O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a vincular os escândalos do Banco Master à família do oponente na corrida presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL), a quem também acusou de ter ligações com a milícia. Em entrevista à Rádio Tupi, durante visita ao Rio de Janeiro na manhã desta sexta-feira, o candidato à reeleição disse que foi a gestão anterior que transformou Daniel Vorcaro — até então, segundo o petista, um “Zé Ninguém” — em banqueiro, ao dar o aval para as operações da instituição financeira.
Na entrevista, sem citar nomes, Lula afirmou que considerado o Caso Master o “maior” escândalo de corrupção no país e citou os elos de Vorcaro com o ex-governador do Rio Cláudio Castro e o clã do principal adversário de outubro.
— Você tem um cidadão que era um Zé Ninguém, e o governo Bolsonaro fez ele virar banqueiro. Ele deu um desfalque de 60 bilhões [de reais], envolveu outros bancos, envolveu governos de estados pelos fundos de pensão. Esse cidadão virou prisioneiro no meu governo. Ele corrompeu todo mundo — destacou Lula.
Lula ainda disse que o governo Bolsonaro “criou a quadrilha” que operava descontos fraudulentos no INSS e ressaltou ter “devolvido todo o dinheiro que eles roubaram” para os aposentados. O candidato do PT afirmou ver com “tristeza” como Vorcaro corrompeu os Poderes da República e apontou a necessidade de uma discussão sobre “consertar a Suprema Corte”, que tem “cinco ministros envolvidos direta ou indiretamente” no caso Master.
O presidente afagou o ministro Alexandre de Moraes — cuja divulgação de mensagens com o ex-banqueiro gerou uma crise sem precedentes no Supremo — como alguém que teve “papel importante” na manutenção da democracia, em referência à atuação como relator dos processos da trama golpista. Ponderou, porém, que não defende as tratativas milionárias do escritório de advocacia da família Moraes com Vorcaro.
— A bronca que o Flávio tem do Alexandre de Moraes não é pelo caso Master, é por causa da prisão do pai dele [o ex-presidente Jair Bolsonaro]. Moraes teve papel importante nas eleições e na manutenção da democracia (…) Ninguém está defendendo o contrato que o Moraes fez com o banco Master, nem que o [ministro Dias] Toffoli fez acordo com o Master, mas quem quiser ir para a Suprema Corte não pode querer ser rico. É um sacerdócio. É a instância mais sublime, então tem que ter muita ética. Isso tudo está apodrecendo — afirmou.
Lula reconheceu que o caso “vai respingar na reta final” da campanha presidencial e defendeu uma apuração cautelosa das fraudes.
— O culpado disso se chama Bolsonaro. Essa corrupção aconteceu no governo Bolsonaro. Nós estamos investigando com paciência. Se a gente fizer pirotecnia, você faz a denúncia e não apura nada. Esse Vorcaro me procurou um dia, em conversa de 20 minutos, disse que o estavam prejudicando, perseguindo, meu banco está quebrando. Eu disse: ‘Aqui ninguém é perseguido. Se você estiver com banco correto, seu banco não vai fechar. Se não tiver, vai fechar’. E nós fechamos, porque não estava correto — disse.
O presidente disse que ainda “não saiu tudo” do que foi descoberto pela polícia no celular do ex-banqueiro, acusou o ministro André Mendonça, relator do Caso Master, de “segurar” informações e afirmou que “tem muita gente com medo na República”.
Em outro momento da sabatina na Tupi, o presidente elogiou o trabalho do desembargador Ricardo Couto à frente do governo fluminense e emendou críticas ao rival por supostas ligações com o poder paralelo no estado.
— Você sabe que tem candidato a presidente que é ligado a milicianos aqui no Rio. Você vai perceber que tem muita gente da familia Bolsonaro metida com miliciano nesse país. É preciso limpar a política. A sociedade tem que assumir a responsabilidade, e a eleição é para isso. É inconcebível o Rio de Janeiro viver nessa situação — disse Lula, sem detalhar os alegados elos de Flávio com milicianos.
Pacto de Segurança no Rio
Lula viajou ao Rio nesta sexta para anunciar um plano de segurança. Na Tupi, ele disse que o modelo adotado no estado “é exemplo para o que vamos fazer no país” e se estrutura em três eixos: sufocar a logística e a mobilidade do crime, retomar territórios ocupados pela “bandidagem” e fortalecer a capacidade do município de enfrentar o problema.
— Você não pode levantar sabendo que seu bairro tem dono, comprar gás sabendo que tem que pagar pedágio. A rua é seu, o bairro é seu, por isso vamos levar a sério. Sempre fui contra GLO, intervenção que vinha, o Exército entrava, o bandido saía e voltava. É preciso colocar [polícia] fixa. A polícia tem que atuar 24 horas por dia, 365 dias por ano. Vamos fazer uma experiência no Rio — defendeu.
Na entrevista, o petista disse que os governadores “não gostam” que a União “se meta” na segurança pública porque “a polícia é um espaço de poder” — por isso, segundo ele, “todos os governadores” foram contra a PEC da Segurança Pública, que incrementa a atuação do governo federal nessa área.
— Eles querem dinheiro. Nós não queremos só dar dinheiro. Nós queremos nos meter. Queremos dobrar o efetivo da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal, para tomar conta das estradas, das fronteiras, e também a Polícia Penal, para a gente fazer presídios e a gente ter certeza que não é um desembargador do estado que vai decidir onde o preso vai ficar — afirmou.
No início de setembro, o governo estadual e o Ministério da Justiça e Segurança Pública assinaram dois Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) para ampliar a integração entre as forças estaduais e federais no enfrentamento ao crime organizado.
Na seara da segurança, Lula voltou a defender medidas de combate à violência de gênero e à promoção da independência financeira das mulheres. Vinculou essa pauta ao fim da escala 6×1, cuja votação no Congresso ficou para depois do primeiro turno, para que a mulher possa “ter um dia dela”.
Pressionado por pesquisas que mostram um empate técnico na disputa com o senador, o presidente anunciou na quinta-feira, a pouco mais de duas semanas das eleições, o primeiro aumento do seu terceiro mandato para o Bolsa Família, de 15,04%. A medida foi tratada como um ato de “desespero” pelo principal oponente e abriu margem para questionamentos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O primeiro pagamento com os valores já corrigidos será feito entre o primeiro e o segundo turno.
A decisão foi tomada no dia em que Lula apareceu mais uma vez empatado tecnicamente com Flávio no Datafolha. Segundo a pesquisa, o petista tem 46% das intenções de voto em um eventual segundo turno, enquanto o candidato do PL marca 44%.
Já no primeiro turno, Lula aparece com 39%, enquanto Flávio tem 36%.
Já entre quem recebe Bolsa Família ou mora numa residência com beneficiários do programa, 53% votariam em Lula no primeiro turno, enquanto Flávio marca 28%. Na parcela não beneficiada — direta ou indiretamente — pelo programa, 36% votariam no petista, contra 37% que escolheriam Flávio.
