Na década de 2000, quando filmes como “Tropa de Elite” e “Cidade de Deus” colocavam a favela no mapa com tramas sobre crime organizado e violência, Luciano Vidigal e uma nova geração de artistas oriundos da periferia davam seus primeiros passos na produção de filmes. Eles buscavam retratar esses espaços por outra lente, ampliando seus temas: mais poesia, mais histórias de amor, mais protagonismo negro e mais regiões do Brasil para além de Rio-São Paulo.
Organizado por Luciano e a jornalista Isabella Rosado Nunes, o livro “Cinema de Favela” reflete sobre o amadurecimento desse processo ao longo das duas últimas décadas. A obra reúne ensaios, memórias e reflexões de cineastas, escritores e pesquisadores, documentando essa transformação histórica marcada pela democratização tecnológica e o protagonismo periférico.
Edição não-comercial, a obra será distribuída gratuitamente para bibliotecas e escolas de cinema, com lançamento nesta terça-feira (22), às 19h, no Cine Odeon, dentro da programação do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul.
— O Vidigal (zona sul do Rio), de onde eu venho, tem aproximadamente 40 mil habitantes. Desses, 39,9 mil são trabalhadores, e o tráfico é minoria. Então imagina o tanto de história que você encontra sobre esse povo que ri, chora, se emociona e se apaixona. A gente tem comédia, tem romance, surrealismo, terror, e isso tem que estar nas telas também, além do tráfico — diz Luciano, diretor do longa “Kasa Branca”, comédia sobre um adolescente negro da Chatuba, favela da Baixada Fluminense, que esteve na pré-lista para indicar o representante brasileiro ao Oscar 2026 na categoria de Melhor Filme Internacional.
Morto em 2025, o cineasta Cacá Diegues assina in memoriam o prefácio de “Cinema de Favela”, que funciona como uma ponte e uma benção à nova geração de realizadores. Nos anos 1960, ele dirigiu um dos episódios de “5 x Favela”, um dos primeiros retratos cinematográficos do morro. Embora pioneira, a produção trazia um olhar de fora, ou seja, de autores que não viviam nesse território. Cinquenta anos depois, o mesmo Cacá idealizou “5x Favela – Agora por nós mesmos”, reunindo dessa vez jovens cineastas locais. Luciano era um deles.
— Quando lancei meu primeiro curta, “Neguinho e Kika” (2005), Cacá me disse: “Surge um novo olhar sobre o cinema brasileiro” — lembra Luciano. —Acho que o comentário simboliza muito essa minha geração, que começava a retratar a sua própria experiência na favela. Parecia que ele estava passando um bastão para a gente. Cacá sempre acreditou na nossa potência.
Luciano deixa claro que não é contra olhares de fora da favela. Ele mesmo trabalhou na preparação de elenco de “Cidade de Deus” em 2002 (e, mais tarde, dirigiu com Cavi Borges o documentário “Cidade de Deus – 10 anos depois”, que revela os impactos do sucesso do longa na vida dos seus atores). Em seu artigo no livro (“Daqui de cima”), o diretor defende uma diversidade de retratos, assim como o respeito pelo território e por seus moradores.
Esse respeito passa por uma estética atualizada, que supera estereótipos e clichês. No início dos anos 2000, por exemplo, a favela era retratada com câmera na mão e planos tremidos, para ressaltar a ideia de insegurança. Escolhas de fotografia, segundo Luciano, davam à pele preta “um tom muito cinza”. Já nas produções mais recentes predominariam as cores vivas, o lirismo, as sonoridades e as vivências reais dos trabalhadores.
— Quando fui fazer correção de cor de Kasa Branca, a referência foi o ouro, para tirar o cinza e dar mais luz, mais brilho e mais cor —diz o cineasta.
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A coletânea traz ainda reflexões de realizadores de diversas regiões do país. Em seu texto, o diretor pernambucano Daniel Bandeira revisita sua formação cultural no subúrbio do Recife (Olinda/Jardim Brasil II), marcada por locadoras de bairro, pelo cinema de gênero e pelo impacto libertador do movimento Manguebeat e do filme “Baile Perfumado”.
Já o cineasta mineiro Gabriel Martins (da produtora Filmes de Plástico, diretor de “Marte Um”) relembra sua vivência periférica entre Contagem e Belo Horizonte, moldada por suas viagens de ônibus, pela música popular e pelo próprio cinema brasileiro.
Para além dos grandes centros urbanos do Sudeste, a cineasta amapaense Rayane Penha traz a perspectiva do Norte e das margens dos rios amazônicos, reafirmando o cinema navegante da Amazônia.
A organizadora Isabella Rosado Nunes destaca que a obra não nasce como um manifesto ou uma promessa futura, mas sim como o registro de um produção já consolidada.
— O livro surge a partir de artistas que vêm criando, produzindo e acumulando trajetórias com filmes premiados — diz a jornalista e editora, que assina o posfácio do livro. — Nossa proposta é olhar e reconhecer essa produção, inclusive as dificuldades que esses criadores ainda têm por conta de hierarquias geográficas e sociais. Quando chamamos uma artista como Rayane Penha é também para dar voz a alguém que representa um Estado (Amapá) que está longe das grandes discussões, das mesas, dos festivais.
