Nova turnê de Maria Bethânia terá música inédita de Rita Lee

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Quando escreveu sua derradeira letra, Rita Lee (1947-2023) pediu ao marido e parceiro musical Roberto de Carvalho para criar uma melodia e entregá-la a uma certa intérprete da MPB. A canção será uma das grandes surpresas da turnê Maria Bethânia — 60 Anos de Carreira, que estreia no sábado (6) no Rio, com as seis datas anunciadas já esgotadas.

“Lendo o que ela escreveu, eu entendo, porque o texto foge das brincadeiras lindas, deslumbrantes, deliciosas da Rita. É uma coisa mais aprofundada, um pensamento um pouco duro”, disse Bethânia à apresentadora Sarah Oliveira em bate-papo no Instagram da Live Nation.

A diva volta à estrada depois de passar cinco meses se apresentando ao lado do irmão Caetano Veloso. Os detalhes do novo show vêm sendo mantidos em segredo, mas a Abelha Rainha vai seguir o ritmo de seus espetáculos mais teatrais, entrelaçando canções com poemas e prosa. Ela recriará fragmentos de algumas apresentações históricas, como Rosa dos Ventos — O Show Encantado (1971) e A Cena Muda (1974), e terá, no repertório, obras de compositores já gravados por ela, a exemplo de Chico César, Xande de Pilares, Paulo César Pinheiro e Roque Ferreira. O figurino é assinado pela estilista Gilda Midani, ex-companheira da artista.

As seis décadas são contadas a partir da primeira participação no espetáculo Opinião, dirigido por Augusto Boal (1931-2009) — no qual entrou para substituir Nara Leão (1942-1989) —, em 13 de fevereiro de 1965, no Teatro de Arena, em Copacabana. A interpretação arrebatadora de Carcará, de João do Vale e José Cândido, projetou seu nome nacionalmente e fez com que, durante um breve período, Caetano Veloso, que a acompanhara na mudança para o Rio, ficasse conhecido como “o irmão da Maria Bethânia”.

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De lá para cá, a estrela — que em 18 de junho do ano que vem completa 80 anos — lançou quase sessenta álbuns, recheados por gravações consideradas definitivas e impulsionando compositores do quilate de Gonzaguinha (1945-1991), Djavan e Guilherme Arantes. Caetano criou mais de trinta músicas para ela gravar — como Baby e Reconvexo.

Apesar de também ser compositora, a artista não se dedicou muito a essa seara: de acordo com o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), ela possui apenas dezenove obras musicais cadastradas, enquanto solta a voz em 2 053 faixas. “Um dos meus maiores sonhos é que um dia a Bethânia grave uma música minha”, revela Pretinho da Serrinha, que tocou no espetáculo Claros Breus (2019-2020) e assina o arranjo de uma canção que estará no novo show.

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Altamente influenciada pelo teatro, Bethânia frisa que é intérprete, e não cantora. Além de Boal, ela trabalhou com diretores como Fauzi Arap (1938-2013), Bibi Ferreira (1922-2019) e Bia Lessa. A partir de Rosa Dos Ventos (1971), adotou um estilo que se tornaria sua marca registrada, combinando composições de diferentes estilos, literatura e dramatização. “Ela tem uma relação muito diferenciada com a palavra, que tem a ver, obviamente, com o teatro”, observa Bia, que dirigiu os shows da cantora entre 2004 e 2020, de Brasileirinho a Claros Breus, e acredita que a fama de difícil venha, talvez, de seu perfeccionismo.

A voz em detalhes: Bethânia gravou mais de 2 000 canções ao longo de seis décadas (./Veja Rio)

Zeca Pagodinho, que dividiu o palco com a estrela na turnê De Santo Amaro a Xerém — registrada em CD e DVD, de 2018 —, confirma a busca pela excelência. “Ela é muito profissional, ensaia bastante, repete”, lembra. Zeca, que já era admirador da colega quando foi convidado para integrar o projeto, tremeu na base. “Fiquei com muito medo. Porque p****, estou cantando com Maria Bethânia, né? E ela falou: ‘E eu estou cantando com Zeca Pagodinho’”, conta ele, que volta e meia liga para a amiga para matar a saudade.

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“Uma vez, ela me ligou querendo ir em um pagode. Era no início do Terrei­rão do Samba, e eu imaginei que não fôssemos demorar, porque ficava cheio. Engano meu: às 4 da manhã, ela nem pensava em ir para casa”, relembra Alcione, outra amiga de fé.

A personalidade forte foi um fator determinante na carreira da filha de dona Canô (1907-2012). “Bethânia nunca se curvou a ninguém. Eu admiro isso, porque o mercado é muito machista. Às vezes, você tem que ser difícil para conseguir se impor. Ela é difícil, mas tem uma discografia irretocável, o que não acontece com outras cantoras”, pontua o jornalista e crítico musical Mauro Ferreira, autor de Cantadas — Ensaios Sobre 35 Grandes Vozes de Mulheres da Música Brasileira (Garota FM Books).

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Ferreira ainda lembra que, por se recusar a seguir tendências impostas pelo mercado, nos anos 1980 a baiana precisou trocar de gravadora, e discos como Ciclo (1983) e A Beira e o Mar (1984) saíram sem muito alarde.

Bia Lessa reforça esse olhar, ao dizer que a artista não precisa de direção, mas de colaboração. “Ela sabe o que quer. O show, para ela, não é uma sequência de canções, ora tristes, ora alegres: é um discurso”, explica Bia, que costuma trocar poemas com a amiga por WhatsApp.

Mas é Pretinho da Serrinha quem define o fascínio provocado pela diva no público: “O brilho, a luz, a energia que ela tem no palco são uma coisa envolvente. É muita força”. Como cantou a própria: explode coração.

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