Ir ao Grammy é, antes de tudo, entender que por trás do tapete vermelho há uma celebração que une arte, emoção e bastidores curiosos. Este ano, embarquei rumo a Los Angeles para acompanhar de perto a maior premiação da música mundial — depois de três dias tentando chegar e quatro voos cancelados por conta de nevascas nos Estados Unidos. E posso dizer: cada perrengue valeu a pena.
O dia começou cedo, com a chamada Premiere Ceremony — uma parte menos conhecida e não televisionada da premiação. Foi ali que vivi um dos momentos mais emocionantes do dia: Caetano Veloso e Maria Bethânia receberam o Grammy de Melhor Álbum Global. Ver dois ícones da nossa música sendo reconhecidos num ambiente tão técnico e simbólico, diante de uma plateia internacional, foi um privilégio e motivo de muito orgulho para nós, brasileiros.

A cerimônia principal, realizada na imponente Crypto.com Arena, mostrou a grandiosidade que se espera da maior noite da música, mas também revelou contrastes curiosos nos bastidores: enquanto os artistas brilhavam no palco, nos corredores o público circulava com nachos, cachorro-quente e vinho em lata. Uma cena que reforça o espírito do Grammy — uma celebração pop e glamourosa ao mesmo tempo.


Performances, estilo e novos talentos
A abertura ficou por conta de Rosé, do Blackpink, e Bruno Mars, que incendiaram a plateia com uma performance arrebatadora de “APT.”. Entre as apresentações que marcaram a noite, destaco também a força cênica de Lady Gaga, que surgiu com um visual impactante em “Abracadabra”, e Sabrina Carpenter, que surpreendeu com uma apresentação de “Manchild” cheia de personalidade, reforçando por que está entre os nomes mais promissores da nova geração.


A condução do evento ficou nas mãos do comediante Trevor Noah, que dominou o palco com ritmo ágil, humor na medida certa e uma habilidade notável para instigar os convidados e manter o clima leve, sem perder a elegância.
O uso do palco como manifesto
Ao vencer o Grammy de Melhor Álbum de Música Urbana por Debí Tirar Más Fotos, Bad Bunny usou sua fala para defender os imigrantes, em um chamado por mais empatia — e foi ovacionado. Já Kendrick Lamar fez história ao se tornar o rapper mais premiado de todos os tempos, superando Jay-Z. Entre os novos talentos celebrados na noite, destaque para Olivia Dean, consagrada como Melhor Artista Revelação.


Também tive a sorte de estar em um lugar privilegiado na plateia, que me permitiu ver de perto vários artistas consagrados — daquelas cenas que a gente guarda no olhar pra sempre.

Ao mesmo tempo, o Grammy segue cumprindo um papel fundamental: revelar novos talentos e indicar os caminhos que a música está tomando. A cada edição, surgem produções de altíssimo nível — algo impressionante para quem, como eu, acompanha a premiação há mais de uma década.
Portanto, em tempos acelerados, há algo quase restaurador em ver uma plateia inteira parar para ouvir, cantar e se emocionar com artistas que ajudam a moldar a nossa memória afetiva. E o Grammy, mais uma vez, entregou isso com intensidade e propósito.
Renata Araújo é jornalista, editora do site You Must Go! e da página no Instagram @youmustgoblog

