Tradicionalmente encarregada da proteção da família real britânica, a Polícia do Vale do Tâmisa desempenhou, nesta quinta-feira, um papel distinto daquele ao qual está habituada: foi a responsável pela detenção de Andrew Mountbatten-Windsor, o ex-príncipe Andrew, alvo de uma investigação que apura as relações do ex-sucessor do trono britânico com o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein.
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A corporação, que rotineiramente fornece equipes armadas e agentes montados para proteger o Castelo de Windsor e as multidões que se reúnem na cidade de Windsor, localizada a cerca de 40 quilômetros a oeste de Londres, agora conduz a investigação por suspeita de “má conduta em exercício de cargo público” contra Andrew.
À época dos fatos sob apuração, ele era conhecido como Príncipe Andrew e, desde 2003, vivia no Royal Lodge, próximo ao Castelo de Windsor. Como qualquer força policial britânica, a Polícia do Vale do Tâmisa deve investigar crimes que supostamente tenham ocorrido em sua área de jurisdição, e isso inclui o local onde o sr. Mountbatten-Windsor residia.
Foram agentes da própria corporação que efetuaram a prisão dele na manhã desta quinta-feira.
A Polícia do Vale do Tâmisa é uma das maiores forças do Reino Unido, com cerca de 5 mil agentes, segundo os dados governamentais mais recentes. Diferentemente de muitas das 43 forças policiais regionais da Inglaterra e do País de Gales — que cobrem apenas uma cidade ou condado —, a corporação é responsável por três condados: Buckinghamshire, Berkshire e Oxfordshire, que somam mais de 2,3 milhões de habitantes, em uma área superior a 5,7 mil quilômetros quadrados no Sudeste da Inglaterra.
Além do Castelo de Windsor, a área sob sua responsabilidade inclui a residência oficial conhecida como Chequers, que pertence ao primeiro-ministro e frequentemente recebe membros da realeza e dignitários internacionais.
Em setembro, quando o presidente Trump foi recebido em ambos os locais durante sua suntuosa visita de Estado, a corporação realizou uma das maiores operações de segurança protetiva da história britânica. A ação mobilizou drones, atiradores de elite, cães farejadores, cavalos e equipes marítimas.
A Polícia do Vale do Tâmisa está entre as várias forças britânicas que investigam possíveis crimes relacionados aos arquivos Epstein.
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A Polícia Metropolitana de Londres iniciou neste mês uma investigação contra um ex-ministro do governo britânico, Peter Mandelson, também em relação a possível má conduta no exercício de cargo público. A corporação conduz ainda apurações preliminares sobre acusações de que um agente de proteção não identificado teria “feito vista grossa” durante visitas à ilha privada no Caribe que pertencia ao sr. Epstein.
Já a Polícia de Surrey pediu que quaisquer testemunhas de alegações de abuso sexual infantil na década de 1990 se apresentem. Paralelamente, forças responsáveis por aeroportos utilizados pelo jato particular do sr. Epstein analisam informações contidas nos arquivos.
Em comunicado divulgado na quarta-feira, o Conselho Nacional de Chefes de Polícia do Reino Unido informou que um grupo de coordenação está apoiando as forças regionais para “buscar informações junto a agências de aplicação da lei no exterior”.
O órgão acrescentou que “a polícia e seus parceiros na aplicação da lei estão tratando este assunto com extrema seriedade e avaliarão minuciosamente todas as informações”.
A polícia voltou a realizar buscas nesta sexta-feira no Royal Lodge, no segundo dia consecutivo de operações envolvendo a investigação. Andrew ficou detido por cerca de 12 horas na quinta-feira, dia em que completou 66 anos, para prestar depoimento sobre o caso que investiga suspeita de má conduta no exercício de um cargo público.
A imprensa inglesa descreveu uma movimentação de viaturas policiais sem identificação na residência real. A rede britânica BBC noticiou ter confirmado com fontes ligadas à polícia que um trabalho de coleta e identificação de evidências está sendo realizado no interior da propriedade, sugerindo que o inventário pode levar dias.
Andrew ficou detido na delegacia de polícia de Aylsham na quinta-feira, onde foi interrogado sobre um suposto compartilhamento de informações confidenciais com Epstein, enquanto atuou como enviado comercial britânico entre 2001 e 2011. O caso é investigado pela polícia britânica como “suspeita de má conduta no exercício de função pública”.
O ex-príncipe, que perdeu o título real após uma série de documentos revelados nos EUA mostrarem as relações próximas que manteve com o criminoso sexual — incluindo evidências de sua participação na exploração sexual de menores de idade. Se Andrew for acusado formalmente e condenado, o crime de má conduta pode resultar em prisão perpétua.

