Moeda própria, ônibus grátis e renda básica: conheça o modelo criado por Maricá

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Imagine morar em uma cidade que possui uma moeda própria, utilizada para pagar benefícios sociais e fazer compras no comércio local, enquanto os ônibus municipais, as vans públicas e as bicicletas compartilhadas podem ser usados gratuitamente.

Esse modelo existe em Maricá, município da Região Metropolitana localizado a cerca de 60 quilômetros da cidade do Rio de Janeiro. Com uma população estimada em 212.470 habitantes, a cidade abriga uma das experiências de moeda social mais antigas, abrangentes e financeiramente relevantes do Brasil: a Mumbuca.

Criada em 2013, a Moeda Social Mumbuca completou 13 anos em junho de 2026. Ao longo desse período, deixou de ser um benefício restrito a um pequeno grupo de famílias para se transformar em uma das principais engrenagens das políticas de transferência de renda e fortalecimento da economia local de Maricá.

Os números ajudam a mostrar a dimensão do programa. Dados recentes da Prefeitura apontam mais de 31 mil famílias e mais de 71 mil beneficiários ativos. Isso significa que aproximadamente um em cada três moradores da cidade está atualmente ligado à Renda Básica de Cidadania paga em Mumbuca.

O que é a Moeda Social Mumbuca?

Apesar de ser frequentemente chamada de “moeda própria de Maricá”, a Mumbuca não substitui o real e não é uma criptomoeda. Trata-se de uma moeda social digital, com circulação local e paridade com a moeda nacional. Na prática, uma Mumbuca equivale a R$ 1.

O valor é depositado em uma conta digital e pode ser utilizado por meio do aplicativo oficial ou de um cartão físico nos estabelecimentos credenciados dentro do município. A circulação restrita é justamente uma das características centrais do programa: o dinheiro distribuído às famílias permanece em Maricá, movimentando mercados, farmácias, padarias, lojas, prestadores de serviços e pequenos negócios.

A moeda também integra um modelo de economia solidária. Em vez de apenas transferir renda, a política busca fazer com que o recurso passe pelas famílias, chegue aos comerciantes e continue circulando dentro da própria cidade.

Como a Mumbuca começou?

A moeda foi instituída pela Lei Municipal nº 2.448, de 26 de junho de 2013, que criou o Programa Municipal de Economia Solidária, Combate à Pobreza e Desenvolvimento Econômico e Social de Maricá.

A iniciativa foi inspirada na experiência do Banco Palmas, criado em 1998 no Conjunto Palmeiras, em Fortaleza. O Banco Palmas é considerado o primeiro banco comunitário brasileiro e deu origem à primeira moeda social do país. A diferença é que aquela experiência nasceu para atender uma comunidade de aproximadamente 30 mil habitantes, enquanto a Mumbuca avançou para uma operação municipal, cobrindo diferentes bairros e programas públicos de Maricá.

Maricá também foi apontada como a primeira cidade brasileira a adotar uma moeda social inteiramente digital, sem depender da circulação de cédulas de papel.

O nome Mumbuca é uma referência ao rio e ao bairro de mesmo nome. Nos primeiros estudos, chegou a ser considerada a criação de notas físicas ilustradas com espécies de peixes encontradas na região, mas o município optou pelo sistema eletrônico.

Quanto cada beneficiário recebe?

Atualmente, cada pessoa do núcleo familiar incluída na Renda Básica de Cidadania recebe mensalmente 230 Mumbucas, equivalentes a R$ 230.

O pagamento é individual, embora a movimentação possa ser concentrada na conta do responsável familiar. Assim, uma família com quatro integrantes incluídos no programa pode receber 920 Mumbucas por mês.

Para ter acesso ao benefício, é necessário estar inscrito e com os dados atualizados no Cadastro Único em Maricá, possuir renda familiar mensal dentro dos critérios do programa e atender às exigências de residência no município. A Prefeitura informa que o RBC é destinado a famílias com renda mensal de até três salários mínimos.

Além da Renda Básica de Cidadania, a Mumbuca é utilizada no pagamento de outros programas, como o Auxílio Cuidar, o Mumbuca Indígena, o Recomeçar sem Violência, benefícios destinados a trabalhadores e auxílios municipais específicos.

Mais de R$ 16 milhões podem entrar na economia todos os meses

Considerando uma base superior a 71 mil beneficiários e o pagamento de 230 Mumbucas por pessoa, a Renda Básica representa uma injeção mensal estimada em mais de R$ 16,3 milhões no comércio e nos serviços de Maricá.

O cálculo é compatível com um pagamento realizado em outubro de 2025, quando foram depositadas aproximadamente 16,5 milhões de Mumbucas aos participantes da Renda Básica de Cidadania e do Mumbuca Indígena.

Como o benefício deve ser movimentado dentro do município, a proposta é gerar um efeito multiplicador. O recurso pode ser usado por uma família em um mercado, pelo comerciante junto a um fornecedor local e, posteriormente, por esse fornecedor em outro estabelecimento da cidade.

Mumbuca já movimentou cerca de R$ 3 bilhões

O último acumulado financeiro amplo divulgado pelo município informa que aproximadamente R$ 3 bilhões foram movimentados pela Mumbuca entre 2018 e 2024.

Naquele levantamento, a Prefeitura também afirmou que cerca de 20% da economia local passava de alguma forma pela moeda social. A estrutura contava com aproximadamente 133 mil usuários ou contas vinculadas ao sistema, incluindo beneficiários, comerciantes e prestadores de serviços. Desse total, cerca de 16 mil eram empreendimentos cadastrados.

Os dados são anteriores à troca da plataforma digital realizada em 2025. Durante a migração, aproximadamente sete mil comerciantes já haviam aderido ao novo sistema até outubro daquele ano. Por isso, o número de empreendimentos com contas históricas não deve ser confundido com a quantidade que já havia concluído a migração naquele momento.

Por que aparecem números diferentes sobre a Mumbuca?

Ao pesquisar a dimensão da Mumbuca, é possível encontrar números que variam entre 71 mil, 91 mil, 93 mil e 133 mil usuários. Isso acontece porque os levantamentos foram realizados em períodos diferentes e consideram grupos distintos.

Em 2023, a Prefeitura ampliou a Renda Básica de Cidadania de 42.897 para 91.487 moradores cadastrados. Pesquisas da Universidade Federal Fluminense também passaram a utilizar uma base próxima de 93 mil participantes do RBC.

Já o número de 133 mil divulgado em 2024 incluía uma estrutura mais ampla, reunindo beneficiários de diferentes programas, usuários, comerciantes e prestadores de serviços.

Em 2025, o município iniciou uma revisão dos cadastros e, posteriormente, um recadastramento domiciliar seguindo orientações do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro. Os dados mais recentes dessa etapa apontam mais de 31 mil famílias e mais de 71 mil beneficiários.

Portanto, para retratar o cenário atual, a base superior a 71 mil pessoas é a referência oficial mais recente localizada. Os números acima de 90 mil ajudam a compreender o tamanho alcançado pela expansão anterior do programa.

Mumbuca é a maior moeda social do Brasil?

A resposta depende do critério utilizado. Quando são considerados o tempo de funcionamento, o volume financeiro acumulado, a integração com diferentes programas municipais e o número de pessoas e estabelecimentos que já passaram pelo sistema, a Mumbuca aparece entre as maiores e mais estruturadas experiências de moeda social do país.

Porém, outras cidades já possuem programas com números elevados de famílias atendidas.

Comparação entre moedas sociais brasileiras

Moeda socialCidadeDimensão mais recente localizadaRede comercialMovimentação ou investimento
MumbucaMaricáMais de 31 mil famílias e 71 mil pessoasCerca de 16 mil empreendimentos na base divulgada em 2024Aproximadamente R$ 3 bilhões entre 2018 e 2024
ArariboiaNiteróiMais de 54 mil famíliasMais de 8 mil comérciosMais de R$ 500 milhões em três anos; quase R$ 300 milhões anuais
MacaíbaMacaé15.746 famílias e 31.190 pessoas1.836 comérciosPrevisão de R$ 62 milhões em 2025
Pedra BonitaItaboraíCerca de 5 mil famíliasMais de 500 estabelecimentosAcumulado recente não informado
SaquáSaquaremaNúmero consolidado recente não localizadoDado recente não localizadoBenefício básico elevado para 400 moedas em junho de 2026
PalmasFortalezaExperiência comunitária criada em bairro de cerca de 30 mil moradoresModelo comunitárioPioneira brasileira, criada em 1998

Os números não permitem uma comparação totalmente direta. A Arariboia, por exemplo, divulga a quantidade de famílias, enquanto a Mumbuca paga um valor individual para cada integrante incluído no núcleo familiar. Além disso, cada programa possui critérios, valores, fontes de financiamento e formatos diferentes.

Arariboia tem mais famílias; Mumbuca tem maior histórico acumulado

A Moeda Social Arariboia, criada por Niterói em 2021, atende mais de 54 mil famílias e é aceita em mais de oito mil estabelecimentos. A Prefeitura de Niterói informa que o programa já movimentou mais de R$ 500 milhões em três anos e recebe investimento anual próximo de R$ 300 milhões.

Em quantidade de famílias, a Arariboia aparece atualmente acima da base de 31 mil famílias divulgada por Maricá. Entretanto, a comparação muda quando são observados o número de pessoas, o tempo de funcionamento e o volume acumulado.

A Mumbuca existe desde 2013, paga o benefício por pessoa do núcleo familiar e já apresentou movimentação acumulada de aproximadamente R$ 3 bilhões somente entre 2018 e 2024.

Macaíba movimentou dezenas de milhões em Macaé

Criada mais recentemente, a Moeda Social Macaíba atende 15.746 famílias, somando 31.190 pessoas, e pode ser utilizada em 1.836 estabelecimentos cadastrados em Macaé.

Para 2025, a previsão oficial era distribuir aproximadamente R$ 62 milhões. No primeiro ano do programa, em 2024, o investimento informado foi de quase R$ 74 milhões.

A Macaíba possui valores diferenciados conforme a composição familiar. O responsável e o cônjuge recebem uma quantia, enquanto dependentes e pessoas com deficiência podem ter valores adicionais.

Em Itaboraí, a Moeda Social Pedra Bonita iniciou sua primeira fase com aproximadamente cinco mil famílias e mais de 500 estabelecimentos comerciais cadastrados.

Assim como a Mumbuca, a proposta é garantir segurança alimentar e fazer com que os recursos distribuídos permaneçam circulando no próprio município.

Saquarema aumentou a Saquá para R$ 400

Saquarema também possui uma moeda local, a Saquá. O programa foi criado com um benefício básico de R$ 300, com adicionais para determinados públicos.

Em junho de 2026, uma nova lei municipal elevou o valor da Renda Básica da Cidadania para 400 moedas sociais, equivalentes a R$ 400. Nos dados públicos consultados, porém, não foi localizado um número recente e consolidado de beneficiários e estabelecimentos que permita comparar sua escala diretamente com Maricá, Niterói e Macaé.

Pesquisas apontam aumento da renda sem redução do trabalho

Um dos principais questionamentos sobre programas de transferência de renda é se o pagamento permanente poderia desestimular as pessoas a trabalhar.

Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal Fluminense em parceria com o Jain Family Institute acompanhou mais de três mil participantes do programa de Maricá. Os resultados apontaram aumento da renda e do consumo das famílias, sem redução significativa das horas trabalhadas.

Os efeitos foram mais pronunciados entre famílias chefiadas por mulheres e núcleos familiares com crianças. O estudo também identificou crescimento do emprego formal em Maricá acima do observado em municípios considerados semelhantes.

Outro estudo publicado na Revista Econômica da UFF analisou o mercado formal de trabalho entre 2018 e 2022. Os pesquisadores concluíram que Maricá teve desempenho superior ao restante do Estado do Rio antes e depois da pandemia.

O trabalho, entretanto, não conseguiu afirmar que a ampliação emergencial dos programas durante a pandemia tenha gerado um efeito adicional isolado sobre os empregos. Isso não descarta benefícios em áreas como renda, consumo, segurança alimentar e bem-estar, mas mostra a dificuldade de separar o efeito da Mumbuca de outras políticas implantadas simultaneamente.

Ônibus, vans e bicicletas também são gratuitos

A Mumbuca não funciona de maneira isolada. Ela integra um conjunto de políticas públicas financiadas e operadas pelo município, entre elas o transporte Tarifa Zero.

Os ônibus conhecidos como Vermelhinhos realizam atualmente mais de 3,5 milhões de deslocamentos por mês. A Prefeitura classifica a estrutura como a maior operação municipal de transporte público gratuito do Brasil.

Desde janeiro de 2026, as vans municipais também passaram a operar sem cobrança de passagem. Em março, o sistema contava com 59 veículos distribuídos em 24 linhas, atendendo áreas nas quais os ônibus possuem maior dificuldade de circulação.

A cidade ainda oferece o sistema de bicicletas compartilhadas Vermelhinhas, que possui quase 350 mil usuários cadastrados e registrou mais de 220 mil acessos em 2025.

A lógica é semelhante à utilizada na moeda social: reduzir despesas essenciais das famílias e permitir que uma parte maior da renda permaneça disponível para alimentação, medicamentos, serviços e consumo no comércio local.

Royalties ajudaram a financiar a expansão

A expansão das políticas sociais de Maricá está relacionada ao grande volume de royalties e participações especiais recebidos pela exploração de petróleo na Bacia de Santos.

Esses recursos permitiram ao município ampliar a Renda Básica, financiar programas de proteção aos trabalhadores e manter serviços como o transporte gratuito. Estudos sobre o modelo destacam, no entanto, que a cidade precisa transformar receitas temporárias do petróleo em estruturas econômicas e fundos capazes de sustentar as políticas no longo prazo.

A própria Prefeitura já informou que pretende utilizar rendimentos do Fundo Soberano de Maricá para ajudar a garantir a continuidade dessas políticas quando as receitas petrolíferas diminuírem.

Desafios para o futuro da Mumbuca

Depois de 13 anos, a Mumbuca enfrenta desafios diferentes daqueles do início do programa.

Um deles é garantir que os cadastros estejam atualizados e que o benefício chegue apenas às famílias que atendem aos critérios. O recadastramento domiciliar iniciado em dezembro de 2025 busca verificar a residência dos participantes, atualizar informações sociais e cumprir orientações do Tribunal de Contas do Estado.

Outro desafio é manter uma plataforma digital estável, acessível e segura. A migração realizada em 2025 exigiu mutirões para atender beneficiários e comerciantes, especialmente moradores que tinham dificuldades para utilizar o novo aplicativo.

Também será necessário divulgar dados periódicos seguindo uma metodologia uniforme. Atualmente, as estatísticas públicas misturam contas abertas, usuários, famílias, beneficiários individuais, comerciantes cadastrados e estabelecimentos ativos, o que dificulta comparações ao longo do tempo.

Uma experiência que ultrapassou as fronteiras de Maricá

A Mumbuca não foi a primeira moeda social brasileira, mas levou esse modelo a uma dimensão municipal pouco comum.

Ao combinar transferência de renda, circulação local do dinheiro, banco comunitário, apoio a pequenos negócios e transporte gratuito, Maricá criou um sistema que passou a ser observado por pesquisadores brasileiros e estrangeiros.

Os dados indicam que a Mumbuca movimentou bilhões de reais, alcançou dezenas de milhares de famílias e se tornou parte do cotidiano da cidade. Ao mesmo tempo, revisões cadastrais, mudanças tecnológicas e a dependência histórica dos recursos do petróleo mostram que a continuidade do programa depende de transparência, planejamento e sustentabilidade financeira.

Mais do que uma moeda com outro nome, a Mumbuca funciona como uma ferramenta de política pública: o recurso chega às famílias, permanece no município e ajuda a movimentar o comércio de Maricá.



Com informações da fonte
https://maricainfo.com/marica/moeda-propria-onibus-gratis-e-renda-basica-conheca-o-modelo-criado-por-marica/

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