Setembro de 1975.
Celulares, redes sociais, e todas essas modernidades da comunicação de hoje não eram nem sonhadas. Saibam, os mais jovens, que naquela época não existiam nem as hoje corriqueiras DDD e, claro, as DDI. Todos os telefones eram fixos e poucos. Nem todas as cidades tinham telefonia, e as que tinham eram servidas por poucos aparelhos, lançados como bens valiosos nas declarações dos impostos de renda das pessoas físicas.
Havia pouco tempo a minha pequena cidade, São Bento do Una (PE), entrara na telefonia e era atendida por apenas 100 aparelhos, cujos números iam de 01 a 00. O telefone da casa de minha mãe era 86.
Sim, apenas dois números.
As ligações interurbanas eram solicitadas, ou recebidas, através de uma central da companhia telefônica, pois — já disse — não existia a tecnologia do DDD.
Pois bem, estava eu, em missão de trabalho, em Houston, Texas, há umas três semanas quando, na solidão de um final de semana, resolvi ligar para minha mãe. Repousando no quarto, usando o meu péssimo inglês consegui pedir a telefonista do hotel que completasse a ligação.
Poucos minutos depois, o telefone tocou e eu, estranhando a rapidez da operação, atendi. Era a telefonista querendo confirmar o número a ser chamado. Ela entendeu ser Brasil, entendeu a cidade São Bento do Una, mas insistia que faltavam algarismos no número do telefone. Depois de muita conversa atabalhoada, numa mistura de inglês, espanhol, portunhol e texano (sim, porque no Texas se fala um inglês tão peculiar que merece nome próprio), resolvi descer até a cabine da telefonista para, pessoalmente, tentar me fazer entender. Deu certo.
Aceitando que o número era apenas “eighty six”, ou seja, o nosso 86, inteligentemente, ela pediu para que eu ficasse próximo para ajudá-la, se houvesse dificuldade linguística. Rapidamente a ligação foi feita para a central do Rio de Janeiro, que imediatamente a transferiu para Recife e dali para a desejada central de São Bento do Una. Foi aí que ouvi uma voz masculina com um sotaque muito familiar, dizer:
“Ôxi, fale direito dona. Num tô entendendo porra nenhuma!”
Rapidamente tomei o microfone da mão da telefonista, que retirou os seus fones dos ouvidos e os colocou nos meus. Então, tomei a palavra e expliquei que era uma ligação internacional para o número 86, residência de dona Giselda Valença. Foi o bastante para o operador desembestar:
“Oxi, num é que é Alfeuzinho! Tu num tá me reconhecendo? Sou Joceldo, teu primo, filho de Isaura e Joaquim Gordo. Agora tô com esse emprego aqui, mas nunca recebi ligação de gringo nenhum, por isso me enrolei. Mas, me diga, tu tá fazendo o que nas estranja? Me disseram que tu tava morando em Aracaju, como diabo tu aparece agora noutro país? Tu tá sozinho ou Lucélia foi com tu?”
Preocupado com o custo da ligação internacional, interrompi a fala dele:
“Oi, Joceldo, é um prazer falar contigo, mas essa ligação é em dólar, é muito cara. Depois eu te contarei tudo, mas agora passe a linha pra minha mãe, por favor”.
“Tu és besta, Alfeuzinho, depois eu faço a ligação pra tua mãe, me conte da tua vida senão o povo daqui não vai acreditar que eu atendi uma chamada de outro país, é a primeira vez que isso acontece. Me diga, rapaz, tu tá ganhando em dólar? Dizem que vale muito. E onde tu aprendeu inglês, que aqui ninguém sabe
falar? Acho que tu deves se lembrar da dificuldade que a gente tinha pra entender aqueles moços americanos da Aliança para o Progresso que vieram aqui doar leite em pó? Lembra? Eram uns que andavam de tênis e calças jeans? Ah, se puder mande uns postais daí, que faço coleção”.
“Joceldo, por favor, faça a ligação!”
Irritado, gritei tão alto que a telefonista do hotel gesticulou pra que eu baixasse o tom. Minha grossura funcionou. Joceldo completou a bendita ligação. Minha mãe atendeu e conversamos muito pouco tempo
porque a linha logo caiu, e não conseguimos refazê-la. Tempos depois, Joceldo jurou que não foi ele que, com raiva, desligou. Até hoje duvido.
Gastei uma fortuna, falei pouco, mas graças a indiscrição do meu primo operador de telefonia, toda a cidade ficou sabendo onde eu estava e tudo o que conversei com minha mãe.
Com informações da fonte
https://temporealrj.com/from-houston-to-sao-bento-do-una/

