A meia 3/4, enfeitada por laço dourado, quase esconde o curativo na perna esquerda de Sofia (nome fictício), de 1 ano e 5 meses. A gaze sobre a região do joelho é presa com esparadrapo preenchido por anotações médicas. Pouco acima, a cicatriz avermelhada e hematomas são marcas dos desafios enfrentados pela bebê, que recebeu alta ontem, após 52 dias de internação no Hospital Municipal Pedro II, em Santa Cruz. Ela chegou à unidade por volta das 23h do dia 9 de dezembro, depois que o carro onde estava com o pai e a mãe foi atacado por criminosos na Avenida Brasil, altura de Campo Grande, na Zona Oeste. O casal morreu na hora.
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‘Ocorrência atípica’
A menina foi resgatada por uma equipe do programa Cegonha Carioca, da Prefeitura do Rio, que, por acaso, havia saído para abastecer a ambulância. O motorista Anderson Rodrigues e o enfermeiro Anderson Julião foram abordados por pessoas assustadas com um capotamento próximo ao Viaduto Oscar Brito. A dupla lembra que Sofia estava dentro do carro, caída perto do pai, chorando baixinho, muito pálida e com sangramento intenso nas pernas. O motorista entrou no veículo e a retirou pelo vidro de trás, entregando-a ao colega, que logo iniciou manobras de contenção da hemorragia.
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Domingos Peixoto/Agência O Globo
— Tínhamos poucos minutos para salvá-la. Esse tipo de ocorrência é completamente atípico para nós, já que nosso serviço é voltado para gestantes. A nossa ambulância, inclusive, não é equipada para casos assim. Tivemos que agir com muito cuidado e rapidez — lembra o enfermeiro.
Emocionado, o motorista conta que precisou dirigir em alta velocidade, fazendo em cinco minutos um trajeto até o hospital que em geral dura três vezes esse tempo.
Os médicos responsáveis por Sofia recordam que, no atendimento de emergência, a pressão dela era de seis por zero, com alto risco de parada cardíaca. O ferimento à bala na perna esquerda chegava a 20 centímetros, tomando quase por completo a coxa. Ela ficou internada em estado gravíssimo por 12 dias. A chance de amputar ao menos uma das pernas permaneceu até o 40º dia, devido à destruição de veias e músculos. A recuperação, reforçam os envolvidos, foi um “milagre”: nenhum membro foi perdido, os pés conseguem tocar no chão, e não há sequelas evidentes.
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— Seu tratamento mobilizou praticamente todo o hospital. Ela perdeu todo o sangue duas vezes, fraturou o fêmur. É um milagre vê-la viva, saudável, com as pernas em funcionamento. Importante agora é a fisioterapia, principalmente pelo longo período por aqui — explica Júlio Coelho, médico coordenador da Pediatria do hospital.
Enquanto Sofia era atendida, sua avó paterna recebeu as notícias do crime e da perda do filho. Desnorteada, correu para o Pedro II, e ali ficou durante todo o período de internação da neta.
— Eu moro neste hospital há 52 dias. Durmo aqui, como aqui, tomo banho aqui. Minha neta é a pessoa mais importante da minha vida, não tinha como voltar para casa. Eu não vivi o luto pelo meu filho, estou sendo forte por ela. Sequer fui ao enterro. Ela precisa de mim, é a prioridade — afirma a avó, sobre sua única neta.
No braço direito, ela tem tatuados os nomes dos dois filhos. A vítima do ataque foi o caçula, cuja morte é investigada pela Delegacia de Homicídios da Capital. Segundo a Polícia Civil, o caso está em sigilo.
— Eu não consegui saber ainda como está a investigação, vou começar a me inteirar com a alta da minha neta. É agora que a minha vida vai recomeçar, que vou poder chorar, viver o luto. Me mantive positiva por ela, porque não queria contaminá-la com negatividades. Das vezes que chorei, fiz escondida aqui no hospital . O maior desafio vai ser voltar para casa e perceber que ele não vai estar lá, nem a minha nora — relata a avó.
Festa no hospital
A saída da menina mobilizou o quarto andar da Pediatria do Pedro II. Médicos, anestesistas, enfermeiros e auxiliares de serviços gerais se reuniram no corredor principal e aplaudiram a passagem de Sofia. Na recepção, a equipe organizou uma festa temática, inspirada na personagem Alice, de Lewis Carroll. Diante da decoração, a avó embargou a voz e seus olhos ficaram marejados: a comemoração de 1 ano da neta havia sido com a mesma protagonista.
— Foi uma festa tão linda… A família estava toda reunida — completa a avó, antes de agradecer, elogiando a equipe médica e o hospital: “Não desistiram de salvar a vida (da neta) em nenhum momento”.
Com informações da fonte
https://extra.globo.com/rio/noticia/2026/01/bebe-baleada-na-avenida-brasil-tem-alta-apos-mais-de-50-de-internacao-tinhamos-poucos-minutos-para-salva-la-relata-socorrista.ghtml
Bebê baleada na Avenida Brasil tem alta após mais de 50 dias de internação: 'Tínhamos poucos minutos para salvá-la', relata socorrista

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