Uma ligação feita pelo agente da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), João Pedro Marquini, a um amigo e sócio foi decisiva para que a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) chegasse aos autores do assassinato do policial. O amigo, que também é policial militar, ouviu a conversa dos criminosos pelo celular de Marquini, que estava no viva-voz.
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Em depoimento, relatou ter reconhecido vozes que diziam: “toca pro César Maia”, “ele é polícia!”, “vai dar merda” e “achei a arma dele”. “César Maia” é o nome de uma comunidade em Vargem Pequena, próxima ao local do crime.
Marquini foi atingido por cinco disparos — dois deles no peito — por volta das 20h40 do dia 31 de março. Ele voltava da casa da mãe, em Campo Grande, acompanhado da esposa, a juíza do 3º Tribunal do Júri, Tula Mello. Cada um seguia em seu próprio carro: o agente em um Sandero, à frente, e a magistrada em um Mitsubishi Outlander blindado. Ao perceber um veículo atravessado em um trecho da Serra da Grota Funda, na Zona Oeste, Marquini se distanciou da esposa. Na sequência, acabou abordado pelos criminosos.
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Pouco antes, no entanto, havia ligado para o sócio. Mesmo sem ouvir uma palavra de Marquini, o amigo percebeu que ele estava em perigo e passou a prestar atenção nos diálogos captados pelo viva-voz. Ainda escutou frases como “ele tá vivo” e “vamos embora”, além da movimentação dos bandidos revistando o carro e levando a arma e o celular do policial. O corpo da vítima ficou caído no asfalto.
Quando já deixavam o local, um dos criminosos notou que o aparelho ainda estava em ligação e questionou: “e esse telefone ligado?”. Outra voz, possivelmente a do chefe do grupo, respondeu: “joga o telefone fora”. Um comparsa chegou a ponderar: “não, não, é iPhone!”. Depois disso, o celular silenciou.
Naquele momento, o sócio de Marquini vinha de uma festa com a família, também pela Zona Oeste. Pediu então à esposa que ligasse para a magistrada a fim de verificar a localização do casal. Ao encontrá-la em um posto de gasolina próximo à cena do crime, ainda em estado de choque, perguntou de imediato: “cadê o João?”. A resposta veio de um motociclista que parou no local para avisar que havia um homem caído na via pública e que um Tiggo havia sido roubado. O amigo do policial já havia acionado o 31º BPM (Barra da Tijuca) para comunicar a ocorrência.
A juíza só escapou porque, além de Marquini ter distraído os criminosos, seu carro era blindado. Diante da abordagem, ela engatou a marcha à ré e, aplicando uma manobra defensiva aprendida com a equipe de segurança do Tribunal de Justiça, fez um giro de 180 graus e conseguiu sair sob disparos.
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Mais tarde, com o apoio da perícia da DHC, o amigo localizou o celular da vítima em uma área de mata a cerca de um quilômetro do local do ataque, por meio do sistema de rastreamento em tempo real.
Com o depoimento imediato do amigo à DHC, os investigadores conseguiram localizar o carro usado pelos criminosos na favela César Maia, levantar suas digitais e efetuar a prisão de alguns deles dias depois. A comunidade é dominada pelo Comando Vermelho (CV), mesma facção que controla a Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, de onde saíram os bandidos, que tinham ordens para tomar a favela de Antares, em Santa Cruz, na Zona Oeste, do grupo rival.
A invasão não deu certo e eles retornaram pela Serra da Grota Funda. Segundo as investigações da polícia, como queriam trocar de carro, decidiram roubar veículos no caminho e executaram o agente Marquini.
2025-08-29 04:30:00