Medicamentos agonistas de GLP-1 ganharam fama pela perda de peso, mas seu papel vai além da balança. Estudos mostram redução de eventos cardiovasculares em pacientes selecionados, incluindo infarto e AVC – desde que usados com indicação correta e acompanhamento médico
Os agonistas de GLP-1 mudaram a forma de tratar obesidade e diabetes tipo 2. Inicialmente reconhecidos pelo efeito no controle da glicose e na redução do peso, esses medicamentos passaram a ocupar um espaço cada vez mais importante na cardiologia.
O motivo é claro: em pacientes de maior risco, especialmente aqueles com obesidade, diabetes ou doença cardiovascular já estabelecida, essas terapias podem reduzir eventos graves como infarto, AVC e morte cardiovascular. O estudo SELECT, publicado no New England Journal of Medicine, mostrou que a semaglutida reduziu em 20% o risco de eventos cardiovasculares maiores em pessoas com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular prévia, mesmo sem diabetes.
Muito além da balança
O benefício cardiovascular dos agonistas de GLP-1 não parece depender apenas do emagrecimento. A perda de peso é importante, mas esses medicamentos também atuam em mecanismos ligados à inflamação, pressão arterial, metabolismo da glicose, função vascular e composição corporal.
Na prática, isso ajuda a explicar por que os efeitos observados vão além da redução do número na balança. O impacto ocorre em um conjunto de fatores que, somados, diminuem a sobrecarga sobre o coração e os vasos sanguíneos.
Em 2024, a FDA aprovou a semaglutida para reduzir o risco de morte cardiovascular, infarto e AVC em adultos com doença cardiovascular estabelecida e obesidade ou sobrepeso, consolidando essa mudança de paradigma.
O que muda para quem já tem doença cardíaca
Para pacientes que já tiveram infarto, AVC ou apresentam doença arterial estabelecida, o tratamento não se limita mais a controlar colesterol, pressão e glicose. A obesidade passou a ser reconhecida como fator de risco cardiovascular ativo, que precisa ser tratado com seriedade.
Nesse contexto, os agonistas de GLP-1 podem fazer parte da prevenção secundária, ou seja, da estratégia para evitar novos eventos em quem já tem doença cardiovascular. Isso não substitui estatinas, anti-hipertensivos, antiagregantes ou mudanças de estilo de vida, mas pode complementar o cuidado em pacientes bem selecionados.
A indicação deve considerar peso, comorbidades, histórico cardiovascular, risco metabólico e tolerância ao tratamento.
Entre entusiasmo e critério
O avanço é real, mas não deve ser banalizado. Esses medicamentos podem causar efeitos gastrointestinais, exigem acompanhamento e não são indicados para todos. Também não devem ser usados como solução estética, atalho para emagrecimento rápido ou prescrição sem avaliação clínica.
O risco atual é transformar uma ferramenta terapêutica poderosa em modismo. Quando isso acontece, perde-se o foco principal: tratar pacientes que realmente se beneficiam, com segurança e acompanhamento.
Os agonistas de GLP-1 representam uma das mudanças mais relevantes da medicina metabólica e cardiovascular recente. Mas o valor dessas terapias está justamente no uso correto – não na popularização indiscriminada.
No fim, o recado é simples: emagrecer pode ajudar o coração, mas esses medicamentos mostram que tratar a obesidade com critério é também uma estratégia cardiovascular.
Prof. Dr. Carlos Alberto Pastore – CRM/24264 | RQE 69372
Cardiologia
Livre-docente pela FMUSP
Membro Brazil Health

