É esse o Brasil que queremos?

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A rebelião dos omissos

Por Fernando Fernandes*

Em 29 de maio deste ano, Lula meteu a tesoura na educação. Um decreto bloqueou R$ 1,6 bilhão do MEC, os repasses semanais às universidades federais foram suspensos e os reitores passaram a fazer conta para decidir se pagavam a luz ou a vigilância. E o movimento estudantil? Estava ocupadíssimo em não ver nada.

Não houve passeata nem carro de som, e a UNE, que em junho de 2022 levou estudantes às ruas de mais de 50 cidades contra os contingenciamentos do governo Bolsonaro, desta vez achou o valor suportável. O descanso do militante durou quatro anos, até que, na quarta-feira (7), milhares de estudantes redescobriram o centro do Rio em defesa da reeleição de Lula. Da Candelária à Cinelândia, as velhas palavras de ordem voltaram a ocupar o asfalto com fascistas, machistas e o que mais coubesse na indignação seletiva. E, então, de seu berço esplêndido, o tal movimento estudantil anunciou novas mobilizações até o segundo turno. Curiosamente, foi preciso chegar às eleições para que a militância pudesse levantar da cama e recuperar a urgência urgentíssima de salvar o Brasil contra o bicho-papão.

Você, leitor, pode ter a convicção política que bem entender. Mas também precisa questionar por que a defesa das universidades, quando confrontada com decisões do próprio governo, parece disputar espaço com a disciplina partidária. Hoje, a convocação vem em nome da democracia, palavra suficientemente respeitável para reunir qualquer cidadão, embora, neste momento político, só sirva como senha para separar amigos de inimigos. Quem discorda recebe o carimbo de fascista, como se a legitimidade democrática dependesse de concordar com quem conduz a passeata. Basta o partido apitar para que os estudantes saiam às ruas contra o adversário, passando de rebeldes sem causa a cabos eleitorais com direito a meia-entrada.

Ortega y Gasset chamou de rebelião das massas a ascensão do homem satisfeito consigo mesmo, convencido de que suas opiniões bastam, disposto a impô-las aos demais enquanto ignora as exigências da civilização que acaba por desfrutar. A política oferece um palco generoso a essa disposição, especialmente quando a rivalidade assume os hábitos de uma competição juvenil e a indignação pública se transforma em certificado de virtude. Numa assembleia de DCE, cobrar do próprio governo exige a inconveniência de contrariar os aliados, enquanto marchar pela reeleição oferece aplausos e a satisfação de defender o “bem” contra o “mal”. O nós contra eles nas mesmas roupas esfarrapadas de sempre. É a rebelião dos omissos, que aprenderam a modular o volume de seus protestos conforme a identidade de quem ocupa o poder.

Neste domingo (11 de outubro), a Marcha pela Democracia, que a própria UNE ajudou a organizar na Avenida Paulista, teve um final distópico. Horas depois de Lula discursar em “defesa da democracia” num carro de som em frente ao Masp, a Polícia Militar relatou tumultos, pichações e depredação. As imagens de pessoas sobre as estruturas de acesso do metrô circularam enquanto o país ainda discute o significado da palavra “golpismo”. Desde o 8 de janeiro, a violência política ocupa o centro do debate nacional, com condenações severas como a de Débora do Batom, sentenciada a 14 anos por cinco crimes relacionados àqueles acontecimentos. Quando a depredação ocorre numa manifestação de aliados do governo, será que a condenação pública conserva o mesmo entusiasmo, ou a indignação também sabe escolher o momento de ficar em silêncio?

  • *Fernando Fernandes é analista político, mestre em Filosofia Política e doutorando em Direito Público pela UERJ



Com informações da fonte
https://coisasdapolitica.com/opiniao/12/10/2026/a-rebeliao-dos-omissos

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