Peixe antes desprezado vira fonte de renda para mulheres da pesca em Magé

Boletim RJ
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A ubarana virou iguaria na Cozinha das Caranguejeiras, em Magé. Foto: Rodrigo Campanário/Divulgação

Um peixe antes pouco valorizado comercialmente passou a gerar renda para mulheres da pesca em Magé, na Baixada Fluminense. Na Cozinha das Caranguejeiras, a ubarana é transformada em pratos como estrogonofe, escondidinho, almôndegas, bolinhos, coxinhas, croquetes, quibes e risoles.

A iniciativa funciona na sede da Associação de Caranguejeiros e Amigos dos Mangues de Magé (ACAMM), na região do Rio Suruí, no recôncavo da Baía de Guanabara. Atualmente, 15 mulheres participam diretamente das atividades em sistema de rodízio e recebem parte do valor obtido com a venda dos pratos. Ao todo, 24 famílias são atendidas pelo projeto.

As receitas são comercializadas por encomenda e durante almoços voltados a moradores, turistas, pesquisadores, estudantes e representantes de empresas. Além da alimentação, os encontros apresentam aos visitantes a história da comunidade e o trabalho de preservação dos manguezais.

Pescadora por 40 anos e hoje secretária da ACAMM, Márcia Regina conta que a cozinha também se tornou um espaço de convivência e apoio entre as participantes.

“São pratos feitos com ubarana e assim temos ajudado 15 famílias. As mulheres, às vezes com depressão, vão para a cozinha e acabam ficando boas. Porque, juntas, a gente começa a conversar, contar casos, histórias e problemas nossos. Uma ajudando a outra. Acaba sendo uma ação social dentro da Cozinha. Tem sido muito bom e ainda gera renda”, afirma.

Conhecimento tradicional valoriza o pescado
Encontrada em ambientes costeiros, estuários e manguezais da Baía de Guanabara, a ubarana tem muitas espinhas finas e espalhadas. Essa característica dificulta o preparo em filés e reduz a procura pelo pescado.

As mulheres da comunidade, no entanto, já dominavam uma técnica tradicional de processamento da carne, transmitida entre gerações. O conhecimento, antes aplicado principalmente ao consumo das próprias famílias, passou a ser usado na produção dos pratos vendidos pela associação.

Segundo o presidente da ACAMM, Rafael Santos, as receitas foram desenvolvidas coletivamente, com cada participante levando para a cozinha experiências testadas em casa.

“Foi uma organização delas mesmas dentro do território, cada uma trazendo ao produto um pouco da sua própria casa. ‘Olha, testei um estrogonofe na minha casa e deu certo’, ‘testei uma coxinha de ubarana e deu certo’. Foram juntando esse conhecimento e trouxeram à tona o valor da ubarana”, relata.

A Cozinha das Caranguejeiras conseguiu seu primeiro espaço físico provisório em 2021, após a aprovação de um projeto pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio). Em 2024, a iniciativa foi transferida para uma área maior na sede da ACAMM.

Renda aliada à preservação ambiental
O trabalho desenvolvido pela associação também inclui ações de limpeza e replantio do manguezal. Desde janeiro, pescadores artesanais e catadores de caranguejos retiraram 12.622 quilos de resíduos do Rio Suruí e de suas margens por meio da Operação LimpaOca, realizada pela ONG Guardiões do Mar.

A comunidade ainda promove roteiros de turismo de base comunitária, com atividades de educação ambiental, observação da fauna e da flora e passeios pelo Rio Suruí e pela Baía de Guanabara.

A Cozinha das Caranguejeiras e a ACAMM recebem apoio do Projeto Andadas Ecológicas, desenvolvido pela Guardiões do Mar em parceria com a Petrobras. A iniciativa contempla ações de educação ambiental, limpeza de rios e manguezais e pagamento por serviços ambientais.

Com informações da Agência Brasil.

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