Os dois debates que colocaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) frente a frente foram marcados por uma mudança na dinâmica dos confrontos: enquanto o primeiro foi dominado por ofensas e troca de acusações, o segundo foi mais propositivo. Uma análise do GLOBO nas falas dos dois candidatos aponta que, quando falaram de promessas e políticas públicas, termos referentes a questões que envolvem o bolso do eleitor foram predominantes. Enquanto o candidato do PL repetiu mais vezes palavras como dívida, juros e referências ao Bolsa Família, o petista apostou na valorização do salário mínimo e das aposentadorias.
Juntos, os dois candidatos proferiram quase 30 mil palavras em cerca de três horas nos debates da Band, realizado no domingo, e da TV Globo, na sexta-feira. A análise usou técnicas de processamento de linguagem natural para medir quais termos cada candidato usou proporcionalmente mais que o outro e os temas que ocuparam suas falas. A iniciativa faz parte do projeto “Com a Palavra”, que usa ferramentas de inteligência artificial para processar e interpretar manifestações de autoridades.
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Pelo lado de Flávio, a dívida das famílias foi o tema econômico mais explorado em ambos os debates. Além das 39 menções à palavra, ele falou em “taxa de juros” 17 vezes e citou a Caixa Econômica Federal, também chamada pelo candidato de “Banco da Prosperidade”, cinco vezes ao prometer crédito barato e renegociação de dívidas.
— O seu poder de compra foi destruído pelo atual governo porque ele gasta tanto, ele joga a taxa de juros lá em cima e puxa a sua dívida junto. Lula, por que que você endividou o povo brasileiro desse jeito? — questionou Flávio no debate da Globo.
Também no mesmo debate, Flávio prometeu que iria ajudar o eleitor a pagar as dívidas, porque iria “comprar a sua dívida dos bancos” e “refinanciar pelo Banco da Prosperidade, que é a Caixa Econômica Federal”.
Lula, por sua vez, também repetiu o termo “dívida”, citado 25 vezes e em contexto de defesa do programa Desenrola, de renegociação de débitos no seu governo. Já a discussão sobre juros, para o presidente, foi menor: o petista citou a palavra apenas quatro vezes.
— Nós, desde o primeiro mês de mandato, nós criamos o primeiro Desenrola para resolver o problema da dívida. Depois criamos um segundo e agora estamos criando o terceiro — afirmou Lula na Globo.
Além disso, o programa Bolsa Família, uma das marcas do governo petista, foi mais citado por Flávio do que por Lula, 17 vezes contra cinco. A postura pode ser explicada pela acusação recente da campanha petista de que o candidato do PL poderia acabar com o programa ou impor novas regras que limitem os benefícios, o que foi negado pelo adversário. No debate da Globo, Lula questionou o candidato do PL sobre uma publicação antiga nas suas redes sociais em que chamava o programa de “Bolsa Farelo”.
— Por que que você chamou o Bolsa Família de Bolsa Farelo? — disse Lula.
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Já Lula, ao abordar o tema econômico, explorou a valorização salarial e o aumento do emprego. O termo “salário mínimo”, por exemplo, foi citado 18 vezes pelo presidente, quase sempre associado à política de reajuste acima da inflação, em contraste com a política adotada durante o governo Jair Bolsonaro. Flávio, por sua vez, citou “salário mínimo” quatro vezes.
— Se não fosse o governo do PT aumentar o salário mínimo acima da inflação, colocando o PIB no orçamento, o salário mínimo teria apenas R$ 900 — afirmou Lula, que cobrou depois do adversário um compromisso com os aposentados: — Eu perguntei se você vai aumentar o salário dos aposentados acima da inflação. É isso que você tem que dizer: vai ou não vai?
Na soma dos dois debates, Lula também falou proporcionalmente três vezes mais de educação do que o adversário, com menções a universidades (13 vezes) e ao Programa Pé-de-Meia, que prevê incentivos financeiros a estudantes para evitar a evasão escolar. O presidente também dedicou quase o dobro do espaço à saúde. No debate da TV Globo, o presidente questionou Flávio sobre uma declaração de Cláudio Lottenberg, apontado como ministro da Saúde em um eventual governo do PL.
— Ele se incomoda com pobre na universidade, com pobre no Instituto Federal, com a pessoa ganhando mais que salário mínimo, com filha de pedreiro virando, sabe, engenheira, virando médica. Isso incomoda — disse Lula sobre o adversário.
Flávio, por outro lado, adotou um discurso mais duro no campo da segurança pública. Lula, apesar de ter defendido recentemente a mudança na regra da maioridade penal, viu seu adversário citar repetidamente o tema, sete vezes. O candidato do PL também prometeu tornar mais dura a pena para “ladrão de celulares”, expressão repetida cinco vezes por ele.
— Eu vou mudar a Constituição, é sim, para proteger você, é para colocar a castração química de estuprador, é para reduzir maioridade penal — afirmou Flávio na Band.
No debate da TV Globo, novamente repetiu o discurso linha dura na segurança pública:
— O ladrão de celular vai começar com no mínimo 8 anos de cadeia e vai ter que trabalhar no presídio, disse Flávio que, em outro momento, resumiu seu discurso: — Quem tem que andar com medo na rua são os marginais — disse o senador.
No campo da segurança pública, os dois gastaram um tempo equivalente. Mas enquanto Flávio usou termos como “marginal” (19 vezes), “medo” e “saidinha”, Lula optou por se referir ao tema abordando “crime organizado” e “Polícia Federal”.
Mas, além da questão da segurança pública, as referências ao órgão policial estiveram entre as expressões mais citadas pelos dois candidatos nos dois debates por outro motivo. Foram 22 vezes, 13 por Lula e nove por Flávio. As referências ocorreram durante os diversos ataques entre os dois candidatos envolvendo investigações, como a que envolve o candidato do PL e o advogado Willer Tomaz, seu amigo, e a que mira o empresário Fábio Luis Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente.
— Você fala que você, né, todo mundo tem que ser investigado, mas a Polícia Federal até agora não foi atrás do seu filho. Por que que ele tá fugido lá na Espanha? — atacou Flávio na Band.
— Se tiver investigação, se tiver problema, será investigado, seja meu filho, seja meu irmão, qualquer um. Eu não escondo nem mudo o diretor da Polícia Federal — respondeu Lula.
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Na Globo, foi a vez de o petista mirar a relação do adversário com o advogado Willer Tomaz, acusado de ligação com o escândalo do INSS:
— O Willer não é apenas amigo, pelo que parece ele é seu sócio — disse Lula.
— O Willer é um amigo, não é meu sócio — rebateu Flávio.
Em comum nos dois debates para Lula esteve a acusação de mentiras contra Flávio. Em ambos os debates, ele afirmou que o candidato do PL não respondia às perguntas que fazia e que, quando o fazia, estava mentindo. No debate da Band, frases sobre mentira e fake news ocuparam 5,7% das falas de Lula e 3,1% das falas dele no debate da Globo. Em ambos os casos, os percentuais ficaram próximos do dobro da proporção do mesmo tema nas falas de Flávio.
— Mentira, mentira e mentira é a única coisa que esse rapaz sabe fazer — disse Lula na Globo.
Lula também manteve uma referência ao Google durante os dois debates, indicando para os espectadores que pesquisassem as falas do adversário no Google. O presidente citou a plataforma 13 vezes nos dois debates, nove delas no da Globo. A repetição levou a uma provocação de Flávio Bolsonaro, que questionou Lula:
— Lula, quem é que governa o Brasil? É você ou é o Google? Tudo pergunta pro Google? Você não sabe responder nada? — afirmou Flávio.
A forma como cada candidato tratou o outro também foi diferente: Flávio pronunciou o nome do adversário 113 vezes, enquanto Lula disse Flávio apenas 13 vezes, e se referiu ao rival principalmente como “meu adversário”, expressão repetida 18 vezes. Lula também repetiu frequentemente a referência a “governo do pai” para conectar Flávio à gestão de Jair Bolsonaro e questionar as promessas feitas pelo candidato e não realizadas no mandato de Jair.
— Porque esse negócio de político, sabe, ficar beijinho, beijinho, né, nas eleições e tchau, tchau depois, o povo tá cansado — afirmou Lula.
Os dados demonstram ainda que Flávio falou mais e mais depressa do que Lula. Nos dois debates, o candidato falou 16.944 palavras, 30% a mais do que Lula, que disse 12.989, num tempo de fala parecido para os dois candidatos. O ritmo médio do senador foi de 187 palavras por minuto. A de Lula ficou em 153.
