A vida não é um “BBB”, com botão de desistência no meio da sala para apertar, se livrar das aporrinhações e voltar à zona de conforto. A gente precisa seguir acreditando que as coisas têm conserto. Como prosseguir diante de tragédias sem explicação e atrocidades que se repetem? Chuvas que todos os anos afogam vidas e histórias de cidades inteiras. Homens que se juntam para estuprar uma adolescente. E tantos outros horrores.
Talvez seja para desanuviar dessas barbáries que existam reality shows, novelas, futebol. E, sinceramente, acho até saudável ser adepta do folhetim. Porque imagina ver seu time ganhar de 8 a 0, depois de conquistar os principais campeonatos dos últimos anos, e acordar no dia seguinte com a notícia da demissão do técnico responsável por tudo isso? Nem sempre se trata de competência; muitas vezes, é influência.
Nos capítulos recentes de “Três Graças”, os atores Juliano Cazarré e Xamã, e a atriz Alana Cabral me fizeram chorar com a morte de Jorginho Ninja. O ex-chefe do tráfico, convertido, tentava recuperar o tempo perdido com a filha adolescente. Parte do público torcia por sua redenção; outra parte rejeitava a ideia de que alguém com um passado tão violento pudesse mudar, ainda que salvo pela igreja.
Ora, ora… A gente sabe que há quem use a fé para manipular pessoas fragilizadas. Mas generalizar também é injusto. Em muitos lugares do Brasil, é a igreja que permanece, quando o poder público não chega, como espaço de acolhimento possível.
Jorginho Ninja foi convincente na tentativa de se tornar um homem de fé e um pai presente, ainda que tardiamente. E nós, do outro lado da tela, mergulhamos nessa esperança. Eu já o imaginava convivendo com a neta, reconstruindo laços, amparado pelo correto pastor Albérico.
Talvez seja isso: precisamos voltar a desejar que as pessoas deem certo. Sem ter fé nisso, o que nos resta? Se desistirmos da possibilidade de mudança, jovens continuarão aprendendo que violência é afirmação de poder, famílias seguirão se eximindo do diálogo, escolas se tornarão cada vez mais negócio do que lugar de formação, igrejas estarão mais inclinadas ao julgamento do que ao abraço fraterno.
Que não fiquemos confortáveis na descrença. O otimismo, no fim, pode não ser ingenuidade. Pode ser resistência.
Gabriela Germano é editora-assistente e atua na área de cultura e entretenimento desde 2002. É pós-graduada em Jornalismo Cultural pela Uerj e graduada pela Unesp. Sugestões de temas e opiniões são bem-vindas. Instagram: @gabigermano E-mail: gabriela.germano@extra.inf.br
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https://extra.globo.com/entretenimento/conexoes/coluna/2026/03/a-vida-nao-e-o-bbb-nao-existe-botao-de-desistencia-quando-o-mundo-desaba.ghtml
A vida não é o ‘BBB’: não existe botão de desistência quando o mundo desaba

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