Ácido do estômago: quando falta e quando sobra – sintomas, riscos e tratamento

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Entenda causas, sinais, exames e cuidados para falta ou excesso de ácido no estômago, com impactos na digestão, na absorção de nutrientes e na saúde intestinal.


Ácido do estômago: quando falta e quando sobra – sintomas, riscos e tratamento

O ácido produzido pelo estômago, chamado ácido clorídrico, é fundamental para digerir alimentos, absorver vitaminas e minerais e proteger contra micróbios que chegam com a comida. Quando essa produção não está equilibrada, podem surgir dois extremos: a hipocloridria, que é a produção insuficiente de ácido, e a hiperacidez ou hipercloridria, que é o excesso de ácido. Nos últimos anos, o tema ganhou destaque pelo uso muito frequente de remédios que reduzem o ácido do estômago (como omeprazol), pelo envelhecimento da população e pelas descobertas de que a acidez alterada influencia a flora intestinal e a absorção de nutrientes. Este artigo apresenta de forma clara o que são essas condições, suas causas, sintomas, métodos de diagnóstico e tratamentos, com base em estudos científicos atuais.

Por que o tema está em evidência

Os inibidores da bomba de prótons (IBPs) – medicamentos como omeprazol, esomeprazol e pantoprazol – revolucionaram o tratamento da azia, do refluxo e das úlceras. São muito eficazes, mas muitas vezes usados por mais tempo do que o necessário. Estudos mostram que o uso prolongado pode levar a deficiência de vitamina B12, ferro e cálcio, além de aumentar o risco de infecções intestinais (Targownik et al., 2022; Lam et al., 2013).

Além disso, com o envelhecimento, cresce a ocorrência de gastrite atrófica (inflamação crônica que destrói as células produtoras de ácido) e de gastrite autoimune (quando o sistema imunológico ataca o próprio estômago). Ambas reduzem a acidez e chamam a atenção por estarem associadas a deficiências nutricionais e maior risco de câncer gástrico (Shah et al., 2021).

Como o estômago produz ácido

O estômago produz ácido clorídrico (HCl) em células chamadas células parietais, localizadas na parede do órgão. Esse ácido diminui o pH – tornando o ambiente mais ácido – e cumpre várias funções: ativa a pepsina, enzima que digere proteínas; ajuda a absorver ferro e cálcio; e elimina bactérias e vírus que entram com os alimentos (Engevik et al., 2020).

  • Nervo vago, que envia estímulos do cérebro para o estômago;
  • Gastrina, hormônio produzido no estômago que estimula a produção de ácido;
  • Histamina, substância liberada por células especiais que potencializa a ação da gastrina.

Graças a esse equilíbrio, o pH do estômago em condições normais fica em torno de 1 a 2, um ambiente extremamente ácido (Schubert, 2008).

Hipocloridria: quando há pouco ácido

Na hipocloridria, a produção de ácido é insuficiente e o pH do estômago fica mais alto (menos ácido). As principais causas incluem gastrite atrófica, infecção por Helicobacter pylori (bactéria associada a úlceras e câncer gástrico), uso prolongado de medicamentos que reduzem a acidez e envelhecimento (Malfertheiner et al., 2022).

Os sintomas mais comuns são digestão lenta, sensação de estufamento, excesso de gases, azia paradoxal (por refluxo de alimentos mal digeridos), diarreia ou prisão de ventre. Com o tempo, a baixa acidez pode causar anemia por deficiência de ferro, falta de vitamina B12, osteoporose e até alterações neurológicas, como formigamentos e perda de memória (Cavalcoli et al., 2017; Annibale et al., 2011).

Outro problema é que, sem ácido suficiente, o estômago perde parte da capacidade de eliminar microrganismos, o que facilita o desenvolvimento de supercrescimento bacteriano no intestino delgado (SIBO) e aumenta o risco de infecções intestinais (Su et al., 2018; Imhann et al., 2016).

Hiperacidez: quando há ácido demais

A hiperacidez é a situação oposta, com produção exagerada de ácido. Isso pode ocorrer em doenças comuns, como refluxo grave e úlcera péptica, e em condições raras, como a síndrome de Zollinger-Ellison, causada por um tumor (gastrinoma) que produz gastrina em excesso (Metz, 2017).

Os sintomas incluem queimação intensa, dor na “boca do estômago”, náuseas, vômitos e, em casos complicados, sangramentos ou perfurações. No Zollinger-Ellison, o excesso de ácido chega ao intestino, prejudicando a ação de enzimas digestivas e provocando diarreia crônica (Jensen, 2002).

Como diagnosticar

O diagnóstico pode ser feito de diferentes formas. Em casos específicos, mede-se diretamente a acidez do estômago por pHmetria de 24 horas ou por testes que avaliam a quantidade de ácido produzido em repouso e após estímulo.

Na hipocloridria por gastrite atrófica, exames de sangue medem o pepsinogênio I, a relação pepsinogênio I/II e a gastrina sérica. Alterações nesses marcadores sugerem destruição das células produtoras de ácido. A confirmação é feita por endoscopia com biópsias, que avalia o grau de atrofia da mucosa gástrica (Pimentel-Nunes et al., 2019; Banks et al., 2019).

Na hiperacidez por gastrinoma, a gastrina sérica em jejum está alta e o pH do estômago é muito baixo. Nesses casos, também pode ser feito o teste da secretina, que ajuda a confirmar o diagnóstico, além de exames de imagem para localizar o tumor (Berna et al., 2006).

Tratamento

O tratamento depende do tipo de alteração.

Na hipocloridria, é fundamental tratar a causa: erradicar H. pylori, suspender medicamentos desnecessários que reduzem o ácido e acompanhar casos de gastrite autoimune. Frequentemente é preciso repor ferro, vitamina B12 e cálcio.

Na hiperacidez, a base do tratamento são os IBPs e os bloqueadores H2, que reduzem a produção de ácido e permitem cicatrização da mucosa. Nos casos de Zollinger-Ellison, muitas vezes são necessárias doses altas desses medicamentos, além de cirurgia para retirada do tumor quando possível. Também se recomendam mudanças no estilo de vida: evitar refeições grandes à noite, reduzir alimentos que irritam o estômago, parar de fumar e controlar o estresse (Katz et al., 2022).

Conclusão

Hipocloridria e hiperacidez representam extremos opostos da produção de ácido pelo estômago. Embora pareçam opostas, ambas têm consequências sérias: a hipocloridria compromete a digestão e a absorção de nutrientes, aumentando o risco de anemia, osteoporose e infecções; a hiperacidez causa sintomas intensos e lesões na mucosa, podendo levar a complicações graves, como úlceras e sangramentos. O reconhecimento precoce, os exames adequados e o tratamento individualizado são fundamentais para reduzir riscos e melhorar a qualidade de vida.

Dr. Antonio Couceiro Lopes – CRM/SP 100.656 | RQE 26013

Cirurgião do Aparelho Digestivo

Membro da Brazil Health





Com informações da fonte
https://jovempan.com.br/saude/acido-do-estomago-quando-falta-e-quando-sobra-sintomas-riscos-e-tratamento.html

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