não é ético usá-lo, por se tratar de algo íntimo. Não, às vezes, essas coisas pertencem à História, se tornam algo maior, e a voz de Hind Rajab pertence à História e deve ser ouvida. Não é uma coisa confortável, reconheço, mas o que ela viu em suas últimas horas de vida e o que os palestinos vivem todos os dias também não é confortável.

