Os preços não param de subir — e agora tem número pra escancarar o problema. Em março de 2026, os aluguéis avançaram 0,84%, acima da inflação, num cenário em que a oferta de imóveis para moradia encolhe enquanto cresce o número de unidades voltadas para plataformas de curta duração. Na prática, cada apartamento que vira hospedagem é um a menos para quem precisa morar — e o impacto já está sendo sentido no bolso e na rotina de quem vive na cidade.
Em entrevista exclusiva ao COISAS DA POLÍTICA, Alfredo Lopes, presidente do HotéisRio – Sindicato Patronal dos Meios de Hospedagem do Rio de Janeiro – avalia que o Rio já entrou em um ciclo preocupante de expulsão silenciosa. Bairros como Ipanema e Leblon estão na linha de frente dessa transformação, onde imóveis deixam de cumprir função social e passam a operar como ativos de alta rentabilidade. O efeito é conhecido em grandes cidades do mundo: valorização acelerada, descaracterização dos bairros e saída forçada de moradores tradicionais.
E o fenômeno não para de avançar. O que antes era concentrado na Zona Sul agora se espalha por regiões como Barra, Recreio, Jacarepaguá e até a Zona Norte, ampliando a pressão sobre toda a cidade. No meio desse embate, a regulamentação ainda caminha lentamente — enquanto o Rio enfrenta uma pergunta cada vez mais urgente: quem ainda vai conseguir morar aqui?
COISAS DA POLÍTICA – Quais os prejuízos que as plataformas de aluguel têm gerado no setor?
Alfredo Lopes – Os prejuízos atingem toda a sociedade, não apenas o setor hoteleiro, que perde receitas, ou os trabalhadores, que não são beneficiados com a geração de postos de trabalho, ou ainda o governo, que não arrecada os tributos que deveria. O uso de unidades residenciais para essa finalidade em diversas cidades turísticas mundiais, como Nova Iorque ou Barcelona, tem promovido, nos últimos anos, um processo chamado de “gentrificação”, que muitas vezes acaba com a expulsão de moradores tradicionais de bairros turísticos ou centrais, provocando uma descaracterização desses locais, por conta da valorização excessiva dos imóveis ou do aumento dos valores dos aluguéis. Isso já pode ser observado no Rio em locais como Ipanema e Leblon.
COISAS DA POLÍTICA – E qual o impacto desse movimento imobiliário na cidade do Rio?
Alfredo Lopes – A construção de prédios residenciais com dezenas (às vezes centenas) de unidades pequenas (com aproximadamente 30 metros quadrados), construídos com o objetivo de funcionar nas plataformas – e que são direcionados para pessoas interessadas em investir em imóveis para colocá-los nas plataformas – pode trazer problemas para nossa cidade. O excesso de oferta de unidades poderá gerar o risco de termos, em breve, diversos prédios com unidades vazias, sobrando, fazendo com que a cidade tenha prédios mal-conservados por falta de moradores/ locatários. Isso pode ser bem real no centro do Rio.
COISAS DA POLÍTICA – Que medidas a entidade está tomando para conter essa concorrência que classifica como desleal?
Alfredo Lopes – Estamos sempre em contato com autoridades de diversas esferas do poder público para demonstrar os problemas que essa competição desleal provoca. Há a questão tributária, pois as plataformas de vendas de hospedagens não estão sujeitas aos mesmos impostos que a hotelaria. Segundo, as plataformas também não seguem as mesmas regras sanitárias que os hotéis. Também não oferecem, nem aos clientes nem aos moradores dos edifícios residenciais nos quais atuam, condições de segurança, o que propicia a ocorrência de problemas como roubos, invasões a domicílios e pedofilia, entre outros. É importante ficar claro que não somos contra as plataformas, mas que queremos um tratamento justo e igualitário.
COISAS DA POLÍTICA – Como a entidade vê a regulamentação das plataformas na Câmara do Rio? Já não deveria ter saído?
Alfredo Lopes – A aprovação de uma regulamentação que impacte diversos setores da sociedade exige tempo e articulação, que fazem parte do processo democrático. No entanto, estamos confiantes de que os representantes públicos entendem a necessidade de aprovar uma legislação que tenha condições de estabelecer maior equilíbrio na relação com as plataformas.

