Teatro, por Claudia Chaves: “Fafá de Belém, o Musical”

Tempo de leitura: 7 min


A gênese de “Fafá de Belém, o Musical” não nasce de um projeto biográfico convencional, mas de uma experiência sensível. Foi dentro do Teatro da Paz, em Belém, que Jô Santana — que já havia retratado Alcione e Martinho da Vila — teve o estalo fundador do espetáculo.

Desde o início, o musical deixa claro que a trajetória de Fafá precisava ser contada para todo o Brasil. A linguagem nasce na Amazônia e se projeta no Brasilzão, onde tempo, cidade e artista se cruzam. Esse entendimento — de que Fafá exige uma dramaturgia que dialogue com origem, território e memória coletiva — faz do espetáculo uma obra ímpar.

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O texto de Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche acompanha essa premissa com inteligência. Em vez de uma narrativa cronológica, opta-se por um fio dramatúrgico construído em camadas, associações e deslocamentos temporais. O espetáculo assume a estrutura de um documentário em processo de filmagem, no qual Fafá revisita sua própria história, interpretando a própria mãe enquanto sua trajetória é reconstruída diante do público.

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Essa escolha formal cria uma interseção potente entre teatro e audiovisual, adotando procedimentos típicos do cinema: cenas filmadas fora de ordem, montadas posteriormente, recombinadas como memória. O tempo deixa de ser linear para se tornar afetivo — e isso dialoga diretamente com a trajetória da cantora.

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Nesse dispositivo, Lucinha Lins entrega uma atuação de rara elegância. Canta e atua com igual grandeza ao interpretar Fafá no presente e sua mãe, sustentando o eixo emocional do espetáculo e ancorando passado e presente com maturidade e precisão dramática.

A linguagem estética da direção artística se alimenta das manifestações populares brasileiras: o Círio de Nazaré, o Carnaval, o cabaré, os rituais coletivos, a fé e a festa que atravessam a formação cultural de Fafá. É um Brasil sem filtro folclórico — um Brasil que emerge da floresta, do corpo e da devoção.

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A direção de Gustavo Gasparani constrói cenas magistrais, como o enterro de Tancredo, e transforma figurinos em alegorias narrativas. Em uma das imagens mais potentes do espetáculo, os panos do vestido de Fafá se convertem em corda, sintetizando visualmente tensão, amarração e resistência. Música, gesto, movimento e imagem caminham sempre em sintonia, sem excessos nem rupturas gratuitas.

No elenco, os destaques se impõem com força. Helga Nemetik constrói uma Fafá jovem que atravessa a plateia com uma interpretação visceral, expondo dores, prazeres e contradições sem exagero. Laura Saab, neta da homenageada, revela um talento raro: presença limpa, sem cacoetes, com uma verdade cênica que emociona justamente pela contenção.

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Ao longo do espetáculo, política, ecologia e memória afetiva se entrelaçam. A artista engajada, a mulher pública e a cantora que atravessou gerações e fronteiras surgem sem dissociação entre arte e cidadania.

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Fafá de Belém, o Musical não apenas celebra cinco décadas de carreira. Ele nasce em um espaço — o Teatro da Paz — e devolve ao país uma obra que é, ao mesmo tempo, íntima e coletiva. Um musical que não conta apenas a história de uma cantora, mas revela um Brasil que canta, resiste e se reconhece na própria voz.

A conversa com Lucinha Lins:

1 – Como foi mergulhar no universo da Fafá de Belém? O que mais te pegou?

Para começar, foi muito difícil e, ao mesmo tempo, muito prazeroso. Como somos contemporâneas, tive — e ainda tenho — a chance de reviver muito do que vivi, assim como ela viveu. Isso facilitou, mas também mexeu profundamente com o meu emocional. Estou revivendo fatos históricos que vivi como cidadã, e conhecer mais profundamente Fafá de Belém tem sido um prazer enorme.

2 -Como foram os ensaios e a troca com o elenco?

Tive muita sorte porque a direção do Gustavo Gasparani nunca quis fazer uma imitação da Fafá. Quando fui chamada pelo Jô Santana, a primeira coisa que eu disse foi que me sentia completamente incapaz de interpretá-la — a Fafá é única. Mas me senti muito à vontade para ser uma atriz convidada, sem deixar de ser quem eu sou, representando alguém que amo e admiro há a vida inteira. Nosso agito é parecido, talvez por sermos contemporâneas. Brincamos com isso, e foi dando certo.

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3 – Ser protagonista de um musical desse porte, depois de tantos anos de estrada, bate diferente?

Eu me sinto uma atriz privilegiada. Honrada com esse convite e muito feliz por fazer parte de um musical brasileiro que exalta uma artista brasileira em seus 50 anos de carreira. Um espetáculo que traz tanta cultura do nosso país para o palco. É um privilégio enorme.

4 -Para quem está começando agora, o que você diria sem lentes cor-de-rosa?

É uma caminhada movida a paixão, mas cheia de dificuldades. Só posso desejar boa sorte e perseverança. Que sigam seus sonhos e talentos. A vida artística é dura, difícil, mas também encantadora. Cada momento é único — e, no fim, o melhor tempo é sempre o hoje.

Serviço:

Até 8 de março

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Quintas e sextas-feiras, às 20h
Sábados e domingos, às 17h

Claudia Chaves
(Arquivo/Arquivo pessoal)



Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/coluna/lu-lacerda/teatro-por-claudia-chaves-fafa-de-belem-o-musical/

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