IA também pesa no planeta: por que a tecnologia do futuro precisa ficar mais verde

Tempo de leitura: 9 min


Ela responde perguntas, cria textos, produz imagens, ajuda no trabalho, nos estudos e já está no celular de milhões de pessoas. Mas toda vez que alguém aciona uma ferramenta de inteligência artificial existe uma estrutura gigantesca funcionando nos bastidores e ela consome energia, precisa ser refrigerada e, em alguns casos, também utiliza água.

Se a inteligência artificial já faz parte da nossa rotina, uma nova discussão começa a ganhar espaço: como fazer toda essa tecnologia avançar sem mandar a conta para o planeta?

Para falar sobre o assunto, o Café da Manhã, da Rádio Manchete Rio, recebeu a professora do Instituto de Computação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora Mariza Ferro. O tema da conversa foi a chamada IA Verde, ou Green AI.

Mas, afinal, o que é IA Verde?

Segundo Mariza, o conceito vai além de simplesmente utilizar inteligência artificial em projetos ambientais. Na definição adotada pelo grupo de pesquisa do qual participa, a proposta está no próprio desenvolvimento da tecnologia: produzir bons resultados sem aumentar desnecessariamente o custo computacional.

Isso significa trabalhar com modelos mais modestos, buscar eficiência energética e utilizar ferramentas capazes de medir e otimizar com precisão o consumo de energia.

Há também um componente de inclusão científica nessa discussão. Modelos que exigem estruturas com milhares de núcleos de processamento e GPUs de alto desempenho acabam concentrando a capacidade de pesquisa em instituições e empresas que conseguem bancar essa infraestrutura.

“IA Verde se refere ao desenvolvimento e uso de uma IA ecologicamente mais amigável e inclusiva”, explica a pesquisadora.

Mariza lembra que o termo também vem sendo utilizado por alguns autores em outro sentido: o uso da própria inteligência artificial para enfrentar problemas ambientais, como monitoramento do desmatamento e melhoria da produção de energia renovável.

Aquela perguntinha para a IA não acontece só no seu celular

Para o usuário, parece simples. Você pega o celular, escreve uma pergunta e recebe a resposta segundos depois. Só que o trabalho pesado não está acontecendo necessariamente ali, na palma da sua mão.

Está nos data centers.

De acordo com Mariza, tanto o treinamento dos grandes modelos de inteligência artificial quanto boa parte de seu uso cotidiano dependem dessas enormes estruturas computacionais.

São equipamentos funcionando 24 horas por dia, sete dias por semana. Além da eletricidade necessária para os processadores, existe outro desafio: o calor produzido por toda essa operação.

Os sistemas precisam ser refrigerados continuamente e, dependendo da tecnologia adotada, o resfriamento pode envolver também o uso de água.

O treinamento de um grande modelo pode representar um consumo muito elevado. Mas não dá para ignorar o que acontece depois que ele fica pronto.

“Cada uso individual tem um consumo de energia muito menor do que durante o treinamento, porém são milhões de usos por dia, o que resulta em um impacto alto no final”, alerta Mariza.

E existe ainda uma variável importante nessa conta: de onde vem a eletricidade. O impacto associado às emissões muda conforme a matriz energética utilizada para alimentar os data centers.

*A contradição: a IA que consome recursos também pode ajudar o planeta*

É aqui que a história fica interessante.

A mesma inteligência artificial que demanda energia e infraestrutura pode ser usada para prever eventos climáticos extremos, monitorar florestas, melhorar sistemas de energia e ajudar no enfrentamento das mudanças climáticas.

O próprio grupo de pesquisa de Mariza trabalha nessa direção.

“Usamos IA para predizer eventos climáticos extremos, ou seja, o desenvolvimento de aplicações para combater os efeitos das mudanças climáticas, mas fazemos isso com modelos verdes”, conta.

O problema, segundo a pesquisadora, é que essa preocupação ainda está longe de ser regra.

Um dos desafios é conseguir colocar os dois lados da balança na mesma conta: quanto uma aplicação de inteligência artificial entrega de benefício ambiental e quanto ela própria consumiu de recursos para ser desenvolvida e utilizada?

Mariza aponta que ainda faltam metodologias capazes de avaliar adequadamente todo o ciclo de vida dessas aplicações.

Para ela, além de desenvolver soluções importantes, é preciso aumentar a transparência sobre os recursos utilizados para chegar aos resultados.

*Brasil pode ser referência, mas energia renovável não significa impacto zero*

A discussão ganha ainda mais importância no Brasil diante da expansão dos data centers e das características da matriz elétrica brasileira.

A presença relevante de fontes renováveis pode representar uma vantagem para o país no desenvolvimento de uma inteligência artificial ambientalmente mais sustentável.

Mas Mariza faz uma ressalva importante: renovável não é sinônimo de impacto zero.

“Mesmo com energias renováveis existe impacto ambiental e social. Não é impacto neutro, mas com certeza é um impacto menor no meio ambiente e isso pode nos colocar como exemplo de IA sustentável”, afirma.

Para a pesquisadora, a instalação de grandes data centers precisa ser acompanhada também de regulamentação e de estudos que considerem não apenas os efeitos ambientais, mas os impactos sociais sobre as comunidades onde essas estruturas serão implantadas.

Ou seja: não basta saber quanta energia um data center vai consumir. Também é necessário olhar para o território e para quem vive nele.

*E se a inteligência artificial tivesse um “selo verde”?*

Na avaliação de Mariza, a IA Verde já é perfeitamente aplicável. O problema é que ainda é adotada por uma parcela pequena da comunidade.

No grupo da pesquisadora, por exemplo, o desenvolvimento é centrado em modelos de IA Verde. Para que essa lógica deixe de ser uma exceção e ganhe escala, ela aponta algumas mudanças necessárias.

Uma delas é a transparência.

Mariza defende que os custos ambientais e financeiros envolvidos no desenvolvimento das aplicações sejam apresentados nas publicações científicas e que pesquisadores tenham mais acesso a ferramentas capazes de medir esses impactos.

Mas ela vai além e lança uma proposta interessante para as ferramentas que chegam ao grande público: um selo de eficiência.

“As big techs deveriam apresentar uma espécie de selo de eficiência para as aplicações que têm disponibilizado para a população”, defende.

A ideia seria permitir que o usuário soubesse mais sobre o impacto da ferramenta que está utilizando e pudesse, inclusive, escolher uma alternativa mais eficiente ambientalmente.

Na prática, seria trazer para o consumidor uma informação que hoje praticamente não aparece na tela.

*Tecnologia do futuro, responsabilidade de agora*

A inteligência artificial não vai desaparecer. Pelo contrário. Ela tende a ocupar cada vez mais espaço na vida das pessoas, nas empresas, na ciência e nos serviços públicos.

A discussão proposta pela IA Verde não é simplesmente frear essa evolução, mas colocar uma nova pergunta ao lado da corrida por modelos cada vez maiores e mais poderosos.

Porque talvez já não seja suficiente perguntar até onde a inteligência artificial consegue chegar.

Também precisamos começar a perguntar: quanto custa para o planeta chegar até lá?
Mas, esse papo será assunto para um próximo bate-papo

 

*Cláudia Jones, comunicadora e pesquisadota



Com informações da fonte
https://mancheterio.com.br/ia-tambem-pesa-no-planeta-por-que-a-tecnologia-do-futuro-precisa-ficar-mais-verde/

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