Tomar anti-inflamatório nem sempre resolve. Entenda os tipos de dor e como isso orienta um cuidado mais eficaz e seguro.
Quando a dor aparece, a primeira reação costuma ser tomar um analgésico ou um anti-inflamatório. Mas nem sempre isso resolve. A dor após uma batida no joelho é muito diferente da causada por uma hérnia de disco ou por fibromialgia. Entender essas diferenças pode ser a chave para um tratamento eficaz.
Cada dor tem sua origem
A medicina reconhece hoje tipos distintos de dor, cada um com sua própria assinatura no corpo. A dor inflamatória surge quando há lesão nos tecidos, como em uma artrite ou após uma cirurgia. É uma dor localizada, que piora com o movimento e melhora com o repouso. Costuma responder bem a anti-inflamatórios e a tratamentos direcionados ao local inflamado.
Já a dor mecânica está ligada à sobrecarga ou à postura. É típica de quem tem artrose no joelho ou dor nas costas por má postura. Melhora quando tiramos o peso ou ajustamos o alinhamento do corpo. Nesses casos, fisioterapia e mudanças de hábito costumam ser mais eficazes do que remédios.
A dor neuropática resulta de uma lesão nos nervos. Quem já sentiu um formigamento que queima ou dá choques, como ocorre na nevralgia ou na compressão do nervo ciático, conhece bem esse tipo. Ela não responde aos analgésicos comuns. O tratamento geralmente envolve medicações específicas, como alguns antidepressivos ou anticonvulsivantes, que atuam no sistema nervoso.
Por fim, existe a dor nociplástica, talvez a menos compreendida. Nela, não há lesão visível nem inflamação evidente, mas o sistema nervoso central amplifica os sinais de dor de forma desproporcional. É o que acontece na fibromialgia e em muitos casos de dor crônica generalizada. Aqui, anti-inflamatórios e até opioides costumam falhar. O caminho passa por abordagens multidisciplinares: exercícios físicos, terapia cognitivo-comportamental, educação sobre a dor e, às vezes, medicações que atuam no sistema nervoso central.
O risco de tratar sem entender
Tratar dor de forma genérica pode trazer alívio momentâneo, mas também pode adiar o diagnóstico correto e piorar o quadro a longo prazo. Estudos recentes indicam, por exemplo, que o uso precoce de anti-inflamatórios em episódios agudos de dor lombar pode, paradoxalmente, aumentar o risco de a dor se tornar crônica. Isso porque essas medicações podem interferir no processo natural de resolução da inflamação mediado por células de defesa, como os neutrófilos.
Além disso, quando não identificamos a origem da dor, corremos o risco de indicar tratamentos inadequados. Um paciente com dor neuropática pode passar anos tomando anti-inflamatórios sem resultado, acumulando efeitos colaterais e frustrações. Outro, com dor nociplástica, pode ser submetido a cirurgias ou infiltrações desnecessárias, porque o problema não está no local que dói, e sim na forma como o cérebro processa os sinais.
O caminho para o tratamento eficaz
A boa notícia é que a medicina tem avançado na capacidade de distinguir esses diferentes tipos de dor. Hoje existem questionários validados e exames clínicos que ajudam a identificar o mecanismo predominante. Mais importante: o médico precisa ouvir com atenção a história do paciente. A descrição da dor — se é em queimação, latejante, em choques, se piora com o movimento ou surge sem motivo aparente — já fornece pistas valiosas.
O tratamento moderno da dor não se resume a receitar um comprimido. Envolve personalizar as terapias de acordo com o tipo de dor e com as características de cada pessoa. Para a dor inflamatória, é possível usar anti-inflamatórios, mas com cautela e no momento certo. Para a dor mecânica, reabilitação e correção postural. Para a neuropática, medicações específicas e, às vezes, bloqueios nervosos. E, para a nociplástica, uma abordagem que inclui educação, exercícios, acompanhamento psicológico e, quando necessário, remédios que atuam no sistema nervoso.
Reconhecer que nem toda dor é igual é o primeiro passo para abandonar o remedinho para dor e buscar uma solução de verdade. Afinal, entender a origem do problema é sempre o melhor caminho para resolvê-lo.
Dr. Rafael Pivovar C. Rosa – CRM 164090 / RQE 103880 Médico anestesiologista

