Uma influente igreja protestante não autorizada pelo governo chinês denunciou que policiais armados interromperam um culto no sudoeste da China, detiveram dois de seus líderes e levaram dezenas de fiéis para interrogatório. O episódio, segundo a congregação Early Rain Covenant, ocorreu neste domingo, em Jiangyou, e envolveu inclusive crianças e idosos submetidos à verificação de identidade.
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De acordo com a igreja, a operação aconteceu por volta das 11h, no horário local, quando agentes invadiram o local onde a celebração era realizada. A congregação integra o grupo das chamadas “igrejas domésticas”, organizações cristãs que atuam fora das instituições oficialmente reconhecidas pelo Estado chinês.
Segundo o relato divulgado pela Early Rain Covenant por meio do Telegram, os líderes Yan Hong e Wu Wuqing foram detidos pelas autoridades e permaneciam sob custódia até a última atualização divulgada pela igreja. Os motivos das detenções não foram informados.
As autoridades chinesas não comentaram o caso nem responderam às alegações apresentadas pela congregação, segundo a BBC.
A igreja publicou fotografias e vídeos que mostram fiéis reunidos em um salão de hotel, cercados por agentes, incluindo integrantes da Swat. Membros da comunidade estimaram que ao menos 50 policiais participaram da ação.
Segundo a Early Rain Covenant, mais de 30 líderes e participantes do culto foram “levados à força em vários veículos policiais” até o centro de detenção de Jiangyou, onde passaram por interrogatórios.
A congregação afirmou que, mesmo durante a detenção, os fiéis mantiveram momentos de comunhão, entoaram hinos e fizeram orações. A maioria acabou sendo libertada ao longo do domingo.
Enquanto parte do grupo era interrogada, idosos e crianças que permaneciam no local do culto foram submetidos a procedimentos de identificação, segundo a igreja.
Vídeos divulgados pela congregação mostram participantes cantando enquanto um homem à paisana sobe ao palco e ordena repetidamente que os presentes interrompam a atividade.
A Early Rain Covenant também alegou que policiais tentaram obter assinaturas dos participantes em troca da libertação. Segundo a igreja, os agentes não explicaram o conteúdo do documento apresentado, e os fiéis se recusaram a assiná-lo.
Os participantes retidos no salão teriam sido liberados por volta das 18h. Já os demais levados para interrogatório deixaram o centro de detenção entre 21h e 23h do domingo. Apenas Yan Hong e Wu Wuqing continuavam detidos.
Igreja é alvo recorrente de ações das autoridades
Os dois líderes já haviam sido alvo de medidas semelhantes anteriormente. Segundo a congregação, ambos foram convocados pela polícia em janeiro para prestar esclarecimentos sob suspeita de “provocar desordem e criar problemas”.
Fundada em 2008, em Chengdu, a Early Rain Covenant tornou-se uma das mais conhecidas igrejas domésticas da China e vem sendo monitorada há anos pelas autoridades ligadas ao Partido Comunista Chinês.
O caso mais emblemático envolvendo a congregação ocorreu em dezembro de 2018, quando o pastor fundador Wang Yi foi preso durante uma grande operação policial. Posteriormente, ele foi condenado a nove anos de prisão pelos crimes de “incitação à subversão do poder do Estado” e “operações comerciais ilegais”.
Embora as autoridades chinesas tenham informado, em 2018, que havia cerca de 44 milhões de cristãos no país, não está claro se esse número inclui frequentadores de igrejas não registradas oficialmente.
Na China, grupos cristãos são incentivados a frequentar templos autorizados pelo Estado e liderados por pastores aprovados pelo governo. Ainda assim, ao longo dos anos, muitos fiéis passaram a participar das chamadas igrejas domésticas.
Organizações ligadas à defesa da liberdade religiosa afirmam que o controle estatal sobre essas comunidades se intensificou nos últimos anos, tornando as detenções mais frequentes.
— A operação de domingo é mais um forte lembrete de que o Partido Comunista Chinês continua tratando o culto cristão pacífico como uma ameaça ao controle do Estado — afirmou Bob Fu, fundador da ChinaAid, organização dedicada ao monitoramento da perseguição religiosa na China.
O episódio se soma a outros casos recentes envolvendo igrejas clandestinas no país. Segundo a BBC, 30 líderes da Zion Church, uma das maiores congregações não registradas da China, foram detidos em outubro do ano passado em operações realizadas em sete cidades diferentes. O fundador da igreja, Ezra Jin, continua preso.

