O fim se aproxima. Mas calma: neste caso, é só o fim da temporada. A peça Apocalip-se chega neste fim de semana às suas últimas apresentações no Teatro Poeira, em Botafogo. Fui assistir ao espetáculo no último domingo (23) e saí de lá daquele jeito que eu gosto de sair do teatro: depois de rir bastante durante a sessão, continuei pensando no que tinha acabado de ver. E algumas dessas reflexões ainda estavam comigo dias depois.
Por isso, antes de qualquer outra coisa, fica o aviso para quem ainda quiser conferir: restam apenas três apresentações — nesta sexta-feira (28) e no sábado (29), às 20h, e no domingo (30), às 19h, quando termina a temporada iniciada em julho.
Escrito por Julia Spadaccini e Marcia Brasil, o espetáculo foi idealizado e é protagonizado por Jorge Caetano, que divide a direção com Alexandre Mello. Em cena, Caetano vive um homem que, desde a pandemia, permanece isolado e vai fazendo de uma assistente virtual, interpretada por Nina da Costa Reis, praticamente sua principal interlocutora. Inteligência artificial, solidão, saúde mental, dependência digital e a dificuldade de estabelecer vínculos reais aparecem, então, no meio dessa relação cada vez mais curiosa entre um homem e uma tecnologia que parece estar sempre disponível.
Talvez tenha sido justamente aí que a peça mais tenha me provocado. A necessidade de distanciamento social marcou de formas muito diferentes quem atravessou aqueles anos. E o que ficou depois? O isolamento pode angustiar, evidentemente, mas existe também uma certa comodidade em permanecer afastado. Conviver é bom e é difícil. Pessoas nos acolhem, mas também nos frustram, nos desafiam, despertam inseguranças. A tecnologia, por outro lado, pode oferecer a impressão de uma companhia muito mais previsível.
Mas será que estar permanentemente conectado significa estar acompanhado? Acho que essa pergunta ficou rondando minha cabeça depois da sessão. Algoritmos são feitos por seres humanos e podem nos oferecer coisas extraordinárias; escrevo isto, aliás, em 2026, quando a inteligência artificial já faz parte da vida de tanta gente. Ainda assim, existe algo de imprevisível, incômodo, afetuoso e insubstituível no encontro com outra pessoa. A própria dramaturgia de Apocalip-se nasceu durante a pandemia e foi amadurecendo nos anos seguintes, justamente em torno das marcas deixadas pelo afastamento e das novas formas de relação mediadas pela tecnologia.
Tudo isso poderia resultar num espetáculo bastante soturno. Mas Apocalip-se é uma comédia musical; e eu ri. Ri alto, inclusive, em alguns momentos. Nina da Costa Reis dá à assistente virtual uma comicidade muito particular, sobretudo nas interações com o protagonista, sem que a personagem se reduza apenas ao alívio cômico. Jorge Caetano, por sua vez, conduz esse homem solitário entre humor, inquietação e música, sem que uma coisa precise anular a outra. Talvez seja justamente essa mistura que torne algumas questões mais desconfortáveis um pouco mais fáceis de encarar.
E há muita música. Jorge Caetano e Nina têm vozes muito bonitas e boa presença como intérpretes das canções, enquanto Felipe Storino, Maurício Chiari, Paula Otero e Rafael Oliveira permanecem em cena tocando ao vivo. A direção musical é de Felipe Storino e Maurício Chiari, e me chamou atenção a maneira como as canções fazem parte da narrativa, em vez de simplesmente interrompê-la. São seis músicas inéditas e, em vários momentos, é por elas que o protagonista consegue expressar o que já não consegue colocar tão facilmente em palavras.
A encenação também combina teatro e audiovisual. O cenário de André Sanches transforma o palco num ambiente povoado por telas e dispositivos tecnológicos, em diálogo com as projeções concebidas por Letícia Pantoja e com a iluminação de Paulo César Medeiros. Não se trata apenas de colocar tecnologia em cena: esse universo visual ajuda a construir o mundo em que o protagonista vive, cada vez mais mediado por celulares, imagens digitais e pela presença constante de uma inteligência artificial.
Não tenho a pretensão de transformar estas impressões numa crítica teatral. Fui assistir a uma peça, me diverti, fui impactado por algumas de suas perguntas e reconheci ali questões que, em maior ou menor medida, talvez sejam familiares a muita gente. Afinal, passamos por uma experiência coletiva de afastamento cujas consequências ainda estamos compreendendo. E talvez a graça de Apocalip-se esteja também nisso: rir da nossa condição um tanto complicada enquanto tentamos descobrir, mais uma vez, como estar juntos.
O fim, agora, está mesmo próximo. Mas ainda dá tempo.
Serviço
Espetáculo “Apocalip-se”
Teatro Poeira — Rua São João Batista, 104, Botafogo
Sexta-feira (28) e sábado (29): 20h
Domingo (30): 19h — última apresentação
Ingressos: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia-entrada)
*Daniel Sampaio é advogado, ativista do patrimônio cultural e criador de conteúdo. Fundou o Instagram @RioAntigo em 2012 e a ONG Instituto Rio Antigo em 2022.
