Se você nunca leu nada do romancista chileno Alejandro Zambra, e está cansado de romances esnobes, complicados e misteriosos, onde o final só é revelado no último parágrafo, vou sugerir que leia o romance Bonsai escrito e publicado por ele em 2006, mas com um sabor atemporal. Recomendo para jovens iniciantes, para adultos amantes da boa literatura e pra os velhos acostumados aos clássicos. Sem receio de errar, afirmo que todos chegarão ao final desse pequeno livro (90 páginas com uma diagramação que poderia ser reduzida para 40 ou 50, publicado pela editora Cosac Naify, com tradução impecável de Josely Vianna Batista), procurando por outras obras de Zambra. Duvido que não façam isso.
O livro é uma daquelas histórias curtinhas, mas que ficam ecoando na cabeça depois que você termina. A narrativa é simples na forma, tipo um bonsai mesmo: pequeno no tamanho, mas trabalhado com cuidado e cheio de detalhes.
Logo na primeira frase, surpreendentemente, Zambra entrega o final. Sem rodeios, sem suspense barato, ele revela o destino dos personagens principais: Ela morre e ele fica sozinho. E, curiosamente, ao revelar o desfecho, não mata a curiosidade do leitor, ele a desloca. A pergunta deixa de ser “o que vai acontecer?” e passa a ser “como isso vai acontecer?” É como se numa viagem a estrada fosse mais importante do que o destino final.
O título Bonsai não é à toa. O romance é curto, enxuto, quase um bonsai mesmo, podado até o essencial. Mas essa economia não é sinônimo de frieza. Pelo contrário, Zambra escreve como quem conversa com um amigo na mesa de um bar, sem afetação, com frases simples, mas com um charme enorme nessa escrita que admite suas próprias limitações, que hesita, que corrige o que acabou de dizer, que se contradiz e que, justamente por isso, soa tão humana. É uma maneira quase oral de escrever. Nada sobra, nada é exagerado. Cada frase parece pensada pra estar ali e somente ali ela se sente bem.
Ao anunciar logo de cara o destino dos personagens, ele está dizendo ao leitor: “não estou aqui para te enganar; estou aqui para te mostrar outra coisa”. E essa “outra coisa” é a descrição delicada de uma relação que nasce, cresce, se desgasta e deixa marcas. O final já está dado, mas o sentido dele só se revela no caminho.
Esse recurso também desmonta a expectativa tradicional do romance. É como assistir a um filme sabendo que o casal não vai terminar junto, mas sem conseguir tirar os olhos da tela.
A relação entre Júlio e Emília é o centro de tudo. Eles se conhecem na universidade e começam um namoro meio despretensioso, cheio de pequenas mentiras intelectualizadas, como fingir ter lido Proust. Numa metalinguagem explicita, o texto discorre muito sobre literatura, sobre leitura, sobre escrever.
Interessante é como o autor trata o amor. Não é aquele amor idealizado, cheio de grandes gestos. Pelo contrário, é um amor meio torto, feito de momentos pequenos, silêncios, inseguranças e até desencontros. E isso deixa tudo mais verdadeiro. A gente sente mais realidade do que ficção.
No fim das contas, Bonsai é uma celebração da simplicidade, da literatura que não precisa de excessos para ser profunda. Não é uma leitura pesada, mas também não é superficial. Ele vai ficando com você aos poucos, como uma lembrança meio vaga, mas persistente. É um livro que parece simples demais à primeira vista, mas quanto mais você pensa, mais coisa encontra escondida ali dentro. O resultado é um romance que fica na cabeça por muito tempo, como aquelas conversas que mudam alguma coisa na gente sem que percebamos na hora.
Rio, 2026
Com informações da fonte
https://temporealrj.com/alessandro-zambra-bonsai-livro/

