A Argentina conseguiu reduzir a inflação e melhorar as contas públicas durante o governo de Javier Milei, mas enfrenta aumento da inadimplência, fechamento de empresas, perda de empregos formais e dificuldades na recuperação do poder de compra da população.
Segundo reportagem do UOL, quase 6 milhões de argentinos estão inadimplentes, o equivalente a 13,6% da população. O número é recorde e já provocou manifestações de sindicatos e movimentos de devedores.
Inflação recua e contas públicas melhoram
Milei assumiu a Presidência com um programa baseado em corte de gastos e subsídios, menor emissão monetária e abertura da economia. A inflação, que superava 25% ao mês no início do governo, desacelerou significativamente. Em agosto deste ano, o índice oficial ficou em 1,7%.
As contas públicas também reagiram. No primeiro ano da gestão Milei, a Argentina registrou superávit fiscal primário equivalente a 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB), depois de um déficit de 2,9% no último ano do governo Alberto Fernández.
O ajuste incluiu forte redução de obras públicas, transferências às províncias e subsídios. Depois de recuar no início do governo, a economia voltou a crescer, puxada principalmente por setores exportadores.
Empresas fecham e desemprego aumenta
Os resultados, porém, são diferentes entre os setores da economia. Enquanto petróleo, gás e mineração avançaram, segmentos da indústria e do comércio voltados ao mercado interno enfrentam dificuldades.
Mais de 30 mil empresas fecharam desde a chegada de Milei ao poder, segundo levantamento do centro de pesquisas Fundar citado pelo UOL. O governo argentino contesta os números.
O mercado de trabalho também sente os efeitos. A taxa de desemprego, que era de 5,7% no último trimestre de 2023, chegou a 7,9% no segundo trimestre deste ano, segundo o INDEC.
Além disso, 241 mil postos formais no setor privado foram perdidos entre novembro de 2023 e maio de 2026. A indústria respondeu por mais de um terço dessa redução.
Famílias enfrentam perda de renda e dívidas
O corte de subsídios também elevou o peso das despesas básicas. Entre dezembro de 2023 e julho deste ano, um indicador que acompanha tarifas de eletricidade, gás, água e transporte acumulou alta de 966%, enquanto a inflação no período ficou em 241%.
Ao mesmo tempo, o salário mínimo perdeu 39,3% do poder real de compra entre novembro de 2023 e abril de 2026, segundo dados da Universidade de Buenos Aires citados pelo UOL.
A perda de renda ocorreu paralelamente à expansão do crédito. Com isso, cresceu o número de famílias que recorrem a empréstimos para despesas do dia a dia.
O problema é maior fora do sistema bancário tradicional. Segundo a economista Mariana González, do Centro de Pesquisa e Formação da República Argentina (CIFRA), os financiamentos individuais em plataformas virtuais cresceram 16%, com taxas que podem chegar a 700% ao ano.
O avanço da inadimplência levou milhares de argentinos às ruas em agosto para cobrar medidas de alívio e renegociação das dívidas. Milei, por sua vez, tem defendido que o endividamento é uma questão entre particulares e que não cabe ao Estado intervir.
