O fim se aproxima: “Apocalip-se” faz últimas sessões no Teatro Poeira

Tempo de leitura: 6 min



O fim se aproxima. Mas calma: neste caso, é só o fim da temporada. A peça Apocalip-se chega neste fim de semana às suas últimas apresentações no Teatro Poeira, em Botafogo. Fui assistir ao espetáculo no último domingo (23) e saí de lá daquele jeito que eu gosto de sair do teatro: depois de rir bastante durante a sessão, continuei pensando no que tinha acabado de ver. E algumas dessas reflexões ainda estavam comigo dias depois.

Por isso, antes de qualquer outra coisa, fica o aviso para quem ainda quiser conferir: restam apenas três apresentações — nesta sexta-feira (28) e no sábado (29), às 20h, e no domingo (30), às 19h, quando termina a temporada iniciada em julho.

Escrito por Julia Spadaccini e Marcia Brasil, o espetáculo foi idealizado e é protagonizado por Jorge Caetano, que divide a direção com Alexandre Mello. Em cena, Caetano vive um homem que, desde a pandemia, permanece isolado e vai fazendo de uma assistente virtual, interpretada por Nina da Costa Reis, praticamente sua principal interlocutora. Inteligência artificial, solidão, saúde mental, dependência digital e a dificuldade de estabelecer vínculos reais aparecem, então, no meio dessa relação cada vez mais curiosa entre um homem e uma tecnologia que parece estar sempre disponível.

Talvez tenha sido justamente aí que a peça mais tenha me provocado. A necessidade de distanciamento social marcou de formas muito diferentes quem atravessou aqueles anos. E o que ficou depois? O isolamento pode angustiar, evidentemente, mas existe também uma certa comodidade em permanecer afastado. Conviver é bom e é difícil. Pessoas nos acolhem, mas também nos frustram, nos desafiam, despertam inseguranças. A tecnologia, por outro lado, pode oferecer a impressão de uma companhia muito mais previsível.

Continua após a publicidade

Mas será que estar permanentemente conectado significa estar acompanhado? Acho que essa pergunta ficou rondando minha cabeça depois da sessão. Algoritmos são feitos por seres humanos e podem nos oferecer coisas extraordinárias; escrevo isto, aliás, em 2026, quando a inteligência artificial já faz parte da vida de tanta gente. Ainda assim, existe algo de imprevisível, incômodo, afetuoso e insubstituível no encontro com outra pessoa. A própria dramaturgia de Apocalip-se nasceu durante a pandemia e foi amadurecendo nos anos seguintes, justamente em torno das marcas deixadas pelo afastamento e das novas formas de relação mediadas pela tecnologia.

Tudo isso poderia resultar num espetáculo bastante soturno. Mas Apocalip-se é uma comédia musical; e eu ri. Ri alto, inclusive, em alguns momentos. Nina da Costa Reis dá à assistente virtual uma comicidade muito particular, sobretudo nas interações com o protagonista, sem que a personagem se reduza apenas ao alívio cômico. Jorge Caetano, por sua vez, conduz esse homem solitário entre humor, inquietação e música, sem que uma coisa precise anular a outra. Talvez seja justamente essa mistura que torne algumas questões mais desconfortáveis um pouco mais fáceis de encarar.

Continua após a publicidade

E há muita música. Jorge Caetano e Nina têm vozes muito bonitas e boa presença como intérpretes das canções, enquanto Felipe Storino, Maurício Chiari, Paula Otero e Rafael Oliveira permanecem em cena tocando ao vivo. A direção musical é de Felipe Storino e Maurício Chiari, e me chamou atenção a maneira como as canções fazem parte da narrativa, em vez de simplesmente interrompê-la. São seis músicas inéditas e, em vários momentos, é por elas que o protagonista consegue expressar o que já não consegue colocar tão facilmente em palavras.

A encenação também combina teatro e audiovisual. O cenário de André Sanches transforma o palco num ambiente povoado por telas e dispositivos tecnológicos, em diálogo com as projeções concebidas por Letícia Pantoja e com a iluminação de Paulo César Medeiros. Não se trata apenas de colocar tecnologia em cena: esse universo visual ajuda a construir o mundo em que o protagonista vive, cada vez mais mediado por celulares, imagens digitais e pela presença constante de uma inteligência artificial.

Continua após a publicidade

Não tenho a pretensão de transformar estas impressões numa crítica teatral. Fui assistir a uma peça, me diverti, fui impactado por algumas de suas perguntas e reconheci ali questões que, em maior ou menor medida, talvez sejam familiares a muita gente. Afinal, passamos por uma experiência coletiva de afastamento cujas consequências ainda estamos compreendendo. E talvez a graça de Apocalip-se esteja também nisso: rir da nossa condição um tanto complicada enquanto tentamos descobrir, mais uma vez, como estar juntos.

O fim, agora, está mesmo próximo. Mas ainda dá tempo.

Continua após a publicidade

Serviço

Espetáculo “Apocalip-se”
Teatro Poeira — Rua São João Batista, 104, Botafogo
Sexta-feira (28) e sábado (29): 20h
Domingo (30): 19h — última apresentação
Ingressos: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia-entrada)

*Daniel Sampaio é advogado, ativista do patrimônio cultural e criador de conteúdo. Fundou o Instagram @RioAntigo em 2012 e a ONG Instituto Rio Antigo em 2022.



Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/coluna/daniel-sampaio/espetaculo-apocalipse-teatro-poeira/

Compartilhe este artigo
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *