Absurdo. De tão lindo, de cair o queixo, de ficar embasbacado. Assim é “Gonzaguinha É…”, com a Barca dos Corações Partidos, idealizado e produzido pela Sarau Cultura Brasileira. É o mesmo grupo que encena os belos musicais sobre artistas brasileiros, nos quais exibe talento, proficiência e muita, mas muita brasilidade.
Antes, nos imemoriais tempos dos festivais, vi na TV, em preto e branco, aquele menino magricela, de cavanhaque, tímido, sentado na banqueta, com a música Pobreza por Pobreza. Em 1969, venceu o II Festival com a música O Trem. Ficaram na minha cabeça a timidez e a voz.
Nascido em 22 de setembro, na cúspide entre Virgem e Libra, é exatamente assim que ele aparece no texto de Ana Carbatti e Braulio Tavares: solitário, gregário, romântico, combativo. Baião e samba-canção.
Gonzaguinha seria chamado hoje de nepo baby. Filho do gênio Gonzagão, cuja presença está no palco, com seu chapéu de boiadeiro. Mas é aquele caso raro em que o filho se parece com o pai e, ainda assim, o supera.

A Barca tem quatro atores que estão no grupo desde o início: Adrén Alves, Alfredo Del-Penho, Beto Lemos e Ricca Barros. Todos são multiartistas de uma perfeição! Cantam, dançam, interpretam, tocam toda sorte de instrumentos. Rabeca, bumbo, pandeiro, guitarra, violão. Nadica falta.
Os figurinos de Carol Lobato têm brilho, têm discrição, têm cor. Todos de tênis. Um conjunto meio banda de jazz, meio furiosa de baile de carnaval.

Inez Viana faz uma direção contemporânea, na qual os atores se juntam, se separam, solam, dialogam. Funcionam como instalações performáticas e, quase sempre com os instrumentos, movimentam-se com harmonia. É a obra de Gonzaguinha. Impressionante. Ação e contradição. Paixão e grito. A direção de movimento de Denise Stutz traz a brasilidade no corpo e na alma.
O cenário é discreto, preto, formado por cubos e retângulos. Instalações musicais surgem e desaparecem. Assim, vemos Gonzaguinha e suas músicas contarem os momentos da vida do autor.

Os amores, a solidão, a falta da mãe, o orgulho por sua história, o moleque do São Carlos, o moleque da MPB. Há pontos de destaque: os solos de Ricca e Adrén, os textos falados por Alfredo e a genialidade musical de Beto.
E há o número das três atrizes, Luiza Loroza, Nívea Magno e Thati Dias, dançando funk. Depois de ver Luiza Loroza levando o número — e AnaMaGa, percussionista de primeira —, eu desistiria de ser Anitta.
De grandes canções, enormes emoções. A plateia começa timidamente a se levantar, mas depois é uma explosão de alegria, palmas, lembranças.
Hoje, a expressão nepo baby é usada de forma irônica. Mas há nepo babies espetaculares. Há nepo babies que são rascunhos apagados dos pais.
Pensem nisso.
Gonzaguinha jamais foi rascunho de ninguém.
Entrevista com Inez Viana:
1 – Como é dirigir esse bando incrível que é a Barca dos Corações Partidos?
Sempre fui admiradora da Barca! Além de serem, de fato, muito talentosos, são dedicados, espirituosos, gentis e, sobretudo, incansáveis. Juntaram-se ao bando quatro excelentes atrizes e cantoras, que tornaram o prazer de ensaiar — que também é o meu grande prazer — ainda maior. Ensaiamos durante 3 meses, de segunda a sábado, das 8h às 16h. O mergulho foi profundo, com uma troca saudável e de mútua confiança. Esse processo me confirmou, mais uma vez, que não existe milagre: o que existe é muito trabalho.
2 – O que você descobriu sobre Gonzaguinha durante o processo?
Sempre fui fã de Gonzaguinha e conhecia razoavelmente parte de sua vasta obra. Achava que, além do cantor de músicas românticas, ele era um artista muito sério e comprometido com as lutas sociais de seu tempo. Mas descobri que também era um cara engraçado, moleque — como ele se autodefinia —, que amava a vida, os pais, as mães, as filhas, o filho e o nosso país. Conheci de perto o Gonzaguinha comediante por meio do texto que usamos na peça, trazido por sua filha Nanan Gonzaga, no qual ele mostra as agruras de ser um artista no Brasil. Um artista genial, atualíssimo, visionário.
3 – Você é atriz, diretora, autora. De onde vem essa vontade de experimentar?
Durante 20 anos, fui uma atriz comediante que trazia especificidades como o canto e a dança. Mas, em 2005, depois de fazer três residências com a diretora Christiane Jatahy, descobri o teatro dito “contemporâneo”, com novas possibilidades de atuação e de pesquisa, e me apaixonei! Em 2007, tive a oportunidade de experimentar também a direção, e foi outra paixão! Novas perspectivas se abriram, inclusive para a dramaturgia. Gosto de experimentar, de me atirar no desconhecido, de arriscar novos caminhos. Só posso agradecer.
4 – Qual foi, para você, a parte mais gostosa de fazer Gonzaguinha É…?
O encontro, a liberdade e a troca com artistas tão comprometidas e comprometidos, apaixonadas e apaixonados pelo teatro, como eu.
5 – Como funciona sua parceria artística com Debora Lamm?
Debora é minha companheira amada. Para mim, a melhor atriz de sua geração e uma diretora brilhante! Trocamos mais quando estamos trabalhando juntas ou com a nossa Cia. OmondÉ, que, no ano que vem, completa 18 anos. Assistimos ao trabalho uma da outra já praticamente na estreia. É bom assim, porque é um olhar renovado sobre a obra. Obviamente, sempre que tenho alguma dúvida, recorro ao seu saber, e vice-versa.
Serviço:
Sesc Ginástico (Centro)
Quintas e sextas, às 19h.
Sábados e domingos, às 17h.

