O tesoureiro ladrão de Collor, PC Farias, estava escondido em Londres. Ano de 1993. Eu era correspondente do Jornal do Brasil. Descobri o endereço do foragido, em Maida Vale, no mesmo dia em que a TV Globo transmitiria entrevista de Roberto Cabrini com PC. É a primeira vez que conto essa história.
Para gáudio de Alexandre de Moraes, também revelarei minha fonte. Mas ele já morreu. Foi o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, diplomata de lisura incontestável.
Nenhum juiz, na época, exigiu que eu quebrasse o sigilo da fonte. Sabíamos, desde 1988, que apreender instrumentos de trabalho de um repórter era inconstitucional. Eram bloquinhos de anotações.
Que loucura seria se um juiz do STF fosse autorizado a nos pressionar a revelar os bastidores de reportagens investigativas.
Existe o certo e o errado. Se um jornalista ou blogueiro recebe grana de uma fonte para divulgar uma informação, isso se chama suborno. Se divulga algo não checado e depois se configura inverdade, pode ser processado por calúnia. Se persegue alvos por má fé, sem base em fatos, precisa ser denunciado.
Há circunstâncias, porém, em que um repórter mais ousado se aventura além do que ensinam as faculdades de jornalismo, assumindo até risco de morrer. O objetivo é levar a público uma informação que ajude a Justiça a agir. Estabelecer a clareza onde há confusão. Desmascarar versões mentirosas ou ambíguas dos fora-da-lei.
Na madrugada de 21 de outubro de 1993, recebi em Londres uma ligação do saudoso e competente Xexéo. “Ruth, a Globo vai exibir hoje entrevista com PC Farias. Descubra onde ele está”. Por onde começar? Telefonei para minha melhor fonte. Joguei verde: “Paulo Tarso, me disseram que a embaixada sabe onde o PC está”. Minutos depois, ele me ligou com “um possível endereço”. Pressionara um fotógrafo da embaixada.
Cheguei cedo ao prédio, sem porteiro, com código para entrar no hall. Tudo deserto. Ao sair um morador, fui direto para a mesa de correspondências de moradores. Várias cartas endereçadas a P Cavalcante Farias.
Nem acreditei. Enfiei tudo na bolsa. Começaram a chegar jornalistas. Eu fazia cara de paisagem quando me perguntavam algo. O dia todo de plantão ali. Nosso personagem não apareceu.
Abri as cartas no banheiro do hall. Os remetentes eram os advogados britânicos de PC. Detalhando gastos e roteiro de fuga do Brasil. Saindo de Antigua, paraíso fiscal no Caribe. Havia despesas com avião, táxis, hotéis, detetives, instruções para conseguir status de imigrante.
Sem celular nem internet, pedi, do orelhão, a um então namorado que passasse ali para pegar as cartas e enviar por fax aos editores. “Ruth, não podemos publicar porque você cometeu um crime, de violação de correspondência. Pode ser presa”. Eu quase implorei. Me deixa ser processada. Publiquem que o jornal teve acesso às cartas.
Assim foi. Fac-símile na capa do JB. Os advogados do bandido abriram ação contra mim. Arquivada sem provas. Ainda bem que prescreveu. É salutar discutir o que é ético ou não no jornalismo. Acho que fiz o que tinha que ser feito.
Muito mais poderia ser contado aqui. PC usava o codinome Mr Kanaoni. Um “príncipe árabe”. Vinha da Bélgica para comprar castelos, exigia limusines fechadas, celulares, e preferia motoristas ingleses a portugueses ou espanhóis. Foi preso na Tailândia.
Recomendo que leiam “O tesoureiro”, o saboroso livro de Xico Sá, então repórter da Folha de S Paulo, que descobriu antes de todos onde estava PC. Está em pré-venda e nas livrarias na próxima semana. Xico relata bastidores da caçada internacional e discorre sobre a morte misteriosa do vilão e de sua namorada, Suzana Marcolino, na praia alagoana de Guaxuma, em 1996, com balas no peito.
A perícia inicial atestou crime passional seguido de suicídio. Uma versão mirabolante pra inglês ver.
