Quase três dias após a morte de Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, a Polícia Civil ainda não obteve acesso às imagens das câmeras corporais dos policiais militares envolvidos na ocorrência. O jovem foi morto a tiros na madrugada de sábado (10), na Zona Sul de São Paulo. A corporação fala na hipótese de que Gustavo tenha provocado intencionalmente uma reação dos agentes, mas o excesso de disparos ainda será alvo de investigação.
Na cúpula da Polícia Militar, o caso vem sendo tratado como uma possível situação de “suicide by cop” (suicídio por policial, em tradução livre), expressão usada para descrever casos em que uma pessoa com intenção suicida provoca uma reação policial que resulte em sua morte.
Segundo a PM, Gustavo tinha histórico de depressão e possíveis tentativas anteriores de suicídio. Mesmo que essa hipótese seja confirmada, a investigação ainda terá de esclarecer os 45 disparos feitos pelos policiais e a dinâmica da ocorrência.
De acordo com a descrição de um oficial da PM sobre as imagens, Gustavo saiu repentinamente de uma área escura, avançou dois ou três passos em direção à rua e “sacou” um celular da cintura. Em seguida, segurou o aparelho com as duas mãos e o apontou para os policiais, que teriam interpretado o gesto como uma ameaça armada. Quatro agentes dispararam em sequência durante cerca de dois a três segundos.
As gravações estão disponíveis em uma plataforma interna da PM, à qual os delegados responsáveis por investigações podem ter acesso mediante solicitação. Para consultar o material, no entanto, o Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) precisa enviar um ofício à corporação. A Polícia Civil informou que ainda não havia conseguido acessar as imagens, mesmo tendo enviado o ofício no dia do incidente.
De acordo com o boletim de ocorrência, o Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) foi acionado por volta das 2h35 para atender a uma ocorrência envolvendo um homem transtornado que ameaçava atirar contra si mesmo. Os policiais relataram que encontraram Gustavo com a mão na cintura, em “postura ameaçadora”, e que ele fugiu. Depois, quatro viaturas de reforço chegaram ao local.
Ainda segundo a versão registrada pelos agentes, Gustavo saiu de uma área escura em direção aos policiais com os braços estendidos, apontando um objeto. Os PMs atiraram, e o jovem morreu no local. Um celular da Samsung foi encontrado junto aos pés do corpo.
Quatro policiais dispararam suas pistolas calibre .40: um deles fez 14 disparos, outro 13, um terceiro 12 e o último seis, totalizando 45 tiros. A perícia recolheu 44 estojos em quatro pontos da via, além de 13 fragmentos de projétil e quatro fragmentos de camisas de projéteis.
O registro policial descreveu pelo menos 27 lesões no corpo de Gustavo. O número é preliminar e deverá ser confirmado pelo Instituto Médico-Legal (IML). A pesquisa da Polícia Civil também apontou que o jovem não tinha antecedentes criminais.
A Polícia Civil instaurou um inquérito para investigar a morte, e a PM abriu um inquérito policial militar para apurar a conduta dos agentes.
