Como um espião da KGB desertou com os mais importantes segredos soviéticos, contra a vontade do filho: 'Traidor'

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No cais decadente do porto de Klaipėda (Lituânia), em 7 de novembro de 1992, foi consumada a “traição”.
Oficialmente, a Guerra Fria havia acabado um ano antes. Mas velhos hábitos eram difíceis de morrer. Além disso, o que restou da União Soviética precisava manter escondido segredos terríveis de um regime opressor e com táticas reprováveis.
Um agente britânico e um colaborador russo estavam recebendo uma senhora idosa com bengala, um homem mais jovem em uma cadeira de rodas e uma figura silenciosa na casa dos 70 anos ao lado de uma mulher com praticamente a mesma idade. Com este último estavam muitos dos segredos mais obscuros da União Soviética.
O homem na cadeira de rodas — Vladimir Mitrokhin, a quem haviam dito que aquela era uma viagem para tratamento médico — tinha acabado de perceber que se tratava de uma deserção.
Seu pai, Vasili, um arquivista aposentado da KGB (agência de inteligência soviética), estava fugindo para a Grã-Bretanha com a mais completa coleção de segredos da inteligência soviética já compilada: anotações manuscritas documentando 12 anos de operações da KGB, identificando centenas de espiões, revelando redes de espionagem atômica e expondo os métodos que Moscou usava para esmagar a dissidência e se infiltrar em governos ocidentais.
No momento mais dramático da fuga, Vladimir olhou para o pai e disparou: “Você é um espião. Traidor!”
Gritando palavrões, o filho de Vasili se agarrou aos braços da cadeira de rodas e se recusou a ir com os agentes.
O tempo estava se esgotando. Homens da KGB, que seguia em operação após a ruína soviética, poderiam estar nos arredores. Um dos agentes envolvidos na operação desferiu golpes contra as mãos de Vladimir, o agarrou com força, o pôs sobre um ombro e o levou para um barco. A cadeira de rodas era larga demais para a prancha que levava à embarcação da fuga.
Os detalhes estão no livro de Gordon Corera “O Espião no Arquivo: Como um Homem Tentou Matar a KGB” (tradução livre).
“Vasili nunca olhou para trás”, escreveu o autor sobre o momento em que o espião oficialmente desertava. O comportamento era uma referência à antiga superstição do gulag de que, se você olhasse para trás ao sair de um campo de prisioneiros, estaria condenado a retornar.
Vasili e Vladimir Mitrokhin
Reprodução
A jornada de Vasili até aquele cais lituano havia começado décadas antes nos porões da Lubyanka, a notória sede da KGB em Moscou.
Espião ‘rebaixado’
Após missões malsucedidas em Israel e na Austrália, o russo foi relegado aos arquivos, um cargo sem futuro para agentes da KGB que não se destacavam. Parecia algo temporário, mas não era.
“Foi uma experiência muito perturbadora para mim”, confessou ele.
Mas, na verdade, essa seria a rendenção de Vasili. Como arquivista, ele teve contato com os maiores segredos da inteligência soviética.
Enquanto Vasili processava centenas de milhares de arquivos durante a mudança da KGB da Lubyanka para a nova sede em Yasenevo, em 1972, ele testemunhou toda a extensão das operações de inteligência soviéticas: espiões atômicos, agentes infiltrados vivendo sob identidades falsas no Ocidente, a repressão de dissidentes, a infiltração em igrejas, a chantagem de diplomatas.
“Eu não conseguia acreditar em tanta maldade”, disse Vasili, segundo Corera.
Os arquivos documentavam o que ele chamava de “um rastro de imundície”, incluindo traições, denúncias, tortura e assassinatos, tudo a serviço da manutenção do poder comunista iniciado com a revolução de 1917.
Vasili montou uma espécie de “arquivo paralelo”, com anotações de tudo o que via nos arquivos secretos. Em casa, ele datilografava suas anotações manuscritas com uma máquina de escrever portátil que apelidou de “Erika”, usando tinta caseira feita com suco de frutas concentrado.
“Sempre me senti sozinho. Não podia contar a ninguém sobre meu trabalho, nem mesmo em casa. Principalmente em casa”, contou o russo, nascido em 1922 numa zona rural. Nem mesmo a esposa, Nina, sabia o que ele fazia.
Durante 12 anos, Vasili acumulou seu arquivo secreto, sem nunca ter certeza do que faria com ele.
A oportunidade
Até que em 1991 a União Soviética entrou em colpaso. Vasili teve uma ideia. Em março de 1992, o russo entrou na embaixada britânica em Vilnius (Lituânia) com uma mochila surrada. Dentro delas, alguns dos segredos soviéticos que ele guardava a peso de ouro. Uma jovem diplomata leu os arquivos de Vasili, enquanto os dois tomavam chá.
O que emergiu daquele encontro se tornaria a mais abrangente descoberta de informações da Guerra Fria. As anotações de Mitrokhin identificaram centenas de agentes e operações da KGB ao longo de décadas: da rede de espionagem de Cambridge à espionagem atômica, passando por agentes ilegais infiltrados que ainda operavam nos EUA.
Vasili Mitrokhin no exílio em Londres
Reprodução
“A CIA descreveu o arquivo como ‘a maior mina de ouro de contraespionagem do período pós-guerra'”, destacou Corera.
Vasili exigiu que a esposa, a sogra e o filho cadeirante fossem com ele. Foi uma operação complexa. Após uma angustiante viagem de barco de 33 horas através de uma tempestade no Mar Báltico, a família Mitrokhin chegou à Grã-Bretanha.
Vladimir acabou aceitando a escolha do pai. Nina morreu de esclerose lateral amiotrófica (ELA) em 1999, justamente quando o arquivo de Vasili foi finalmente publicado.
Vasili morreu em 2004. Sua história fantástica de “traição” e fuga com segrefdos inconfessáveis fez o regime de Vladimir Putin, ex-agente da KGB, o controle sobre arquivistas.



Com informações da fonte
https://extra.globo.com/blogs/page-not-found/post/2026/01/como-um-espiao-da-kgb-desertou-com-os-mais-importantes-segredos-sovieticos-contra-a-vontade-do-filho-traidor.ghtml

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