A incapacidade da Prefeitura do Rio em enfrentar a crise do transporte público voltou a se evidenciar nesta quinta-feira (5). Cerca de 350 motoristas da empresa Paranapuan paralisaram a circulação de pelo menos dez linhas na Ilha do Governador, deixando mais de 50 mil passageiros sem alternativa de deslocamento — especialmente aqueles que dependem das linhas que conectam a Ilha ao Centro e à Zona Sul.
O motivo da paralisação: atrasos salariais, vale-refeição pendente, irregularidades no FGTS, férias e 13º salário. A proposta da empresa de parcelar os salários em três vezes foi rejeitada pelos trabalhadores, que também denunciam frota sucateada e descontos consignados não repassados. O sindicato patronal Rio Ônibus reconheceu a paralisação e atribuiu o problema à “grave crise do sistema”.
“O Rio Ônibus informa que os rodoviários da Paranapuan entraram em paralisação nesta manhã. A empresa está em tratativas com os colaboradores para restabelecer a operação. O caso é reflexo da grave crise atravessada pelo sistema de ônibus na cidade”, afirmou a entidade através de nota. A Prefeitura, ainda não se manifestou.
Histórico de paralisações recentes
O episódio repete um padrão que vem se agravando nos últimos meses:
• Setembro de 2025 – Palmares e Pégaso (Zona Oeste)
Paralisação de 22 linhas, motivada por atrasos salariais e benefícios.
• Setembro de 2025 – Real e Vila Isabel (Zonas Norte, Sul e Centro)
Funcionários interromperam 24 linhas, também por falta de pagamento.
• Setembro de 2025 – Terceira paralisação em 20 dias
Interrupção de 24 linhas em diferentes regiões, expondo o impasse entre Prefeitura e empresas sobre subsídios e fiscalização.
• Dezembro de 2025 – Real e Vila Isabel
Greve iniciada em 22 de dezembro, afetando 17 linhas. Motoristas cobravam salários e benefícios atrasados. A paralisação se estendeu por dias, atingindo bairros da Zona Sul, Norte, Sudoeste e Centro.
• Janeiro de 2026 – Novas paralisações
Trabalhadores voltaram a suspender linhas em diferentes regiões da cidade, mantendo o padrão de protestos contra atrasos salariais e irregularidades trabalhistas.
• Março de 2026 – Paranapuan (Ilha do Governador)
Cerca de 350 motoristas pararam ao menos 10 linhas, deixando mais de 50 mil passageiros sem transporte.
Esses episódios revelam um ciclo vicioso: trabalhadores denunciam precarização, empresas culpam a falta de subsídios da Prefeitura, e o poder público não consegue evitar novas paralisações.
O jogo de empurra
A crise do transporte público carioca virou um círculo vicioso:
– Empresas alegam falta de subsídios e dificuldades financeiras.
– Rodoviários protestam contra salários atrasados e condições precárias.
– Prefeitura promete soluções que não chegam.
Enquanto isso, a população paga a conta: longas esperas nos pontos, superlotação nos poucos ônibus em circulação e aumento da dependência de transportes alternativos, muitas vezes mais caros e inseguros.
Impacto direto na população
Cada paralisação significa milhares de trabalhadores e estudantes impedidos de chegar ao destino. A Ilha do Governador, já isolada por problemas de mobilidade, ficou praticamente sem opções nesta manhã. O cenário reforça a percepção de que o sistema de ônibus do Rio está em colapso, sem planejamento ou resposta efetiva da administração municipal.
O transporte público do Rio de Janeiro vive uma crise estrutural e permanente, marcada por greves sucessivas, frota deteriorada e ausência de gestão. Enquanto o impasse continua, quem sofre é o cidadão carioca, refém de um sistema que deveria ser essencial, mas se tornou sinônimo de caos.

