Em vídeo publicado nas redes sociais, homem que se apresenta como “soldado Molina” diz que realidade do conflito é muito diferente da mostrada no TikTok e Instagram e alerta para mortes, dificuldades de adaptação e impacto psicológico
Um morador de Maricá que está em território ucraniano publicou um forte alerta direcionado a brasileiros que pensam em viajar para a Ucrânia atraídos por promessas de altos ganhos para atuar no conflito contra a Rússia. Em vídeo divulgado nas redes sociais, ele afirma que a realidade encontrada no país está distante da imagem apresentada em algumas publicações que circulam no TikTok e no Instagram.
Identificando-se no vídeo como “soldado Molina”, o brasileiro começa o relato destacando sua ligação com Maricá, no Rio de Janeiro, e direciona a mensagem principalmente às pessoas que estariam cogitando viajar para a zona de guerra por influência do conteúdo divulgado nas redes.
“Sou de Maricá, Rio de Janeiro. E vou dar um recado pro pessoal que tá querendo vir pra cá, pra Ucrânia, porque tá vendo vídeo no TikTok, no Instagram e tá achando legal e tá iludido com os valores que tão falando. Cara, tira isso da cabeça”, afirmou.
Segundo Molina, além dos riscos inerentes ao conflito armado, quem deixa o Brasil enfrenta dificuldades relacionadas à adaptação cultural, alimentação e convivência.
“Aqui é outra cultura. A comida daqui é péssima pra quem tá acostumado a comer bem na sua cidade, aí onde mora. Cara, isso aqui é horrível, de verdade. Sem contar o tratamento. Algumas pessoas vão te tratar bem, mas outras vão cagar e andar”, relatou.
O morador de Maricá também afirmou ter presenciado situações de racismo e ressaltou que brasileiros interessados em seguir o mesmo caminho precisam considerar principalmente o impacto psicológico de estar inserido em uma guerra real.
“Se você quer vir, prepara seu psicológico, porque o negócio é pesado”, disse.

“Você faz amizade e, quando menos espera, perde seus amigos”
Um dos trechos mais fortes do relato acontece quando Molina fala sobre a possibilidade constante de perder companheiros durante o conflito.
“Sem contar que você vem, faz amizade, quando você menos espera, você perde os seus amigos. Então já venha preparado psicologicamente, porque o negócio aqui é de verdade”, alertou.
Alerta do Itamaraty sobre brasileiros na guerra
A declaração chama atenção para um fenômeno que vem preocupando também o governo brasileiro: o crescimento da presença de brasileiros que viajam para participar da guerra na Ucrânia, muitos deles após terem contato com ofertas e conteúdos sobre recrutamento pelas redes sociais.
Em julho deste ano, dados do Ministério das Relações Exteriores divulgados pela imprensa apontavam 35 brasileiros com mortes confirmadas e 92 considerados desaparecidos no conflito. Os números correspondiam aos casos comunicados às autoridades brasileiras e podem não representar a totalidade de brasileiros mortos ou desaparecidos.
Reportagens recentes também mostram que a presença brasileira no conflito ganhou dimensão significativa. Estimativas citadas por pesquisadores e pessoas que prestam assistência a combatentes brasileiros apontam para cerca de 2 mil brasileiros atuando ou que já teriam atuado na Ucrânia, embora não exista um número oficial consolidado sobre o total.
Itamaraty recomenda que brasileiros recusem ofertas
O alerta feito pelo morador de Maricá vai ao encontro das orientações divulgadas pelo próprio Itamaraty.
O Ministério das Relações Exteriores recomenda fortemente que brasileiros recusem convites ou ofertas de trabalho e participação em forças armadas estrangeiras. Segundo o órgão, além do risco de morte, existem casos de brasileiros que enfrentam dificuldades para abandonar as unidades militares depois de assinarem contratos.
O Itamaraty também ressalta que a assistência consular pode ficar severamente limitada devido às condições de segurança e aos compromissos assumidos pelo próprio brasileiro no momento do alistamento. A pasta alerta ainda que não existe obrigação de o governo brasileiro custear passagens ou o retorno ao país de quem decide participar de conflitos no exterior.
A recomendação oficial continua sendo para que cidadãos brasileiros evitem viagens à Ucrânia enquanto durar a guerra, especialmente para áreas próximas às frentes de combate, devido aos frequentes ataques registrados no território ucraniano.
Um caso recente mostra a dimensão do risco. No início de agosto, um morador de Volta Redonda, também no Rio de Janeiro, foi oficialmente declarado desaparecido em combate após viajar para a Ucrânia em abril. Segundo o Itamaraty, a informação sobre o desaparecimento foi comunicada às autoridades brasileiras pelo governo ucraniano.
Guerra na Ucrânia: realidade x redes sociais
Guerra está longe da realidade mostrada nas redes
O relato de Molina chama atenção justamente por partir de alguém que está vivendo a situação em território ucraniano e contrapor vídeos que apresentam a experiência militar como uma oportunidade de ganhar dinheiro ou viver uma aventura no exterior.
Embora combatentes estrangeiros possam receber remuneração ao integrarem formalmente unidades das forças ucranianas, a utilização indiscriminada do termo “mercenário” exige cautela: a classificação jurídica de um combatente como mercenário depende de critérios específicos do direito internacional. Por isso, brasileiros que integram formalmente forças armadas ucranianas também são frequentemente descritos como voluntários ou combatentes estrangeiros.
Independentemente da classificação, o próprio governo brasileiro vem reforçando que viajar para integrar uma força estrangeira em uma guerra envolve risco extremo.
E, na mensagem publicada diretamente da Ucrânia, o morador de Maricá resumiu a advertência aos brasileiros que ainda enxergam o conflito principalmente pelos vídeos das redes sociais:
“O negócio aqui é de verdade.”
