A Polícia Federal prendeu, nesta segunda-feira, a mulher e o filho de Marcinho VP, apontado como um dos principais chefes do Comando Vermelho (CV), preso há quase três décadas e atualmente custodiado no presídio federal de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul. A ação ocorreu durante a Operação Backbone, que investiga o monopólio imposto pela facção sobre o fornecimento de internet nos Complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão, no Rio. Segundo a PF, a cobrança pelo serviço chegou a representar mais de 40% da arrecadação do grupo no Complexo da Penha em um único mês.
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Não é a primeira vez que Márcia Gama dos Santos Nepomuceno e o filho Lucas Santos Nepomuceno, conhecido como Lucca, são alvos de operações policiais. Em abril, os dois foram alvo de uma investigação sobre lavagem de dinheiro do Comando Vermelho, ao lado do rapper Oruam, também filho de Marcinho VP.
Corte de cabos e ameaças
Batizada de Operação Backbone, a ação desta segunda cumpre 23 mandados de prisão preventiva e 24 de busca e apreensão, expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Os parentes de Marcinho VP estão entre as 19 pessoas já presas na operção. As diligências ocorrem no Rio, em Nova Iguaçu, São João de Meriti, Teresópolis, Maricá e Magé. Parte das prisões será realizada no sistema prisional, inclusive em uma unidade penitenciária federal.
A operação também prevê o bloqueio de bens e valores de até R$ 558 milhões, atingindo 40 pessoas físicas e 42 empresas. Foi determinada ainda a suspensão das atividades econômicas das pessoas jurídicas investigadas, entre elas provedores de internet, produtoras de eventos, uma empresa de contabilidade e empresas de fachada.
De acordo com a PF, integrantes da facção cortavam cabos e incendiavam caixas de distribuição de operadoras regulares e concorrentes, impediam reparos e obrigavam moradores e comerciantes a contratar a chamada “internet do tráfico”.
Os provedores autorizados pelo grupo pagavam mensalmente uma tarifa para ter o direito de operar nos territórios dominados pela facção. Registros contábeis do próprio grupo indicaram que, em um único mês, a cobrança pelo serviço de internet respondeu por mais de 40% de toda a arrecadação da organização criminosa no Complexo da Penha.
Para os investigadores, a exploração do serviço se tornou uma das principais fontes de lucro da facção e também alimenta a disputa por territórios. Cada comunidade dominada representa, segundo a PF, uma base de clientes cativos e uma nova fonte de receita para o grupo.
As investigações apontaram que um dos líderes históricos da facção, preso há quase três décadas e atualmente custodiado no Sistema Penitenciário Federal, continuava a controlar as atividades empresariais exploradas nos territórios, em conjunto com familiares e outras lideranças.
Segundo a PF, os lucros chegavam à família do líder por meio de empresas arrecadadoras, operadores financeiros e contas de passagem. Os recursos eram dissimulados em produtoras de eventos, empresas de publicidade, imóveis de alto padrão — pagos em dinheiro vivo — e criptoativos.
A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) será oficiada para cassar as outorgas e interditar os serviços de telecomunicações prestados pelas empresas investigadas. A PF informou que serão adotadas medidas para assegurar a continuidade do serviço aos moradores das áreas afetadas.
Os investigados poderão responder por domínio social estruturado, extorsão majorada, atentado contra a segurança de serviço de utilidade pública, interrupção de serviço telemático, desenvolvimento clandestino de telecomunicações e lavagem de dinheiro, entre outros crimes que possam ser identificados durante as apurações.
A operação integra a Força-Tarefa Missão Redentor II, coordenada pela Polícia Federal para combater organizações criminosas no estado do Rio, em conformidade com as diretrizes estabelecidas pelo STF na ADPF 635.
Em abril deste ano, Lucas teve a prisão preventiva decretada. Em agosto, porém, a 8ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio concedeu habeas corpus e determinou que ele respondesse ao processo em liberdade, sob medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica. Segundo a denúncia daquele caso, ele seria um gestor financeiro secundário do núcleo familiar, responsável por intermediar ordens da liderança e administrar recursos ligados à lavagem de dinheiro.
