A repressão ao crime organizado em São Paulo tem se especializado numa estratégia que deveria servir de modelo ao restante do país. Forças-tarefas centram seus esforços em inteligência financeira para seguir os passos dos recursos obtidos pelo crime, identificar como se espalham pela economia e desbaratar sistemas usados em lavagem de dinheiro e suborno policial. O último exemplo é a operação desfechada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público paulista, na terça-feira, contra um grupo suspeito de atuar em favor do Primeiro Comando da Capital (PCC) e de participar dos chamados tribunais do crime. Nos relatórios da Promotoria, coronéis da PM paulista foram citados por suposta ligação com os investigados.
Nas mensagens encontradas pelos investigadores, os suspeitos falam abertamente em “troca de TED por vivo”. O dinheiro do crime, “o vivo”, era entregue ao grupo, que retornava com transferências bancárias usando empresas de fachada para dar aparência lícita às operações. Uma cabeleireira aparece como dona de uma companhia de importação e exportação de produtos, e uma moradora de conjunto habitacional na Região Metropolitana de São Paulo como dona de empresa de e-commerce com faturamento acima do plausível.
Mirar nas estruturas de lavagem de dinheiro e de subornos, como faz o Gaeco, tem potencial muito maior de causar prejuízos e transtornos às facções. Quando a repressão se resume aos criminosos no varejo das drogas, o número de prisões pode aumentar, mas os sistemas que permitem o fluxo do dinheiro e a corrupção policial seguem intactos. Os “soldados” do crime são substituídos rapidamente, e tudo segue igual. É preciso atuar nas duas pontas.
Dois suspeitos, Meire Poza e Leonardo Meirelles, nomes conhecidos na Operação Lava-Jato, foram também investigados em março, em ação de uma força-tarefa do Gaeco, da Polícia Federal e da Corregedoria Geral que apura esquema de corrupção na Polícia Civil de São Paulo. Policiais são suspeitos de obstruir investigações ou deflagrar ações em troca de dinheiro. Como fica demonstrado, os problemas da segurança pública em São Paulo vão além do aumento de mortes em intervenções policiais.
No material recolhido pelos investigadores para a operação desta semana, há registros em que aparecem os coronéis da PM paulista Luiz Carlos Pereira Martins e José Augusto Coutinho, ex-comandante-geral e ex-chefe da Rota, que foi para a reserva em abril, após investigação sobre policiais que trabalhavam para empresa de ônibus ligada ao PCC. A suspeita é que os dois mantinham relação próxima com operadores do esquema.
Não há como barrar o crescimento das facções sem investigar indícios de irregularidades ou crimes por parte de policiais e desmontar os sistemas financeiros usados para dissimular a origem ilícita dos lucros do crime. Por isso a estratégia usada em São Paulo e outros estados deve ser copiada. Além de montar forças-tarefas, é necessária uma mudança de cultura. A métrica para avaliar avanços não pode ser apenas o número de presos ou de drogas apreendidas, mas a quantidade de esquemas de lavagem de dinheiro desbaratados.

