Há textos que envelhecem. Outros continuam dizendo coisas importantes muito tempo depois de terem sido escritos. Visitando o Sr. Green, de Jeff Baron, pertence à segunda categoria.
A peça, um clássico do teatro atual, chega ao Rio em uma versão brasileira que encontra na tradução de Gustavo Pinheiro uma de suas grandes forças. O humor judaico permanece, assim como os pequenos maneirismos de uma cultura e de um personagem que parece carregar o século inteiro nas palavras e nos gestos.
Até o nome pode nos fazer pensar. Green é verde. E verde é vida nova, frescor, esperança. É justamente isso que está em cena.
O Sr. Green, interpretado magistralmente por Elias Andreato, tem 86 anos. Seu andar, suas mãos, seus gestos e, mais do que um sotaque, uma determinada inflexão constroem uma persona inteira. A kippah e o tzitzit completam essa identidade.
Do outro lado está Ross, vivido por Caio Manhente, jovem, rico e homossexual, em confronto com o tradicionalismo religioso e afetivo daquele homem. Apesar da diferença de idade e experiência, Caio jamais tenta se sobrepor a Green. Os dois têm espaço para existir.
Há uma sucessão de pequenos acontecimentos, descobertas e plot points que Guilherme Piva conduz com precisão. A surpresa envolve a plateia, e não há um segundo em que se tirem os olhos, os ouvidos, o coração e a mente do que está acontecendo.

A casa de Green, criada cenograficamente por Chris Aizner, cheia de papéis velhos, objetos acumulados e pó, é quase uma extensão daquele homem e de sua memória. Aos poucos, a presença do jovem vai promovendo uma espécie de limpeza. Não apenas na casa, mas nos preconceitos, nas turras e nas certezas.
Karen Brustolin também conta essa história pelo figurino. São roupas cotidianas, mas os detalhes revelam muito. A kippah e o tzitzit reafirmam a fé e ajudam a construir visualmente o universo daquele homem.
A música, criada pelo próprio Guilherme Piva, ajuda a transformar o espaço em território de memória e emoção. As canções judaicas criam uma atmosfera quase ritualística. Mesmo quando não entendemos as palavras, entendemos a emoção.

Aos poucos, os mistérios se desfazem, os preconceitos começam a mudar e as turras dão lugar a uma relação que nenhum dos dois poderia ter imaginado.
E, então, o verde do nome ganha ainda outro sentido. Green é esperança.
A experiência de Elias Andreato está ali como um farol, mostrando que o talento não envelhece. E Caio Manhente, com sua juventude, aponta para um novo caminho.
Dois tempos no mesmo palco. Duas gerações. E o melhor teatro fazendo aquilo que deve fazer: renovar-se sem perder a memória.
Entrevista com Guilherme Piva:
1 – Você tem uma longa trajetória no teatro, na televisão e no cinema. Em que momento encontrou seu lugar como ator?
Eu já fazia alguns cursos no trabalho quando Carlos Damião me chamou para uma montagem de O Ateneu. Era um elenco jovem, com cerca de 40 atores e três atrizes. Encontrei aquela gente falando de cultura e de teatro e fiquei encantado. Depois de uma semana, tive certeza: “É aqui o meu lugar”. Foi uma descoberta muito rápida e profunda. E muitos daqueles companheiros continuam meus amigos até hoje.
2 – A peça reúne atores em momentos diferentes da carreira. Como foi dirigir Elias Andreato e Caio Manhente?
Dirigir os dois foi maravilhoso. Elias é um grande ator, com muita experiência, e Caio também é um grande ator, com outro tipo de experiência. Isso importa muito na peça. Green tem muita vida, experiência e também os enrijecimentos que a vida produz. Ross é jovem, está aberto e começando suas experiências. Usei muito essa diferença entre juventude, experiência e sabedoria no trabalho de direção. Eles se tornaram extremamente complementares, e esse jogo é fundamental para a cena.
3 – Por que escolheu Visitando o Sr. Green?
Dois motivos me fizeram montar Green. O primeiro foi muito especial: eu sonhei com a peça. Sonhei com Paulo Autran dizendo que eu tinha que montar Green. Eu não tinha visto a montagem dele nem sabia do que se tratava. Fui ao Google, descobri que era uma peça e fui ler. O segundo motivo foi o debate sobre como a tradição pode matar a vida e os afetos. Como crenças limitantes e crenças erradas podem nos afastar do amor. Isso me tocou profundamente.
4 – Você está dirigindo Visitando o Sr. Green e também fazendo sucesso como Edvaldo em uma novela. Como é estar nos dois lugares?
Eu amo dirigir e amo ser dirigido. São dois canais completamente diferentes. Quando sou dirigido, coloco-me à disposição do diretor para entender a linha que ele quer seguir. Quando dirijo, sou eu quem define a linha, o trabalho e o sentido da obra. Os dois lugares me dão extremo prazer e estimulam muito a criatividade. A televisão tem um alcance gigantesco, que percebemos nas ruas e na internet. Mas também existe muita exposição. É preciso selecionar o que ouvir e confiar no trabalho que está sendo feito.
5 – Depois de tantos anos entre atuar e dirigir, o que ainda o desafia?
Não tenho preferência entre atuar e dirigir. O que me interessa é o projeto, o texto e as pessoas com quem vou trabalhar. Quando leio um texto, penso: “Quero falar esse texto” ou “Quero dirigir esse texto”. Precisa existir admiração e fascínio pelo texto e pela equipe para que a criatividade aconteça. Vou muito intuitivamente. Os dois lugares podem me estimular muito. Agora, por exemplo, vou dirigir Ingrid Guimarães em uma peça, junto com a novela. Tenho enorme admiração por ela e encontrei um texto que também me interessa e me estimula.
Serviço:
Teatro Vannucci — Shopping da Gávea
Sábados, às 18h
Domingos, às 17h

