Quem não teve seu momento de pequena maledicência, uma ironia ferina, uma fofoquinha sussurrada? Se você gosta da pessoa e não está falando de ausentes, esse jogo tem nome e endereço: afeto, companheirismo. Amo essa arte.
“Víboras — A Arte do Insulto” é uma peça com estrutura de teatro clássico. A ação dura o tempo da peça, acontece em um só ambiente e tem uma verossimilhança tão grande que não há quem não tenha vivido uma situação dessas.
Porque é assim que funciona a vida. A gente se reúne, conversa, comenta, provoca, dá uma alfinetada, ri do outro e de si mesmo. E, quando existe afeto, até a pequena maldade pode ser uma forma de intimidade.
É aí que a peça fica deliciosa: reconhecemos aquelas pessoas. Talvez até reconheçamos um pouquinho de nós mesmos.
O engenho de Flávio Marinho, diretor, autor e produtor — ele mesmo produz seus trabalhos, sem qualquer patrocínio — está em acertar no alvo. E, quando isso acontece, não falta plateia. Muito pelo contrário: o público comparece em peso.
É o que a gente vê por ali: liberdade total para dar gargalhadas e se emocionar. O texto é como um mágico que conduz a plateia pelos caminhos do ótimo teatro.
São quatro atores em cena. Alice Borges faz uma extraordinária Mirna, a dona da tasca. Guilherme Dellorto é Jorge, o garotão carioca que sonha em ser famoso, mas tem uma análise cortante sobre as pessoas da Zona Sul. Aloísio de Abreu faz Luiz, um galã maduro, encantador, que canta e une as pessoas. E Marcos Breda é Sílvio, o contador sério, com um Édipo maior que a distância do Rio a Pelotas, onde mora sua mãe.

O que é bem legal é que esses personagens vão além das diferenças pessoais. São quatro culturas, quatro personalidades, quatro desejos, quatro questões. Nada disso é esquemático, muito menos estereotipado.
No cenário de Ronald Teixeira, com a enorme figura do Cristo abençoando, Flávio constrói um oásis de relações sinceras, fortes, entrelaçadas. Difícil de encontrar.
Além disso, tem Aloísio cantando, que é puro luxo. Alice dança e canta com total graça. E os fados — ah, os fados! — entram certinho para reforçar os diálogos. A direção musical de Liliane Secco, parceira inseparável de Flávio, amarra tudo isso com precisão e delicadeza.
E há ainda os 40 anos de puro talento de Flávio Marinho. Grandes peças, vários tipos de dramaturgia e uma trajetória que não parou de inventar.
“Víboras” é uma comédia com texto afinado, direção que movimenta muitíssimo bem a cena e atores entrosados.
O final feliz é narrado por Miguel Falabella em off.
Mais não conto.

Entrevista com Alice Borges:
1 – Como foi fazer uma cachopa tão cachopa em “Víboras”? Como você encontrou essa mulher e chegou a esse sotaque português tão perfeito?
Tenho facilidade para fazer sotaques e gosto muito do português! Já fiz duas personagens portuguesas no teatro e uma na TV. Não tive preparação específica, mas pego dicas com pessoas que realmente falam o português de Portugal.
2- Você dança muito bem. Como construiu o corpo da dona da tasca? A personagem nasceu primeiro na fala ou no movimento?
Tenho formação profissional em dança. Fui bailarina por 20 anos! Para mim, é natural o meu trabalho de corpo aparecer em cena.
3 – Você trabalha muito com Flávio Marinho. Como funciona essa parceria? O que um provoca no outro que aparece no palco?
Trabalho com Flávio há mais de 30 anos! Deve ser o quarto espetáculo que faço com ele. Nos tornamos amigos e temos aquela intimidade de falar tudo! E ele sempre escreve pensando em mim.
4 – Você é atriz e também diretora. O que muda quando está de um lado ou do outro? E o que a direção ensinou à atriz?
Minha atriz com certeza influencia a minha diretora. Tenho bastante conhecimento da “psicologia” de um ator, sei entender o temperamento do ator com quem estou trabalhando e tirar o melhor da sua interpretação! A direção chegou à minha vida bem depois de eu já estar no palco como atriz. Ainda não tinha virado a chave de que eu também sabia dirigir. Foram muitos anos de observação dos diretores com quem trabalhei, e acho também que está no meu DNA. Meu pai, Antônio Pedro, foi um grande diretor e ator brasileiro!
5 – Você tem uma alegria esfuziante que aparece no palco e na vida. De onde vem essa alegria?
O teatro é a minha casa. Em 2027, vou comemorar 50 anos de carreira. Comecei na primeira montagem de “Os Saltimbancos”, em 1977, aos 11 anos! Quando criança, vivia nas coxias do teatro. Me sinto muito à vontade no palco. Tive uma infância atípica. Meu pai casou quatro vezes, e eu sempre morei com ele. Ele se ausentava muito do convívio familiar por causa do trabalho. Eu era uma pessoa insegura e, no palco, exercia a minha autoestima!
Serviço:
Teatro Vanucci
Sextas e sábados, às 19h
Domingos, às 17h30

